A Força Aérea dos EUA desejou transformar o drone de reconhecimento Mach 3 da Skunk Works em um bombardeiro nuclear.

Um documento recentemente desclassificado como secreto veio a tona e mostrou que, durante a Guerra Fria, os militares dos EUA consideraram transformar o drone-espião supersônico D-21 da Lockheed  numa plataforma não-tripulada de ataque. O plano daria à USAF uma arma de ataque de alta velocidade, com penetração profunda e lançamento aéreo. Ainda hoje é uma capacidade que a USAF não desconsiderou.

Em janeiro de 1971, John McLucas, então subsecretário da Força Aérea e diretor do Escritório Nacional de Reconhecimento (National Reconnaissance Office – NRO), enviou um memorando ao subsecretário de Defesa David Packard sobre a proposta para armar o D-21. A NRO, cuja própria existência permaneceu secreta até 1992, divulgou este registro e quase 100 outros documentos relacionados ao programa Tagboard como parte de seus contínuos esforços de transparência em 21 de março de 2019.

Com relação à sua pergunta sobre se o TAGBOARD deve ser considerado como um drone/bombardeiro, fizemos algumas investigações e discutimos isso com a equipe aérea e o SAC [Comando Aéreo Estratégico]“, escreveu McLucas. “Ficarei feliz em fazer qualquer análise adicional ou outro trabalho que você possa sugerir.

Mas as origens do Tagboard, e quase duas décadas de desenvolvimento e atividades operacionais até aquele momento, estavam arraigadas quase exclusivamente na coleta de Inteligência. Para retroceder um pouco, depois que a URSS derrubou Gary Powers pilotando um avião espião U-2 Dragon Lady sobre seu território em 1960, houve um ímpeto considerável para desenvolver Inteligência menos vulnerável reunindo ativos que poderiam penetrar em áreas negadas com risco limitado.

A Lockheed, que projetou e construiu o U-2, já estava no processo de desenvolver um sucessor, conhecido na época como A-12 Oxcart. Esta aeronave evoluiu posteriormente para o famoso SR-71 Blackbird da Força Aérea.

O A-12 poderia voar a mais de três vezes a velocidade do som e a cerca de 27.000 metros de altitude, mas ainda havia reservas dentro do governo dos EUA sobre o envio de qualquer aeronave tripulada em missões de alto risco em países hostis, como a União Soviética. Ao mesmo tempo, a NRO estava avançando com as primeiras gerações de satélites espiões, que, na época, ofereciam uma maneira de espionar essas áreas com virtual impunidade.

O problema com a primeira geração de satélites-espiões era que eles só podiam transportar quantidades limitadas de filme fotográfico (chamado de filme úmido, revelados no próprio satélite e enviados a superfície por meio de pequenas cápsulas – N.T), reduzindo sua capacidade de cobrir grandes áreas e fazê-lo durante um período prolongado de tempo. Além disso, eles tinham uma flexibilidade limitada de reposicionamento quando entravam em suas órbitas. Além de tudo isso, foi um processo complexo preparar satélites adicionais para o lançamento, o que dificultou a garantia de que alguém estava pronto para entrar em curto prazo em resposta a novos desenvolvimentos.

Assim, o governo dos EUA tinha procurado outras plataformas alternativas de coleta de Inteligência que fossem menos vulneráveis do que as aeronaves tripuladas, mas mais flexíveis do que um satélite. A CIA (Central Intelligence Agency), que controlava a frota A-12, procurou a Lockheed e sua divisão de projetos avançados – Skunk Works – em 1962 para pedir novas opções.

Um conceito que a Skunk Works propôs, usava um A-12 modificado como uma nave-mãe para carregar e lançar um foguete com um pequeno satélite no topo na órbita baixa da Terra.

Outra ideia envolvia um A-12 modificado como uma plataforma de lançamento para um drone espião não-tripulado supersônico de alta altitude. A CIA aprovou essa proposta, mas a NRO a tomou para si, dando ao projeto o codinome Tagboard. Naquela época, não havia planos de transformar a aeronave não-tripulada em uma plataforma de ataque.

A aeronave não tripulada de asa delta, construída principalmente de titânio, tinha mais de 12,19 m de comprimento e uma envergadura de 6,09 m. Um motor Ramjet RJ43 modificado Marquardt, também encontrado no míssil terra-ar CIM-10 Bomarc e no drone alvo AQM-60 Kingfisher, poderia impulsionar o D-21 para velocidades acima de Mach 3 em altitudes de cerca de 30 mil metros.

O Tagboard dependia totalmente da nave-mãe para laçar voo, que por sua vez era um A-12 biplace modificado. A diminuta frota de A-12 ficou conhecida como M-21, para obter velocidade suficientemente alta para que o ramjet operasse eficientemente. Após o lançamento do M-21, o drone voaria em uma rota pré-programada totalizando mais de 4.800 km usando um sistema de navegação estelar automatizado. O drone carregava uma única câmera Hycon HR 335 que podia capturar imagens de áreas de até 22 a 25 km de largura, dependendo da altitude, enquanto sobrevoava território inimigo.

Depois de conduzir sua missão, sua rota o levaria a um território neutro, onde seria ejetado o filme, que então desdobraria um paraquedas. O D-21 não era reutilizável e foi configurado para se auto-destruir depois de liberar sua carga útil.

Um avião de carga Hercules JC-130 especialmente modificado capturaria o filme no ar usando uma rede numa espécie de trapézio, levando o filme de volta à base para processamento. A USAF, com a ajuda da CIA e da NRO, inventou esse conceito primeiro nos anos 50 para capturar as cápsulas de filmes que os satélites espiões lançavam. Isso continuou a ser a prática padrão para recuperar filmes e outros dados de satélites até que a tecnologia avançou ao ponto em que era prático transmitir sem fio imagens e outras informações diretamente para uma estação terrestre.

Dadas as características gerais de desempenho do Tagboard e outros recursos, não é difícil ver como o Comando Aéreo Estratégico teria olhado para o drone e visto nele uma plataforma de armas muito viável, e que poderia ajudar a manter a relevância na Era dos mísseis balísticos intercontinentais (ICBM). Se Tagboard podia levar uma câmera e filmar ao longo de uma rota específica antes de liberar uma caixa de filme em um momento preciso, certamente poderia levar uma bomba nuclear e a lançar sobre uma área designada.

No final dos anos 1950, já era aparente que os bombardeiros estratégicos americanos – o B-52 em particular – seriam extremamente vulneráveis às defesas aéreas soviéticas e aeronaves de combate durante um conflito total. Como resultado, a USAF já havia iniciado o trabalho com um míssil balístico de ponta nuclear lançado do ar, o GAM-87 Skybolt, e um míssil de cruzeiro de longo alcance com armas nucleares, o GAM-77 Hound Dog, como opções de impasse para o B-52.

O Hound Dog, que deveria ser uma arma provisória até o Skybolt estar pronto, tinha um alcance máximo de 1.200 km e uma velocidade máxima de pouco mais de Mach 2. O Skybolt poderia atingir alvos a até 1.850 km de distância e, desde que voasse em uma trajetória balística, chegaria ao alvo em velocidades hipersônicas acima de Mach 12.

O Skybolt sofreu atrasos significativos nos testes e, em 1962, o presidente John F. Kennedy cancelou o programa em favor de uma combinação de mísseis balísticos Polaris lançados por submarinos e ICBMs Minuteman baseados em terra. Hound Dog, que entrou em serviço em 1960, permaneceria operacional até 1978.

Uma versão armada do Tagboard teria oferecido mais de três vezes o alcance do Skybolt e seria capaz de cobrir essa distância a uma velocidade máxima ainda maior. Sem a necessidade do drone retornar a uma área segura para depositar o filme, ele poderia ter atingido os alvos a mais de 4.800 km – o suficiente para atingir Moscou a partir de um ponto de partida no meio do Atlântico Norte.

Dependendo da configuração exata do drone com armas, poderia ter lançado várias bombas em vários pontos ao longo de uma determinada rota. A USAF poderia simplesmente tê-lo empregado como mais um míssil, carregando uma única ogiva diretamente para um alvo. Uma mistura de ambas as opções poderia ter permitido atingir vários objetivos ao longo do caminho para um destino final, onde teria detonado uma última ogiva.

Além disso, assim como o Tagboard era mais flexível do que lançar satélites espiões, uma versão “bombardeiro” do drone, que foi como o Diretor da NRO descreveu para o Secretário de Defesa, teria oferecido muitas dessas mesmas vantagens sobre os IBCMs. A alta velocidade da aeronave não tripulada poderia ter sido útil para atingir alvos sensíveis ao tempo em distâncias mais curtas.

A aeronave de lançamento teria mantido todos os benefícios que um bombardeiro também traz à mesa. Estes incluem a capacidade de voar em alerta mais próximo da área-alvo durante uma crise, mostrando-se presente em tempo real a um inimigo. Os bombardeiros também são mais fáceis de lembrar do que um míssil balístico, capaz de voar até a borda do espaço aéreo inimigo antes de ter que liberar uma arma real, dando aos comandantes mais tempo para responder a novos desenvolvimentos e potencialmente abortar a missão. Tudo isso continua sendo o caso hoje e estão entre os principais argumentos para manter o B-52H em operação até 2050.

Infelizmente, Tagboard e suas naves-mãe M-21, rapidamente se mostraram complexos e complicados. As interações físicas entre o M-21 e o D-21, que o avião tripulado carregava em cima de sua fuselagem, eram francamente perigosas.

No primeiro voo de teste da combinação M-21/D-21 no dia 5 de março de 1966, o drone permaneceu preocupantemente perto da nave-mãe após a liberação antes de voar com segurança. Os dois testes seguintes envolveram separações sem complicações, mesmo que o drone tenha falhado mais tarde em ambos os casos.

O quarto teste no dia 30 de julho de 1966 chegou a um final trágico quando o D-21 sofreu um problema de motor durante o lançamento, atingindo o M-21, destruindo ambas as aeronaves. O piloto Bill Park e o oficial de controle de lançamento, Ray Torrick, foram ejetados. Eles caíram no Oceano Pacífico ao largo da costa da Califórnia. Park sobreviveu, mas Torrick infelizmente se afogou.

O lendário chefe da Lockheed Skunk Works, Kelly Johnson, ficou tão perturbado com o acidente que inicialmente se recusou a trabalhar no programa e se ofereceu para reembolsar o dinheiro que o governo dos EUA já havia pago. No entanto, a NRO e outros insistiram em continuar o programa, então Johnson ofereceu transportar o D-21 em uma plataforma de lançamento alternativa, num bombardeiro B-52H.

A configuração resultante consistia em um B-52H equipado com um cabide subalar reforçado, sob cada asa, semelhantes aos que os bombardeiros usavam para transportar mísseis Hound Dog, mas cada um carregando um único D-21. Como os próprios bombardeiros não conseguiam alcançar velocidades supersônicas, a Lockheed modificou os drones para incorporar um propulsor-foguete para impulsioná-los antes que o ramjet pudesse assumir o controle. Esses novos D-21B também tinham um recurso de autodestruição de comando, no caso de um mau funcionamento sério.

A USAF ativou o 4200th Support Squadron na Área 51 para apoiar o programa de testes inicial, que envolveu seis voos de teste, entre janeiro e junho de 1968, apelidado de Captain Hook I a VI. No dia 9 de novembro de 1969, um B-52H partindo da base aérea de Andersen em Guam, lançou a primeira missão D-21B operacional, que enviou o drone voando sobre o local de testes nucleares de Lop Nor , como parte do Project Senior Bowl.

Esse drone nunca voltou, supostamente voando para a União Soviética e caindo. Em fevereiro de 1970, o 4200th realizou outro voo de teste, apelidado de Long Drive, no Pacific Missile Range, no Havaí, para validar várias correções.

Depois disso, houve mais três missões do Senior Bowl sobre a China. Dos dois que realmente retornaram como planejado, ambos tiveram problemas em liberar as caixas de filme, que foram posteriormente perdidas. No voo operacional final, em 20 de março de 1971, o drone caiu dentro da China. Os destroços remanescentes estão agora em exibição nesse país.

Em janeiro de 1971 o NRO respondeu ao vice-secretário de Defesa que o programa Tagboard era decepcionante, bem como seu custo. Cada um dos drones do Tagboard, dos quais existiam cerca de 20 na época, custaram US$ 2,5 milhões – mais de US$ 15 milhões hoje, mas ainda mais barato que o custo das últimas versões do MQ-9 Reaper. O NRO não tinha certeza exatamente quanto mais seria necessário para convertê-los em uma plataforma de ataque.

Mesmo hoje, o custo exato do programa ainda não é possível saber, especialmente porque incluiu financiamento de vários programas negros, mas teria sido avaliado em bilhões de dólares atuais.

O governo Nixon cancelou todo o programa em julho de 1971. Os 17 D-21 restantes foram armazenados primeiro na Base Aérea de Norton, na Califórnia, e depois no cemitério da Base Aérea Davis-Monthan, onde se tornaram visíveis ao público. O programa permaneceu oficialmente secreto até a década de 1980.

Hoje, existem doze D-21 em exibição, 11 nos Estados Unidos e um na China. A única nave-mãe sobrevivente M-21 está no Museum of Flight em Seattle, Washington.

É importante notar que, mesmo quando o programa D-21 estava em andamento, a USAF já estava começando a investigar seriamente a tecnologia stealth. À medida que esses esforços progrediram e o conceito geral tornou-se mais viável na década de 1970, o stealth substituiu a velocidade de forma constante como o principal meio de penetrar na rede de defesa aérea de um inimigo.

Mas o conceito geral por trás do D-21 tem sobrevivido de muitas maneiras. Na década de 2000, a Skunk Works trabalhou com a Marinha dos EUA para projetar um avançado míssil de cruzeiro supersônico de resposta rápida.

O míssil BGM-178 resultante lembrava muito o D-21. Ele apresentava um motor turbojato YJ102R da Rolls Royce, um projeto de fluxo alto-axial que teria sido capaz de impulsionar a arma, carregando uma poderosa ogiva ou uma carga de pequenas bombas de submunição, alcançando velocidades em torno de Mach 4. Isso significa que poderia atingiram o seu alcance máximo de mais de 800 km em cerca de 30 minutos.

Semelhante a como um D-21 armado poderia ter operado, a Marinha imaginou uma arma lançada no mar que poderia penetrar profundamente em áreas negadas e fazê-lo rapidamente para poder atacar alvos sensíveis ao Tempo em curto espaço de Tempo. Este programa desapareceu dos olhos do público no final dos anos 2000 antes que qualquer teste de voo ocorresse, mas o desenvolvimento do míssil pode ter, pelo menos, ajudado a informar o desenvolvimento de uma arma supersônica mais avançada e ultrassecreta, conhecida como Sea Dragon.

Mas o que quer que tenha acontecido com o programa da Marinha dos EUA, a demanda por melhores capacidades para permitir que os militares dos EUA atinjam alvos críticos rapidamente não se dissipou. Muito pelo contrário, aconteceu e tem havido uma explosão de interesse em aeronaves hipersônicas e projetos de mísseis ultimamente. Até mesmo o B-52 está sendo considerado novamente como o veículo ideal para transportar e lançar mísseis de alta velocidade, como o programa D-21.

Ao mesmo tempo, potenciais oponentes dos EUA, especialmente a Rússia e a China, têm trabalhado duro no desenvolvimento de radares e outros sensores aprimorados para que possam detectar e, possivelmente, engajar aeronaves furtivas. Isso só aumentou ainda mais o prêmio sobre a velocidade, não apenas para atingir alvos rapidamente, mas para reduzir a vulnerabilidade contra aeronaves e mísseis de defesa aérea inimigas no processo.

Assim, enquanto o D-21 nunca alcançou o sucesso no papel de coleta de informações, e nunca foi transformado em uma plataforma de ataque, certamente ajudou a abrir caminho para novos desenvolvimentos que possam vir a ser concretizados em um Futuro próximo.


FONTE: The Drive

3 COMENTÁRIOS

  1. incrível história de um grande desperdício de tecnologia e verba em prol da 1ª cold war. Kelly Johnson errou feio em criar essa coisa com a tecnologia analógica da época. Ainda bem que não foi tão caro quando outros programas da época