No Pentágono, edifício-sede do Departamento de Defesa e do Estado-Maior das Forças Armadas dos Estados Unidos, situado em Arlington, perto de Washington, estrategistas costumavam debruçar-se sobre planos de luta numa guerra mundial. A mesma atitude se repetia em alguma repartição do Kremlin, em Moscou.

A impressão geral dos analistas era de que a crescente confiança no poderio americano, visivelmente sentida por sua população nos anos 80, levava os EUA a ter menos temor de um conflito global do que a União Soviética. Uma comparação das perdas das duas potências na Segunda Guerra Mundial reforçava esse pensamento: a URSS contou 20 milhões de mortos; os EUA, 300.000. Se eventuais bombardeios com ogivas nucleares poderiam sacrificar milhões de civis de lado a lado, os combates convencionais tinham muito mais chance de se desenrolar longe do território americano.

As especulações sobre uma possível confrontação militar EUA-URSS existiam e precisavam ser registradas, com a ressalva de que a paz entre as superpotências nunca foi perturbada por mais do que embates diplomáticos e exercícios de retórica, sendo clara a intenção comum de se evitar o “esquentamento” da Guerra Fria.

O cenário inicial da Guerra Fria foi a Europa central, e a geração que passara pela experiência da Segunda Guerra Mundial chegou a imaginar a deflagração iminente de outro conflito internacional. No começo dos anos 60, entretanto, as áreas de influência na Europa já estavam bem definidas; problemas em outras partes do mundo passaram a ser vistos como possíveis estopins para novo confronto global. Ambas as superpotências mantinham forças consideráveis em zonas perigosas fora da Europa, corno, por exemplo, o golfo Pérsico e o oceano Indico.

No entanto, a grande concentração de forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e do Pacto de Varsóvia face a face, em território europeu, levou muitos analistas a crer que ali se deflagraria a Terceira Guerra Mundial, empregando de início armas convencionais, mas podendo derivar para um conflito atômico.

Tanto a OTAN quanto o Pacto de Varsóvia tiveram de adaptar seus conhecimentos militares à nova tecnologia bélica. Era preciso aumentar o poder de blindagem de seus tanques, devido ao surgimento do míssil anticarro portátil; cresceu também a importância do helicóptero como recurso para mobilidade e poder de fogo. Se não poupava esforços para disputar com os EUA a vanguarda tecnológica, a URSS também não ficava atrás na adoção de medidas apropriadas ao moderno campo de batalha. A estratégia militar soviética sempre enfatizou a importância do máximo poder de fogo e da grande mobilidade, duas características que remontam ao Exército Imperial russo, impostas pela necessidade de defender as extensas fronteiras do país.

Tripulantes de um helicóptero soviético Mil Mi-24 Hind-D planejam uma missão. Fortemente armados e blindados, os modernos helicópteros de combate são decisivos nos campos de batalha da atualidade.
Boeing B-47 Stratojet

No final dos anos 70, o Exército soviético começou a introduzir o conceito de Grupos de Manobra Operacional (Operational Manoeuvre Groups – OMG) entre suas forças estacionadas na Europa.

A função dos OMG, em tempo de guerra, seria tornar possível a infiltração direta do primeiro escalão de forças nas linhas inimigas, até a sua retaguarda, atacando alvos específicos como pontes, pistas de pouso e decolagem, estradas e depósitos de armas nucleares, bem como os sistemas C³ (comando, controle e comunicações) do oponente.

Embora abrangendo infantaria motorizada, artilharia autopropulsada e unidades de guerra química, era provável que cada OMG fosse predominantemente uma formação blindada. A crescente capacidade da OTAN para infligir grandes danos em blindados do Pacto de Varsóvia, por meio de mísseis anticarro, somada ao poderio cada vez maior dos helicópteros do Ocidente, resultou que cada OMG precisaria ter substancial apoio de infantaria, bem como dos helicópteros artilhados Mil Mi-24 Hind, estacionados na Europa oriental.

Novos conceitos

Em 1980 surgiram novos conceitos no seio da OTAN. Sem abandonar a teoria anterior de Defesa Frontal (que alocava forças para defender a delicada fronteira entre as duas Alemanhas), a Aliança Atlântica desenvolveu uma estratégia no sentido de maior mobilidade e agressividade.

Em particular, a adoção de um novo manual básico de campo pelo Exército americano, em agosto de 1982, refletiu um reposicionamento das atitudes em relação à guerra convencional. Conhecida como Batalha Aeroterrestre (os armamentos seriam projetados para dar ao Ocidente uma capacidade de combate subnuclear para compensar a vantagem numérica do Pacto de Varsóvia), a doutrina ali contida era, em muitos pontos, comparável ao conceito dos OMG e determinava a criação de uma defesa altamente escalonada, operando em “campo de batalha extensivo”, isto é, em território inimigo.

Como a Batalha Aeroterrestre era pertinente apenas ao Exército americano, excluindo as forças européias, foi complementada pelo chamado Ataque de Forças Acompanhantes (Follow-On Forces Attack – FOFA), elaborado pelo QG da OTAN na Europa e anunciado em 1982 pelo seu comandante-chefe, general Bernard W. Rogers. O FOFA recomendava a exploração da superioridade tecnológica da OTAN sobre o Pacto de Varsóvia, pelo emprego de armas de alta tecnologia, e atacar em profundidade, como os OMG soviéticos, destruindo pistas de pouso e decolagem, sistemas estratégicos e C³.

O B-52 é um ícone da Guerra Fria que sobreviveu até os dias de hoje

Nesse caso, porém, surgia o risco de ser transposto o “limiar nuclear”, devido à latente permissividade que passaria a existir para o uso das armas nucleares táticas, pondo abaixo o conceito de dissuasão. De qualquer modo, toda a defesa convencional da Europa ocidental dependia estreitamente da mobilização dos vastos recursos industriais e militares dos EUA e ainda do rápido deslocamento de tropas através do Atlântico. Essa dependência se tornaria crítica se portos como os de Antuérpia e Roterdam, que estão na rota de suprimentos da OTAN, viessem a constituir os alvos principais dos mísseis soviéticos, com ogivas tanto nucleares quanto convencionais.

Apertando o botão

Existia um profundo relacionamento entre o planejamento logístico e a estratégia marítima da OTAN. O poderio naval soviético dos anos 80 permitia que Moscou estendesse sua influência política em tempos de paz, mas em caso de guerra isso se tornaria uma ameaça às linhas de suprimento da OTAN através do Atlântico norte.

Para enfrentar tal desafio e o perigo ainda maior representado pela grande frota de submarinos nucleares da URSS, a Aliança Atlântica preocupava-se com os grupos de batalha naval que operariam nas águas geladas do mar do Norte, em apoio ao seu flanco setentrional, a Escandinávia.

Do ponto de vista da OTAN, o rumo tomado por uma guerra convencional seria o fator determinante de uma eventual escalada para o nível nuclear, desde o emprego de armas táticas até os poderosos artefatos estratégicos. Moscou nunca fez segredo de sua rejeição a esse argumento, afirmando que qualquer combate entre as forças da OTAN e do Pacto de Varsóvia seria necessariamente nuclear, desde o início. Essa perspectiva aumentava, de parte a parte, a vulnerabilidade das redes de comando e informação, pois os efeitos térmicos e radioativos de uma explosão atômica destroem os transistores e circuitos integrados dos sistemas de contra-medidas eletrônicas. Em tal situação, como se comportariam os comandantes para evitar uma acefalia que poderia resultar em uma errática e desenfreada escalada nuclear?

Embora a cadeia de comando americana para a detonação de artefatos atômicos fosse um bem guardado segredo, alguns detalhes do seu sistema eram conhecidos. Se a URSS lançasse um ataque de ICBM (mísseis balísticos intercontinentais) contra os EUA, a Autoridade de Comando Nacional (US National Command Authority) seria alertada por meio do sistema de alarma antecipado de radar que se estendia do Alasca e da Groenlândia até a Grã-Bretanha.

Assim que esse sistema detectasse a agressão inimiga, o presidente da República seria imediatamente avisado e conduzido, junto com os códigos necessários para lançar um contra-ataque nuclear (sempre carregado por um oficial da Força Aérea e uma maleta conhecida por “bola de golfe”) para um posto aéreo de comando. Do ar, em pleno voo, poderia comandar as operações mesmo quando bases militares terrestres estivessem destruídas.

Os postos aéreos de comando — montados a bordo de aviões Boeing 747 Jumbo e denominados E-4B — estavam em contato permanente com as alas de ICBM americanos e com unidades da Marinha que repassariam as instruções para seus submarinos nucleares. Por meio de satélites, os E-4B também entrariam em contato com forças nucleares táticas e estratégicas baseadas não apenas fora do território americano, como — na última década do século XX — fora da própria Terra (o escudo espacial defensivo que constituía a discutida “guerra nas estrelas”).

Fantasia ou realidade?

Permanece sem resposta, todavia, a questão das circunstâncias em que uma guerra desse tipo seria desencadeada. Já se consideraram as mais diversas alternativas, desde um ataque de surpresa da URSS (pesadelo permanente dos americanos que ainda não se esqueceram de Pearl Harbor) até um assalto oportunista do Exército soviético a uma cidade qualquer da Alemanha Ocidental.

Como, nessas especulações, Moscou surge sempre na condição de potência agressora, e tem mais a perder do que os EUA e o Ocidente em geral, a realidade dos fatos impõe uma visão menos catastrófica: planos para a 3.ª Guerra Mundial podem ser feitos, mas com a íntima certeza – ou pelo menos, a esperança – de jamais serão usados.


FONTE: Guerra na Paz – pág.: 1180


Ensaio sinistro

Uma guerra simulada, travada no QG da OTAN em Bruxelas, revelou que os exércitos combinados da Europa ocidental não resistiriam mais de quinze dias a uma invasão maciça do Pacto de. Varsóvia sem recorrer às armas nucleares. O ensaio mostrou também, numa outra hipótese, que a utilização de armas químicas pelo “inimigo” deixaria os aliados ocidentais praticamente indefesos.

Batizada de Exercício Wintex-Cimex, a “guerra de mentira” começou em 26 de fevereiro e terminou em 13 de março de 1985, quando o comandante-chefe da OTAN, general Bernard Rogers, “solicitou” o uso das armas nucleares ante o “esfacelamento” de suas tropas e armamentos pela ofensiva vinda do Leste.

A França e a Grécia não participaram do ensaio, que envolveu nada menos de 250.000 pessoas nos principais núcleos militares da OTAN e nas capitais de treze países.

O roteiro da “guerra” é secreto, mas sabe-se que previu a destruição, em poucos meses, de metade do poderio industrial da Alemanha Ocidental e a morte de 15 milhões de alemães. Além disso, as forças aliadas seriam inteiramente cercadas na Turquia e na Noruega. Ocupada, a Iugoslávia assistiria à irrupção de um grande movimento guerrilheiro.

Segundo um alto funcionário da OTAN, o principal objetivo do exercício foi avaliar o funcionamento dos sistemas C³ da Aliança Atlântica em caso de emergência.

7 COMENTÁRIOS

  1. De uma coisa eu tenho certeza se ocorrer uma terceira guerra mundial como dizem as previsões com certeza vai ter uso de arma nuclear e com isso uma mudança nos conceitos da humanidade, pois dizem também os entendidos que pesquisam a bíblia que teremos um bom tempo de paz até o fim de tudo depois de muita tribulação, bom digamos que seja verdade tudo isso a única explicação que vejo para todo o mundo resolver fazer paz mesmo seria um ataque nuclear que independente de onde seja o mundo todo vai sofrer.
    Na minha humilde opinião deveria ser banido do mundo este tipo de arma pois sem ela forçaria os governos a desenvolver algo melhor e menos destrutivo com ótima capacidade defensiva, já imaginaram um escudo onde não passe nada balístico, de que adiantaria lançar um ataque nuclear se ele não vai passar por este escudo, falta evolução e alguém que mostre esta ideia para os EUA e faça eles desenvolver esta tecnologia pois pelo que vejo não falta muito não mas falta tecnologias essenciais para o uso deste escudo.
    Aproveitando a criatividade eu não acredito que seria muito difícil fazer um novo conceito de centro de guerra, se juntar o conceito americano e russo de porta aviões teremos um porta aviões muito bem armado podendo ter vários mísseis e metralhadores podendo ter energia dirigida (laser) também e com uma excelente capacidade aérea, seria uma ótima estação de batalha e poderia ser feito com a tecnologia que temos hoje faltando apenas desenvolver motores capazes de erguer uma carga tão pesada assim mas já imaginaram a dificuldade de derrubar uma estação de batalha destas com F35, F15, vários mísseis e metralhadoras por todo lado, seria muito caro mas com certeza faria a balança pender para o lado de quem possuir tal arma e daria muitos anos de superioridade para este país o que vocês acham?

    • Sem armas nucleares, o Mundo já teria mergulhado na 3ª…4ª…Guerras Mundiais…
      Pense, crise dos mísseis sem a existência de armas nucleares. EUA e URSS teriam ido as vias de fato!
      Armas nucleares não são só dissuasórias, são armas do juízo final. Veja o caso da CN e do Irã, barganhando com o Mundo usando o medo.

      • Sim Gio você tem toda a razão, neste sentido do seu pensamento esta corretíssimo mas o que eu quis mostrar é justamente a falta de um avanço mais firme para manter a superioridade dos EUA como no exemplo da estação de batalha, agora imagina agora numa guerra contra os EUA com um bom escudo onde não passa nada balístico qual seria o sentido lançar um míssil nuclear se ele vai ser destruído muito antes de chegar nos EUA, não tem sentido usar uma arma destas e isso obriga este adversário a desenvolver outro tipo de armamento de possa atravessar este escudo e antes que digam que estou viajando nos escudos de energia de Independece Day, poderia ser um escudo de laser (energia dirigida) com a tecnologia que já temos hoje.
        Na minha opinião falta atualmente alguém de "saco roxo" como dizemos aqui no sul pra pedir e trabalhar por uma ideia que coloque novamente os EUA na vanguarda e com uma superioridade real e prolongada sobre todo mundo, hoje eles ainda tem esta superioridade mas esta sendo reduzida muito rapidamente, infelizmente não sabemos o que os EUA estão pensando e planejando pois isso só veremos daqui a uns 15 anos ou mais mas torço pela retirada total das armas nucleares pela pouca eficácia num conflito já que tem coisa melhor pra ser usada, este é a enfase do que estou colocando no meu comentário, um grande abraço ao amigo.

  2. Recomendo a leitura do livro "Agosto de 1985 – A Terceira Guerra Mundial". Se baseia num cenário considerado muito realista a época que foi escrito, fim dos anos 1970, tendo, segundo se disse na ocasião, resultado em ajustes em táticas da OTAN, pois foi escrito por um ex- Alto Oficial desta (General Sir John Hackett).
    Garanto que é excelente leitura.

    • Nesse livro, é engraçado que o autor imaginou uma revolução em um país importante do Oriente Médio, pela visão do autor, foi a Arábia Saudita e não Iran.
      Outro ponto interessante, é que ele também imaginou que a RAF usaria o F-15, assim como já usava o F-4.