No dia 14 de setembro de 1976 um estranho acidente a bordo do porta-aviões USS John F. Kennedy levou para o fundo do mar um F-14A Tomcat novinho. Junto com ele um AIM-54 Phoenix.

O USS John F. Kennedy estava a aproximadamente 160 km a noroeste de Scapa Flow, na Escócia, participando do exercício naval “Teamwork´76”, com outros 100 navios da OTAN. Era o Dia da Imprensa e os fotógrafos dos EUA e Europa queriam ver a estrela do show, o novíssimo F-14 Tomcat, em serviço a pouco mais de dois anos. Todos assistiam a um F-14 do esquadrão VF-32 enquanto este taxiava em direção a catapulta número 3 para o lançamento. Nos comandos, o Tenente J. L. Kosich e seu oficial de interceptação de radar (RIO), o tenente L. E. Seymour. De repente, os motores inexplicavelmente rugiram para a força total. O tenente Kosich imediatamente checou o acelerador, mas viu que ainda estava na posição marcha lenta. Ele puxou o freio, mas o avião começou a derrapar apesar dos pneus travados.

À frente, uma fila de aeronaves enquanto a borracha dos pneus marcavam o convés. O Tomcat derrapou para a esquerda em direção à tripulação do convés de vôo. Um tripulante foi atropelado, tendo o tornozelo esmagado pelo avião errante. A asa direita do F-14A bateu em dois aviões, causando danos significativos. Kosich lutava com o avião e conseguiu evitar um acidente catastrófico, tirando o F-14 de ir ao encontro de uma linha completa de jatos abastecidos e armados. Ainda assim não havia como parar o F-14. Finalmente Kosich e Seymour se ejetaram quando o avião caiu do convés em direção ao mar.

Acontece que um cruzador da Marinha Soviética estava seguindo a frota, observando o exercício e acompanhou em tempo real o acidente, registrando a posição do Tomcat no fundo do mar. As implicações eram claras: o Tomcat afundara com o mais novo e secreto míssil ar-ar dos EUA, o AIM-54 Phoenix, bem como seu revolucionário sistema de radar de controle de fogo AWG-9.

Conhecendo as capacidades de recuperação em águas profundas da União Soviética, era evidente que seria uma corrida contra o tempo para recuperar o jato antes que as tecnologias sensíveis caíssem em mãos soviéticas.

Equipado com um revolucionário míssil ar-ar AIM-54 Phoenix e o sistema de radar AN/AWG-9, gerenciado por um oficial de interceptação de radar no banco de trás do Tomcat, os sistemas AIM-54 e AN/AWG-9 podiam rastrear seis alvos simultaneamente, redirecionar o míssil em voo para alvos alternativos e realizar interferências em radares inimigos. O Phoenix tinha um alcance extraordinário de 185 km, velocidade Mach 5 e altitude máxima de operação de aproximadamente 30.000 m, permitindo assim que “caísse” sobre seus alvos. O míssil forçava os soviéticos a operarem muito mais longe dos porta-aviões americanos do que haviam projetado para suas armas. Os militares dos EUA temiam que os soviéticos recuperassem a aeronave e o Phoenix. Através de engenharia reversa, a tecnologia poderia ajudar a URSS a dar um salto dramático em sua qualidade de mísseis. A Marinha dos EUA não pouparia esforços em uma verdadeira corrida contra os soviéticos.

USS Shakori

O Tomcat afundou em águas com 500 m de profundidade e recuperar o avião e seu único míssil AIM-54 Phoenix não seria fácil. Quando a frota do Teamwork 76 partiu, ficaram contentes que os navios soviéticos os seguissem. A preocupação era, no entanto, que os soviéticos tentassem rapidamente uma recuperação com uma rede profunda arrastada por uma traineira. A Marinha dos EUA ordenou um vigia de 24 horas no local por via aérea. Logo uma rotação de aviões P-3C Orions com base em Keflavik, Islândia, se revezavam no ar sobre o local.

Para facilitar a rápida recuperação antes do início da temporada de inverno, a empresa Seaward Inc., de Falls Church, Virginia, que atendia aos requisitos especiais da Marinha, foi contratada. Um navio de salvamento norueguês chamado “Constructor” também foi subcontratado, assim como um sonar de varredura lateral da Hydro Surveys, uma empresa com sede na Flórida. A Marinha forneceu o rebocador USS Shakori.

O USS Shakori implantou o equipamento de sonar de varredura lateral da Hydro Surveys e procurou o avião perdido nas águas cada vez mais frias do Atlântico norte. Durante dez dias, os exames de sonar não mostraram nada. Mas no dia 3 de outubro, o sonar mostrou um alvo promissor – mapeando cuidadosamente o local, que ficava a uma distância de onde o avião deveria estar, o USS Shakori retornou ao porto para reparos e suprimentos. Depois de uma semana, o navio partiu de novo para o local, mas ao chegar descobriu que o “ponto-sonar” estava vazio. O avião tinha se movido? Teria sido recuperado pelos soviéticos? Tinha sido arrastado por redes soviéticas? O que quer que tenham visto antes foi embora.

Enquanto isso acontecia, um engenheiro da Sperry chamado Roger Sherman entrou na sede do Submarine Squadron Two em Holy Loch, na Escócia, com uma idéia: por que não enviar o submarino secreto da Marinha NR-1 para recuperar o avião? A resposta que ele recebeu foi chocante. Ninguém na unidade sabia ou tinha ideia do que era o NR-1.

O NR-1 era um projeto secreto da Marinha dos EUA, um mini submarino nuclear, desarmado, mas recheado de segredos tecnológicos. Sherman recebeu uma ligação ordenando-lhe que calasse a boca. Houve um pequeno atrito dentro do alto comando da Marinha entre oficiais de superfície e submarinistas, mas no fim a Marinha concordou em colocar o NR-1 na recuperação.

Com o NR-1 procedendo para a área, a Marinha dos EUA e a Marinha Real enviaram navios para limpar a área de qualquer embarcação soviética. Sob as ondas, a Marinha enviou o submarino de ataque USS Batfish, para “higienizar” a área de qualquer embarcação não aliada. Carregado com torpedos, o submarino cruzou a área, muito consciente de que a natureza inespecífica do termo “higienizar” tinha consequências potencialmente profundas. Na superfície, o HMS Blue Rover recebera ordens para atirar se fosse necessário. O desejo soviético estava claramente sendo desestimulado nos termos mais crus, ainda assim os soviéticos enviaram uma frota de navios de recuperação apoiados pela Marinha Soviética. Enquanto os EUA e a Marinha Real observavam, os soviéticos estavam indo em direção ao local, sem se intimidar com a ameaça e com a intenção de defender seu direito de recuperação com armas, se necessário.

Dias passaram em buscas adicionais antes que o alvo do sonar fosse novamente plotado a bordo do USS Shakori. O NR-1 foi enviado para o local, mas descobriu que o leito do mar estava repleto de pedras, cada uma das quais retornava sinais com diferentes intensidades, com base nos ângulos e tamanhos. Achando o sonar inútil, o NR-1 iniciou um laborioso padrão de busca de caixa, buscando o alvo visualmente. Então, de repente, o NR-1 avistou um enorme emaranhado de numerosas redes de arrasto à frente. O piloto do submarino imediatamente comandou a reversão, mas aparentemente foi muito lento, quase atingindo as redes, parando a apenas 6 metros de ficar preso no emaranhado de cabos. Recuando, o capitão levou o submarino com cuidado para baixo até o fundo, presumindo que as redes haviam capturado algo.

O segundo afundamento, mas desta vez na posição certa

Na base das redes, o F-14 estava deitado de costas, uma asa esmagada, aparentemente arrastada pelas redes de arrasto por quilômetros. Alguém havia roubado – era apenas uma traineira de pesca em alto mar ou eram os soviéticos? Ninguém sabia, mas parecia óbvio que havia poucos peixes que interessavam a um pescador comercial. Fotografias das redes e flutuadores de bóias revelaram uma variedade de origens – números franceses, número de frotas do Reino Unido e, ameaçadoramente, a escrita cirílica. Parece que os russos tentaram arrastar o avião enquanto o USS Shakori estava reabastecendo na Escócia. O mais provável é que os soviéticos quase chegaram primeiro. O avião era pesado demais. Pelo menos agora a Marinha dos EUA tinha a aeronave à vista.

No entanto, um problema: o AIM-54 Phoenix estava faltando.

A tarefa do NR-1 era desafiadora. O avião estava preso em várias redes, que flutuavam na corrente marinha e ameaçavam prender o submarino no fundo. O NR-1 subiria lentamente acima da rede e manter-se-ia longe o suficiente para não se enroscar e tentaria amarrar um cabo ao redor do avião com o braço operado robótico operado remotamente (sim, o NR tinha um braço robótico). Para complicar ainda mais a tarefa, um fenômeno de regiões profundas só recentemente descoberto, um tipo de corrente marinha repentina e muito forte que em muito lembra as Jet streams, ou seja, as correntes de ar de alta altitude que viajam a 500 km/h. Aquilo era algo totalmente desconhecido para a ciência, para o qual, até hoje, há poucas explicações. Durante todos os dias da operação o NR-1 foi atingido pela poderosa onda de corrente profunda, e a cada vez quase “derrubando” o submarino.

Enquanto isso, na superfície, a Marinha Soviética estava se aproximando com sua própria frota de recuperação. A Marinha Real fez o melhor que pôde para reter as embarcações, mas os soviéticos foram implacáveis, dia após dia, indo em direção ao local até finalmente chegarem. De fato, parecia que os soviéticos sabiam exatamente para onde estavam indo. No entanto, a recuperação estava quase concluída – ou assim eles esperavam. Os soviéticos chegaram e uma tensa pausa se seguiu. A Marinha dos EUA prosseguiu com seus esforços de recuperação enquanto os soviéticos esperavam. Enquanto isso, sem o conhecimento dos soviéticos, bem abaixo e escondido da vista, as linhas de recuperação foram estabelecidas pelo NR-1.

Em meio a mais uma tempestade, um navio acima começou a levantar a aeronave. Com ondas de 6 metros, o trabalho começou. Os soviéticos reconheceram que algo estava acontecendo e um de seus navios fez uma corrida em direção ao navio da Marinha dos EUA. Foi interceptado e posto para fora da área, mas os soviéticos se aproximaram, observando qualquer evidência que pudessem detectar. A elevação prosseguiu lentamente enquanto os navios se lançavam nos mares revoltos. Cada onda colocava pressão nos cabos de elevação e, finalmente, as tensões foram demais. Na metade do caminho a linha subitamente se rompeu e o avião tornou a correr para o fundo do mar mais uma vez. Pelo menos desta vez ele caiu do lado certo.

Os soviéticos pareciam satisfeitos. Eles continuaram a esperar enquanto a Marinha dos EUA ajustava sua posição e começavam a tarefa de dias de realocação do avião, estabelecendo novos cabos e tentando outro içamento. Novamente, o NR-1 conectou as linhas e os navios foram conectados. Os cabos apertaram e a elevação começou. Mais uma vez o avião foi levantado e, mais uma vez, caiu de volta ao fundo do mar. Seguindo o exemplo dos soviéticos, os americanos decidiram por uma solução de força bruta – o avião seria amarrado e arrastado para águas rasas.

Enquanto isso, muito abaixo, o NR-1 abandonou a delicada recuperação e, em vez disso, se concentrou na busca pelo AIM-54. Mais uma vez, lentamente, realizou a varredura da área no modo visual, no padrão de busca em formato de caixa, com os tripulantes pacientemente observando o fundo do oceano até que o míssil foi avistado.

O Phoenix descansava no fundo aparentando apenas pequenos danos. Na superfície, soviéticos e americanos olhavam um para o outro, com os soviéticos esperando outra tentativa de içamento fosse feita em breve.

Enquanto o avião era grande demais para o NR-1, o míssil era do tamanho ideal. O único problema era que ninguém sabia se a ogiva estava armada. O míssil poderia explodir durante a recuperação. Após discussões, o NR-1 fopi liberado para prosseguir, apesar do risco.

Posicionando-se acima do artefato, abriu a garra e desceu lentamente sobre o míssil. Então, uma vez certo de que o míssil estava na garra, ela se fechou suavemente. Com o míssil “na mão”, o NR-1 subiu para a superfície, lentamente. A emersão foi programada para coincidir com a escuridão da meia-noite. Os soviéticos não conseguiriam obter uma boa imagem do submarino na escuridão. Enquanto o NR-1 balançava no mar grosso, o míssil era conectado a cabos de outro navio de superfície. Uma vez liberado da garra, ele caiu e foi facilmente içado a bordo.

Recuperando o Tomcat

Dois barcos de pesca por arrasto da Alemanha Ocidental foram alugados. Um dos navios “pegou” o avião. O outro então efetuou um círculo ao redor do F-14 até que foi virtualmente esmagado no meio de um nó de cabo. Em seguida, o avião foi levantado quase até a superfície e rebocado para águas rasas, onde foi devidamente recuperado com métodos mais tradicionais. Embora o avião estivesse todo retorcido, os principais componentes ainda estavam lá. Apesar das dificuldades, a Marinha dos EUA salvou o avião e seu equipamento, então secreto, de caírem em poder dos soviéticos.

A recuperação foi extraordinária e, mesmo ao custo de US$ 2,4 milhões, os segredos preservados eram muito mais valiosos.

Os soviéticos, além de perderam uma excelente oportunidade de roubar a moderna tecnologia dos EUA, perceberam que tinham um problema novo e diferente. A assessoria de imprensa da Marinha dos EUA divulgou um comunicado descrevendo como o míssil foi recuperado, por uma embarcação que eles nunca haviam ouvido falar, o NR-1, supostamente um “submarino de pesquisa para cinco tripulantes”. A existência do NR-1 atormentaria os oficiais da inteligência soviética nos anos vindouros – o que era aquele pequeno submarino que emergira na escuridão da noite e concluíra o trabalho? Quão profundo poderia mergulhar? O que estava realmente fazendo?

De qualquer maneira, o Tomcat e seus segredos foram descobertos pelos soviéticos anos depois.

O sistema de armas Tomcat/ Phoenix fora vendido para o principal aliado dos Estados Unidos, o Irã, durante a década de 1970. Com a revolução de 1979, a Força Aérea Iraniana de repente se viu sob embargo, prejudicando o fornecimento de peças e manutenção, o que prejudicaria a capacidade dos F-14 iranianos.

Como resultado, o Irã se aproximou da esfera de influência da URSS e os soviéticos, sem dúvida, puderam finalmente colocar as mãos no Tomcat.


FONTE: Historic Wings


NOTA DO EDITOR: Divirjo do texto quanto ao lapso de tempo em que os soviéticos tiveram acesso aos “CatPersas”. No início do conflito Irã-Iraque, os iraquianos eram aliados da URSS e os iranianos tinham seus problemas de fronteira com os soviéticos. Quem garantiu o funcionamento dos Tomcats nos anos iniciais da guerra foram os EUA por intermédio dos israelenses. Para Israel, enquanto iraquianos e iranianos se matavam, eles não tinham tempo nem recursos para pensar na destruição de Israel. Com o arrastar da guerra, o Iraque foi migrando da esfera de influência soviética para o Ocidente, mais precisamente para a França, que forneceu bilhões de dólares em armas a Saddam Hussein, enquanto o Irã dos Aiatolás se abraçava ao regime soviético e da mesma forma injetando bilhões de dólares na industria bélica do Estado.

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9 COMENTÁRIOS

  1. O melhor do post é a nota do editor.

    Mostra como são fluidas as relações no OM. Os países se aliam por conveniência momentanea de seus interesses locais. Bem longe das doideiras ideológicas.

    • E os caras acreditam que os iranianos e sírios são aliados de verdade dos russos. Mero interesse ocasional que não supera o primeiro problema.

  2. Sei que não é o foco do site, mas algumas curiosidade do NR-1:

    – foi um projeto que contou com apoio pessoal de Rickover, o pai da marinha nuclear norte-americana, o bicho era xodó do almirante;

    – nunca foi comissionado, sequer nomeado. O que permitiu a Marinha deles o operarem sem 'prestar contas' ao Congresso;

    – por ser o menor submarino nuclear já construído, não possuía armamentos e era suscetível às correntes marinhas.

  3. Hoje os Eua pensam em mandar o F-35 para a Turquia kkkk o pensamento da Guerra Fria era mais sobrio , uma geração que teve que lutar pela sua liberdade dava muito valor a tudo o que tinha

  4. Única coisa relevante nessa história foi o esmagamento do tornozelo do marinheiro do convés. EUA se assustaram com a tecnologia dos mísseis soviéticos logo após a queda do muro de Berlim. Não sou russófilo mas falar que a Rússia só fazia cópia mal feita através de tecnologia reversa é sacanagem.

  5. Renovo os meus parabéns pela curiosa matéria, Giordani!! A Guerra Fria foi um prato cheio de histórias pitorescas e outras bizarrices, entre os USA e o "Império do Mal" como dizia o Ronald Reagan!!

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