Quando o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, anunciou em março de 1983 o projeto Iniciativa de Defesa Estratégica (Strategic Defense Initiative – SDI), popularmente conhecido como “guerra nas estrelas”, esse ambicioso plano já tinha sua central de operações.

Localizava-se no arenoso atol de Kwajalein, nas ilhas Marshall (Micronésia, Pacífico norte), e consistia numa base secreta de alta tecnologia. Ali, um grupo selecionado de cientistas civis e militares pesquisava e desenvolvia sistemas antibalísticos e de rastreamento no Espaço. Ali também ocorreu a façanha pioneira que consistiu em explodir, com um míssil teleguiado, outro projétil nuclear em pleno ar.

Presidente Ronald Reagan anuncia o Strategic Defense Initiative

Realmente, em 10 de junho de 1984, após dez anos de pesquisas e US$ 300 milhões, um Minuteman I sem carga explosiva foi lançado de um F-15 nos céus da Califórnia, em direção a Kwajalein. Pouco depois partiu do atol um foguete antibalístico. Graças a modernos sensores infravermelhos, o míssil “caçador” perseguiu o projétil a mais de 160 km de altura sobre o Pacífico. E o destruiu. Pela primeira vez desde que se iniciou a corrida espacial, conseguia-se interceptar um míssil na alta atmosfera. Tornava-se possível explodir ogivas atômicas no Espaço, durante o curto intervalo em que elas se dirigem para o alvo.

Era, afinal, a prova da viabilidade do projeto “guerra nas estrelas”, que previa o uso do Espaço cósmico para a instalação de escudos defensivos antimísseis. Seu papel inicial: proteger o território e as instalações militares americanas contra os 1.400 mísseis balísticos intercontinentais do arsenal soviético, presumivelmente baseados em terra.

No Espaço, sensores infravermelhos de rastreamento dão o alerta de que um ICBM soviético está sendo lançado. Antes que suas ogivas retornem à atmosfera, de uma altura máxima de 1.200 km, o canhão laser é acionado, monitorado pela estação orbital. Outro sistema a laser, disparado de submarinos, pode abater o míssil atacante ainda na fase de impulsão. Este é o “escudo espacial” americano projetado para o terceiro milênio. Num sistema mais imediato, mísseis disparados por estações orbitais rastreiam a radiação infravermelha das ogivas inimigas e as destroem em voo.

A chave da tecnologia da SDI consistia no uso de armas de energia dirigida: feixes de partículas atômicas ou raios laser, que têm velocidade superior à dos mísseis convencionais (de dezenas de quilômetros por segundo até a velocidade da luz, 300.000 km/s, contra apenas alguns quilômetros por segundo dos mísseis). Segundo os defensores do projeto, seria essa a única forma de neutralizar um ataque nuclear nos cinco primeiros e cruciais minutos a partir de seu lançamento: os sistemas antibalísticos então vigentes se baseavam em foguetes capazes de destruir as ogivas atacantes nos dois últimos minutos de sua trajetória, quando os projéteis reingressam na atmosfera.

Já os satélites militares em órbita poderiam detectar o disparo de mísseis intercontinentais e acionar o sistema ainda durante sua rota. Para o caso de ogivas múltiplas, lançadas de submarino ou por avião sobre áreas não cobertas pelo primeiro escudo defensivo, outros cinturões espaciais entrariam em ação. O último deles seria constituído por satélites em órbita estacionária, sobre os territórios dos EUA e de seus aliados, formando assim uma muralha antiatômica.

Tratava-se, na verdade, do retorno da antiga ideia dos mísseis antibalísticos defensivos, ou mísseis antimísseis (Anti-Ballistic Missiles – ABM), desenvolvidos a partir da década de 60 tanto nos EUA como na União Soviética. Mas apenas alguns desses sistemas chegaram a ser instalados, em parte devido ao Tratado ABM, assinado em 1972, que regulamentou seu número e as regiões geográficas envolvidas.

Cada potência ficou autorizada a instalar apenas dois complexos defensivos de 100 unidades ABM cada um: o primeiro, em torno das respectivas capitais; e o outro, protegendo uma das bases de lançamento de mísseis ofensivos. Assim, os soviéticos mantinham o complexo de Galosh, em redor de Moscou, podendo aumentar o número de suas unidades — 64, na época — para o teto de cem. Poderiam também instalar um novo complexo, protegendo uma de suas bases de mísseis intercontinentais.

Os EUA, por seu lado, deveriam concluir a montagem do sistema Safeguard, em redor da base de Grand Folk, em Dakota, e ainda poderiam instalar um complexo em torno de Washington. Em suma, em 1972 as superpotências trataram não apenas de limitar seus próprios arsenais, mas também da instalação de armamento defensivo, considerado, já na época, altamente “desestabilizador”.

Anteriormente, o Tratado sobre o Espaço Exterior, firmado em 1967, proibia a colocação de artefatos nucleares em órbita e a exploração dos corpos celestes para fins militares.

A “guerra nas estrelas” parecia chocar-se frontalmente com tais acordos. Apesar disso, certos observadores argumentavam que o projeto não chegava a violar nenhuma de suas disposições, já que os textos foram redigidos em função dos interceptadores convencionais, levando em conta a quantidade dos armamentos, não sua qualidade. “Os soviéticos falam em militarização do Espaço. Mas o que é uma ogiva senão uma arma espacial?”, argumentou Richard Perle, assessor de Reagan.

Uma revolução na estratégia

O que mais inquietava os soviéticos era o fato de que a SDI não consistia apenas numa nova arma, e sim numa concepção revolucionária em termos estratégicos. Nos anos 60, prevaleceu a doutrina da destruição mútua garantida (mutually assured destruction, MAD, sigla que significa “louco” em inglês). Em outras palavras, o equilíbrio dos arsenais ofensivos dava a cada lado a certeza de que um ataque ao território do outro resultaria também no extermínio de suas próprias cidades. Nisso se baseava a estratégia da intimidação.

O aprimoramento de foguetes intercontinentais — capazes de destruir num first strike (ataque de surpresa) o arsenal nuclear do inimigo sem deixar mísseis suficientes para o revide — e a possível instalação de um sistema antimíssil no Espaço cósmico tornaram obsoleta aquela doutrina. Rompendo-se o equilíbrio do terror, a balança nuclear passaria a pender para a capacidade defensiva de cada potência. Quem tivesse escudos mais eficientes poderia ficar imune à represália e, assim, atacar sem risco de sofrer retaliação.

Na verdade, a SDI continuou sendo um eficientíssimo instrumento de dissuasão: nenhum lado atacaria o outro de surpresa, para destruir suas armas, se não tivesse certeza de que pelo menos 90% de seus mísseis passariam pela muralha espacial. Era esse o número de foguetes que os partidários do sistema afirmavam que ele seria capaz de deter. Mas não se pode considerar a SDI uma proteção infalível, porque restavam os mísseis lançáveis de submarinos, os mísseis Cruise e os superbombardeiros, que em conjunto seriam capazes de reduzir a garantia de invulnerabilidade para 50%.

Por isso, fazendo coro com parte do Congresso e da opinião pública dos EUA, o Kremlin afirmava que o programa era “oneroso e pouco eficaz na prática”. Ele poderia ser neutralizado — concluiu um relatório oficial soviético — por apenas 1 ou 2% do custo total do projeto de Reagan, estimado em US$ 1 trilhão. Além disso, a URSS dominava a tecnologia Espacial tão bem quanto os EUA, e — segundo analistas — só a falta de dinheiro a impediria de montar a curto prazo um sistema equivalente.

Apesar dos temores europeus de que a “guerra nas estrelas” desencadeasse um surto armamentista incontrolável, Washington recebeu, em fins de 1984, declarações de apoio dos governos da França, Grã-Bretanha e de outros membros da OTAN. Pesavam ainda, a favor do projeto, as verbas que seriam injetadas na indústria de alta tecnologia, para desenvolver os sistemas de laser, que constituíam a infra-estrutura essencial, embora menos vistosa, da militarização do Espaço.


FONTE: Guerra na Paz


De volta a Genebra

A Iniciativa de Defesa Estratégica não foi mera ficção científica nem se baseava em concepções fantasiosas de cientistas. Ao contrário, apoiava-se em tecnologias já disponíveis, que estavam sendo testadas com êxito em 1985 e se tornariam operacionais no final do século XX.

Certos disso, os soviéticos voltaram à mesa da Conferência de Genebra, em março de 1985, dispostos a conversar em tom mais conciliador do que quando abandonaram as negociações em fins de 1983, irritados com a instalação dos primeiros mísseis americanos da OTAN na Europa. Dessa vez, a retirada dos euromísseis não era uma exigência prévia para o diálogo, mas as perspectivas de um acordo que pudesse minimizar o risco de um conflito atômico e reduzir o imenso arsenal nuclear em poder das superpotências dependiam — naquela altura — da superação do abismo que as separava quanto à concepção das forças em jogo.

A URSS insistia na existência de uma igualdade estratégica, que, segundo Moscou, os EUA queriam romper com novas armas ofensivas e com a militarização do Espaço.

Nesse sentido, os soviéticos vinham movendo cerrada campanha contra a chamada “guerra nas estrelas”, que consideravam um sistema ofensivo, e não defensivo. O governo Reagan argumentava com a clara superioridade estratégica soviética em mísseis balísticos intercontinentais e foguetes de médio alcance instalados na Europa, justificando o escudo espacial como a melhor forma de defender-se de um ataque dos foguetes balísticos soviéticos contra os silos dos mísseis americanos em terra, tentação a que a URSS estaria exposta em função de sua vantagem. Por isso mesmo, as conversações de Genebra iriam se desenvolver à sombra dessa revolucionária concepção estratégica, a “guerra nas estrelas”.

De acordo com tese de Washington, as negociações de 1985 foram divididas em três grupos, cada um cuidando de um setor: mísseis nucleares de longo alcance, mísseis de médio alcance e armas espaciais.

Certamente por sugestão soviética, os euromísseis (táticos, de médio alcance) passariam a denominar-se “mísseis euro-estratégicos”, já que a URSS os consideravam semelhantes aos foguetes balísticos intercontinentais.

 

8 COMENTÁRIOS

  1. a politica do MAD foi a melhor coisa de guerra fria, sem o qual o mundo seria bem diferente do que é hj

  2. Muitas pessoas deixam isso passar batido, mas este foi o ponto de inflexão da corrida armamentista… Aqui, os soviéticos encontraram-se diante da impossibilidade material e econômica de competir com o Ocidente.

    • Não me lembro ao certo mais antes do Programa Americano os sovieticos ja possuiam um sistema ABM chamado “Galosh“ e que era usado ao redor de Moscou . Mas de fato o programa Americano era bem mais abrangente e praticamente cobria todo territorio continental Americano .

      • Olá, Fábio.

        O míssil 'Galosh' faz parte do sistema A-135. Trata-se de um interceptor endo-atmosférico carregado com uma ogiva nuclear. A ideia é fritar ogivas nucleares inimigas antes que elas cheguem ao destino… Mas ocorre que usa-lo seria um quase suicídio, pois a radiação fatalmente cairia sobre a zona defendida… De momento, os russos estão procedendo a uma atualização A-235, que visa um interceptor exo-atmosférico.

        Só para se fazer a devida comparação, os americanos tem hoje o sistema GMD, com silos baseados no Alaska e com mísseis interceptores exo-atmosféricos. Há o sistema AEGIS da marinha americana que, dotado do míssil RIM-161, se constituí também em um sistema ABM, capaz de interceptar os ICBM até mesmo no apogeu de sua trajetória…

        Existe uma variante terrestre do AEGIS que, pensa-se, irá dotar as bases ABM na Romênia e Polônia. O temor dos russos é que essas bases contenham silos lotados com o míssil RIM-161 block IIA, que teoricamente seria capaz de deter os ICBM e MRBM russos no Oeste ainda em fase de ascensão! Isso, se realizado, traria um desequilíbrio crítico ao poderio russo de retaliação.

  3. Dizem que o Reagan foi um ótimo político, inclusive os americanos dizem que foi um dos melhores. Não li livros sobre ele mas o pouco que li, ele fez mais pela AL que praticamente todos presidentes americanos kkkk

  4. Excelente matéria!
    O maior delírio de Reagan foi essa Guerra nas Estrelas. Edward Teller, o pai da bomba de hidrogênio, teria convencido o presidente da viabilidade do programa e Reagan abraçou o programa como uma chance de acabar com a doutrina MAD, mesmo que isso violasse acordos da não militarização do espaço.O SDI não é viável hoje e certamente não era três décadas atrás.

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