MiG-23Palco de sangrentos conflitos e de rivalidades religiosas considera-se a região como a mais explosiva do globo.

Na parte mais oriental do Mediterrâneo, países árabes como Líbano, Síria, Jordânia e Egito adotam diferentes atitudes em relação ao Estado de Israel. Na década de 80, o Líbano sofria as conseqüências de uma guerra civil que parecia sem solução, agravada pela presença de três exércitos estrangeiros em seu território. Além disso, os próprios combatentes da OLP (Organização para Libertação da Palestina) retornaram para Beirute, posicionando-se contra os israelenses.

No vale do Bekaa, uma considerável força síria apoiava a OLP e a facção muçulmana na guerra civil libanesa. No sul, estavam os israelenses, que, depois de quase destruírem Beirute em sua ofensiva de 1982, evidenciavam a disposição de retirar suas tropas do Líbano, após um recuo inicial para as margens do rio Litani.

Em 1983, a pequena Força Aérea do Líbano perdeu vários dos seus antigos Hawker Hunter F.Mk 70 nas batalhas em torno de Beirute. Acredita-se que restaram apenas três deles.
Em 1983, a pequena Força Aérea do Líbano perdeu vários dos seus antigos Hawker Hunter F.Mk 70 nas batalhas em torno de Beirute. Acredita-se que restaram apenas três deles.

A posição da Síria demonstrava um violento antagonismo em relação a Israel, e o país recebia material e treinamento militar da União Soviética. Mantendo uma oposição dogmática e total, constituía a principal ameaça a Israel, prevendo-se na ocasião que sua atitude não se alteraria enquanto perdurasse a ajuda soviética.

A Jordânia, governada pelo rei Hussein desde 1952, também se opunha politicamente a Israel, por causa da divisão de seus territórios e pelos constantes problemas com os refugiados palestinos. Essa oposição, porém, era atenuada pela realidade política e militar da Síria, de modo que o reinado hashemita da Jordânia mantinha uma postura de neutralidade.

A sudoeste de Israel encontra-se o Egito, que já foi seu principal oponente. Em 1979, os dois países assinaram um acordo de paz. Durante a gestão do presidente Anuar Sadat a influência soviética sofreu brusca interrupção; a linha pró-Ocidente de Sadat prosseguiu com Hosni Mubarak. Em 1986, as forças militares egípcias continuavam organizadas segundo a linha soviética, mas a ajuda ocidental já modificara bastante seu equipamento.

A Síria constituía a principal ameaça a Israel
A Síria constituía a principal ameaça a Israel

Poder aéreo vital

Pela metade da década de 80, era clara, nos países do Oriente Médio, a preocupação em manter uma força aérea capaz de preservar a eficácia tático-estratégica dos efetivos terrestres. Os resultados dos conflitos de 1967, 1973 e 1982 mostraram a importância da aviação na área. O Líbano, esfacelado pela guerra civil entre cristãos e muçulmanos e com uma economia arruinada, mantinha com dificuldade sua Força Aérea, que não possuía capacidade real de combate. O contingente somava mil homens, com bases localizadas em Beirute, Riyaq, Yaata e Keiat. Restaram apenas três caças Hawker Hunter F.Mk 70 de uma força que, até o final de 1979, compunha-se de dezenove Hunter e onze Dassault Mirage III. Uma unidade de helicópteros operava cerca de onze Agusta-Bell AB.212, onze Aérospatiale Alouette II e III, seis SA 330 Puma e quatro SA 341 Gazelle, equipados com mísseis ar-superfície AS.11 e AS.12.

A Síria contava com uma Força Aérea bem mais poderosa, com linhas completas de aviões soviéticos convencionais e um contingente de 7 mil homens. Estimava-se que era algo em torno de 550 aeronaves de combate e noventa helicópteros armados. As bases mais importantes agrupavam-se em torno da capital Damasco e  nas colinas de Golan. Cerca de 8 mil “conselheiros” soviéticos orientavam a manutenção e o uso das armas mais sofisticadas, com a ajuda de guarnições da Alemanha Oriental, Líbia e Coréia do Norte.

O Egito utilizava o caça MiG-21 "Fishbed--J", com mísseis ar-ar, na defesa contra ataques externos. Calcula-se que o país tivesse ao menos nove versões desse aparelho soviético.
O Egito utilizava o caça MiG-21 “Fishbed–J”, com mísseis ar-ar, na defesa contra ataques externos. Calcula-se que o país tivesse ao menos nove versões desse aparelho soviético.
Westland Commando Mk 2A, um dos vários helicópteros operados pela Força Aérea egípcia. O registro civil na fuselagem servia também como código para chamadas por rádio.
Westland Commando Mk 2A, um dos vários helicópteros operados pela Força Aérea egípcia. O registro civil na fuselagem servia também como código para chamadas por rádio.

Vinte esquadrilhas de interceptação incumbiam-se da defesa aérea do país, duas delas com Mikoyan-Gurevich MiG-25 “Fox-Bat A” (cinqüenta unidades, incluindo variantes de reconhecimento) e as demais com MiG-21 PF/MF “Fishbed” (pelo menos duzentos) e MiG-23 “Flogger-E” (quarenta aviões). Além dessa força de defesa, a ala de apoio cerrado do Exército tinha treze esquadrilhas de caças de ataque, com 85 MiG-17F “Fresco”, cem Sukhoi Su-7 e Su-22 “Fitter” e cerca de setenta MiG-23 “Flogger-F”.

A Síria dispunha ainda de um regimento de transporte aéreo, com seis Antonov An-12 “Cub”, dois An-24 “Coke”, quatro An-26 “Curl”, quatro Ilyushin Il-18 “Coot”, quatro Il-76 “Candid” e dois Dassault-Breguet Falcon 20F, além de cerca de 155 helicópteros, dentre os quais trinta Mil Mi-24 “Hind”, noventa Mi-8 “Hip” e 35 SA 342L Gazelle, com mísseis ar-superfície. Doze Kamov Ka-25 “Hormone” proporcionavam forte apoio à Marinha síria. O comando de defesa aérea, controlado pelo Exército, operava mais de cem baterias de mísseis superfície-ar e os radares associados.

F-5FreedomFighter_Tiger IIA Jordânia atuava com cautela em meio a essa complicada vizinhança. Sua pequena, mas bem treinada Força Aérea distribuía-se por bases próximas de Amã e na faixa que se estendia de Israel ao Iraque, entre a Síria e a Arábia Saudita. A força compreendia 8 mil voluntários e cerca de cem aviões de combate. A política jordaniana consistia em evitar envolvimento ativo, cuidando do treinamento e do suprimento para se garantir em caso de necessidade. Entre seus principais aviões encontravam-se 46 Northrop F-5E/F Tiger II e 35 Dassault-Breguet Mirage F.1C/E, apoiados por 22 caças F-5A/B Freedom Fighter. Dispunha ainda de dezessete helicópteros, seis esquadrilhas de transporte, um grupo de treinamento com quinze Bulldog e doze Cessna T-37C, além de uma unidade de defesa aérea com 112 mísseis superfície-ar Improved Hawk.

Guinada para o Ocidente

Embora com problemas de equipamento, uma vez que já não contava com os soviéticos para a manutenção de seus aviões, o Egito possuía uma excepcional Força Aérea. Eram cerca de quinhentas aeronaves de combate e 36 helicópteros, totalizando 27 mil homens. A organização seguia o modelo soviético de regimentos, cada um com até três esquadrilhas de dezesseis a vinte aviões agrupados em brigadas. As três brigadas de interceptação compunham-se de 320 aviões de combate em nove esquadrilhas; cinco com seis variantes do MiG-21, duas com a versão chinesa Shenyang J-7 e duas com 34 General Dynamics F-16A Fighting Falcon e 54 Dassault-Breguet Mirage 5SDE1. O comando de defesa aérea tinha ainda duas divisões com cerca de cem mísseis, batalhões de artilharia antiaérea e radares.

Um dos 33 McDonnell Douglas F-4E Phantom II utilizados pelo Comando de Caças do Egito. Eles se tornaram o símbolo do estreitamento das relações entre aquele país árabe e os EUA.
Um dos 33 McDonnell Douglas F-4E Phantom II utilizados pelo Comando de Caças do Egito. Eles se tornaram o símbolo do estreitamento das relações entre aquele país árabe e os EUA.

A principal força de ataque se concentrava em cinco regimentos de caças com McDonnell Douglas F-4E Phantom, Shenyang J-6, MiG-17F “Fresco”, Su-7BM “Fitter”, Dassault-Breguet/Dornier Alpha Jet e Mirage 5SDE2. O reconhecimento marítimo ficava por conta de aviões Ilyushin Il-28 “Beagle”. O Egito mantinha uma brigada com cinco esquadrilhas de 65 aviões diversos, além de doze unidades com mais de 120 helicópteros, incluindo 64 Gazelle. Havia também um bom número de treinadores Embraer Tucano, fabricados no Brasil, e já com novas encomendas.

A força de Israel

Uma das maiores potências militares do mundo, Israel dispunha de pessoal altamente treinado e aviões muito modernos. A Força Aérea israelense empregava cerca de 555 aviões de combate, espalhados por dezesseis bases principais, e sessenta helicópteros equipados, somando um contingente de 26 mil voluntários e 2 mil homens em serviço militar obrigatório de 39 meses. Com o pessoal da reserva, ela podia mobilizar 37 mil homens em 24 horas. A dependência do fornecimento de armas de outros países deixou de ser problema, pois o país desenvolveu sua própria indústria bélica, o que lhe permitia (permite) autonomia nesse campo, se necessário. A Força Aérea israelense, com treze esquadrilhas, tinha cerca de quatrocentos F-15A/B Eagle, F-4E Phantom, Dassault Mirage IIIC/B, IAI Kfir-C2 e F-16A/B.

Três designações diferentes chegaram a ser sugeridas para o Grumman Mohawk de Israel, de fato uma aeronave de observação equipada com multissensor OV-1E.
Três designações diferentes chegaram a ser sugeridas para o Grumman Mohawk de Israel, de fato uma aeronave de observação equipada com multissensor OV-1E.
McDonnell Douglas F-15A Eagle de Israel, muito superior aos MiG-21 e 23 dos sírios. Na fuselagem, adiante do cockpit, estão as marcas de inimigos abatidos.
McDonnell Douglas F-15A Eagle de Israel, muito superior aos MiG-21 e 23 dos sírios. Na fuselagem, adiante do cockpit, estão as marcas de inimigos abatidos.

Para a defesa aérea empregava um bom número de F-15, e o apoio aproximado ficava a cargo de seis esquadrilhas com 130 McDonnell Douglas A-4J/N Skyhawk. A eficiência dos aviões israelenses era garantida por seus avançadíssimos equipamentos eletrônicos de reconhecimento. Quatro aviões E-2C monitoravam toda essa tecnologia: dois Grumman OV-1E, dois Beech RU-21J e quatro Boeing 707. Grande número de aviões de transporte (incluindo vinte C-130 e dezoito Douglas C-47) proporcionava a Israel uma fantástica mobilidade tática, fator sustentado pela força de helicópteros. Entre estes, destacavam-se 33 Sikorsky CH-53A e sessenta Bell Model 212, completados por 30 AH-1S Cobra e 30 Hughes 500MD com sofisticado armamento.

Israel empregava aviões de controle remoto em missões de reconhecimento, equipados com o que havia de mais moderno em comunicação. Em 1982, eles provaram sua eficiência, quando Israel bombardeou bases de mísseis SAM e blindados sírios.


FONTE/IMAGENS: Guerra nos Céus #60

Edição: CAVOK

Demais imagens: Pinterest

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14 COMENTÁRIOS

  1. Muito bom o artigo, Gio!

    Se possivel, pode me passar o link da foto dos F-15A israelenses? Não estou conseguindo clicar…

  2. Que post ! O sub-editor-vintage se superou dessa vez rs…!

  3. Sensacional, Gio… uma aula de história imprescindível para que se possa entender com maior clareza o que ocorre atualmente no Oriente Médio.

    • "Não é você que olha para o Oriente Médio, é o Oriente Médio que olha pra você…"

  4. F-15 sempre marcando uns pontinhos né.

    Se fosse para sonhar, e sonhar baixo viu, queria uns 18 desses lá em Anápolis.

    Obs: A escolha dos 18 e não 12 foi proposital! rs

  5. Haja Sputnik para combater o péssimo marketing que os árabes produzirma paraos equipamentos soviéticos/russos…

  6. Qual a diferença do F-5E/F Tiger II e do F-5A/B Freedom Fighter, mencionados?

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