O porta-aviões USS Midway era considerado pequeno para operar com o F-14, mas em setembro de 1982 ele foi a tábua de salvação para dois Tomcats.

No dia 29 de setembro de 1982 dois F-14 foram lançados do USS Enterprise (CVN-65) para interceptar um dos tantos voos soviéticos sobre a região que o porta-aviões navegava.

O F-14A 159874, codinome AARDVARK 111, era pilotado pelo Tenente Rick Berg e o RIO Lee Ducharme. O outro F-14A era o 159859, codinome LION 202, pilotado pelo Tenente Tom Lawson e o RIO Dave Willis.

Após interceptarem e acompanharem um Tu-95 Bear da Marinha soviética, AARDVARK 111 e LION 202 experimentaram uma espessa névoa durante o retorno ao navio. Os LSOs (landing safety officer) relataram ter visto ‘apenas as rodas’ do F-14 de Berg durante uma lufada na névoa. A visibilidade era praticamente zero sobre o convoo e os dois Tomcats entraram em espera no ar enquanto todos consideravam as opções.

Os jatos repousam no convoo do USS Midway

O problema imediato do combustível foi suprido por um KA-6D do esquadrão VA-95 Green Lizards lançado do navio, que “desapareceu” imediatamente assim que foi catapultado.

As opções de pouso na costa nas ilhas Aleutas foi logo descartada devido as condições climáticas. A ejeção dos tripulantes também não era uma medida razoável, uma vez que justamente por causa da neblina a recuperação seria terrível e, também, devido à temperatura da água.

A cerca de 160 quilômetros a leste da crescente e preocupante situação, o USS Midway (CV-41) estava operando em um ambiente de controle de emissões (emissions control – EMCON) para permanecer o mais oculto possível dos “ouvidos” eletrônicos soviéticos. A opção de desviar os Tomcats para um porta-aviões não habilitado para lidar com o F-14 foi inicialmente descartada pelos tomadores de decisão a bordo do Enterprise, mas com todas as outras opções se esgotando, o comandante do VF-114, Jay Yakeley, sem dúvida o o aviador mais experiente do F-14, finalmente recebeu permissão para enviar ao departamento de Operações Aéreas do Midway os dados técnicos para os cabos para que eles avaliassem o fator de sucesso de tal recuperação; a questão de lançar os Tomcats do Midway seria vista depois.

Além disso, desviar os Tomcats para o Midway revelaria sua posição aos soviéticos.

A situação climática entorno do Midway estava piorando. O KA-6D que reabastecera os Tomcats havia pousado ali, com os pilotos reportando a péssima visibilidade.

Finalmente AARDVARK 111 e LION 202 foram informados da decisão e entregues aos controladores de tráfego aéreo do Midway para recuperação.

Dados do F-14, considerados “secretos” na época, mas essenciais para o pouso, foram repassados via rádio para alegria dos soviéticos que tudo ouviam.

Os Tomcats começaram a se aproximar quando a densa neblina começou a cair sobre o Midway; o tempo estava acabando rápido. O Tenente Berg revelou alguns anos depois sua surpresa quando por entre aquele mundo branco viu a faixa negra do Midway; “a pista era muito pequena e diferente do layout dos modernos porta-aviões em que ele operava”.

Graças aos esforços de todos, principalmente dos maquinistas do Midway que conseguiram extrair das caldeiras do navio 7 km/h acima da velocidade normal, Berg recebeu um ‘OK dos LSOs. O Midway só contava com três cabos de parada. AARDVARK 111 pousou, com LION 202 logo fazendo o mesmo. Poucos minutos depois, a neblina finalmente engoliu o navio.

Depois de uma noite a bordo, os pensamentos voltaram-se para a possibilidade de tirar os F-14 “encalhados” no Midway. Decidiu-se lançar as aeronaves, em vez de deixá-las fora de ação até que uma visita adequada ao porto pudesse remover os caças.

O Enterprise enviou um oficial de catapulta e uma barra de lançamento específica do F-14.

Ambos os lançamentos foram marginais, mas seguros, e os Tomcats, em agradecimento, realizaram um passe com os pós-combustores brilhando, num pequeno gesto de agradecimento pelo excelente trabalho em equipe e hospitalidade demonstrada pelo Midway durante seu tempo a bordo.


FONTE: Livro CVW: US Navy Navy Aircraft Airplane Aircraft 1975-2015 de Mike Crutch.


IMAGEM de capa meramente ilustrativa e não representa o evento. As demais sim.


NOTA DO EDITOR: A tecnologia evoluiu muito desde 1982. O vídeo abaixo – de 2018 – mostra um Rafale M pousando sobre densa névoa. Se em 2018, com todo o aparato tecnológico continua difícil, imagina em 1982…

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5 COMENTÁRIOS

  1. Que historia boa essa. Hoje o Midway é um incrivel museo no ancoradouro de San Diego e com um F-14 no seu convés de voo. Seria espetacular ver o Sao Paulo como museu com possibilidades de conhecer o navio e os avioes, nao só navais como os da FA, pena que a iniciativa nao vingou.