Yure Gagarin, sendo preparado no interior da Vostok 1, momentos antes do lançamento ( Roscosmos)
Yure Gagarin, sendo preparado no interior da Vostok 1, momentos antes do lançamento / © Roscosmos

Durante 108 minutos, Yuri Gagarin deu uma volta na Terra e retornou. Cápsula Vostok 1 tinha apenas 2,3 m de diâmetro.

Numa manhã de primavera, às 09:06 hs (horário de Moscou) do dia 12 de Abril de 1961, Yuri Gagarin, com 27 anos de idade, a bordo da cápsula Vostok 1, tornou-se o primeiro ser humano a ser enviado ao espaço, inaugurando, assim, a era dos voos espaciais tripulados. Nessa jornada épica, Gagarin teria pronunciado a frase “a Terra é azul”.

Vostok, que significa Oriente, foi o primeiro programa de missões espaciais tripuladas da URSS, e a missão Vostok 1 foi a primeira missão espacial tripulada da História.

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Insígnia da Missão Vostok 1 / © Orionist

A Vostok 1 foi a primeira de um série de naves Vostok tipo 3KA a voar. Oito dessas espaçonaves, com capacidade para apenas um cosmonauta, foram construídas e seis foram ao espaço em voos tripulados. O primeiro com Gagarin em abril de 1961 e o último com Valentina Tereshkova, na Vostok VI, em junho de 1963.

A cápsula tinha um sistema limitado de propulsão, o que fazia com que sua orientação, durante a reentrada na atmosfera após a separação do último estágio dos retrofoguetes, não pudesse ser controlada. Isso significava que ela precisava ser protegida por todos os lados do calor da fricção durante a descida pelas altas camadas da atmosfera. Sua forma esférica permitia que tivesse um máximo volume com um mínimo de exposição da superfície externa.

A nave Vostok tinha um comprimento total de 4,4 m e diâmetro máximo de 2,4 m, com um peso total de 4.730 kg. Era formada por dois módulos: a cápsula de reentrada (onde ficava o cosmonauta) e o módulo de equipamentos que continha os instrumentos, antenas, propelente, e outros equipamentos. Os motores de retrofoguetes da nave possuíam um empuxo de 15,83 kN e usavam como propelente o óxido nitroso. Durante a reentrada, o cosmonauta viajava em posição praticamente horizontal e enfrentava forças G do nível 8 e 9, apesar que existem relatos onde Gagarin afirmou ter enfrentado forças superiores a 10 G, devido a problemas na reentrada, como veremos mais abaixo.

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© Danksac András – Space.com

A nave possuía um formato esférico, com peso em apenas um lado, o que já garantia o posicionamento correto para a reentrada, sem a necessidade de manobras, já que a nave não era manobrável,  entretanto, caso fosse necessário, algum controle do sistema de navegação de reentrada era possível, deslocando o centro de gravidade da nave, através do deslocamento de equipamentos no interior da mesma. Ela possuía acomodação para um cosmonauta em traje pressurizado, com assento ejetável. A nave possuía duas janelas, uma sobre a cabeça do cosmonauta, outra em seus pés equipada com dispositivo ótico de orientação (o dispositivo ótico Vzor). A orientação da nave (altitude) era obtida por meio de jatos de gás frio. A Vostok não tinha sistemas de orientação com giroscópios, mas apenas um sistema primitivo, semelhante a um relógio, que indicava a posição da nave sobre o globo terrestre. A nave possuía um paraquedas para descida após a reentrada, embora o cosmonauta tivesse o seu próprio (durante a queda da nave, o cosmonauta saltava da nave e descia usando o seu próprio paraquedas).

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Foguete Vostok-K (R-7 Semyorka), com a nave espacial Vostok I acoplada em seu cimo, momentos antes de ser transportado até a plataforma de lançamento em Baikonur, em 11 de abril de 1961 / © Roscosmos

Na manhã de 11 de abril de 1961, o foguete Vostok-K (R-7 Semyorka), contendo a nave espacial Vostok I, foi transportado, em posição horizontal, por vários quilômetros até a plataforma de lançamento em Baikonur. Com o foguete em posição, o projetista chefe do programa espacial soviético, Sergei Korolev, inspecionou o conjunto e, sem encontrar problemas, ele foi colocado na posição de lançamento.

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Foguete Vostok-K (R-7 Semyorka), contendo a nave espacial Vostok I, sendo colocado na posição de lançamento, após ter sido inspecionado por Korolev, em 11 de abril de 1961 / © Roscosmos
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Foguete Vostok-K (R-7 Semyorka), contendo a nave espacial Vostok I, já na posição de lançamento, em 11 de abril de 1961 / © Roscosmos

Às 10:00 hs (horário de Moscou), Gagarin e seu reserva, Gherman Titov, fizeram uma última verificação do plano de voo e foram informados que o lançamento estava marcado para o dia seguinte, às 9:03 hs (hora de Moscou). Esta hora foi escolhida de maneira a que quando a espaçonave começasse a voar sobre a África, momento em que os retrofoguetes deveriam ser acionados para a reentrada, a iluminação solar estaria na posição ideal para os sensores do sistema de orientação da espaçonave.

Às 18:00 hs, os dois cosmonautas foram instruídos pelos psiquiatras a não comentarem sobre a missão próxima e Gagarin e Titov passaram a noite relaxando escutando música, nadando numa piscina e falando de suas infâncias. Às 21:50, lhes foram oferecidas pílulas para dormir, para que tivessem uma boa noite de sono, mas os dois declinaram. Médicos colocaram sensores nos dois homens para monitorar suas condições durante a noite e acreditaram que os dois dormiram bem. Biógrafos posteriores, entretanto, afirmaram que nenhum dos dois dormiu naquela noite. Sergei Korolev também não dormiu, dominado pela ansiedade pelo lançamento na manhã seguinte.

Às 05:30 hs da manhã de 12 de abril de 1961, Gagarin e Titov acordaram, tomaram café da manhã, vestiram seus trajes espaciais e foram transportados até a plataforma de lançamento.

Gagarin e Titov sendo transportados até a plataforma de lançamento, na manhã do dia 12 de abril de 1961. (Roscosmos)
Gagarin e, mais atrás, Titov sendo transportados até a plataforma de lançamento, na manhã do dia 12 de abril de 1961 / © Roscosmos
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Gagarin, momentos antes de entrar na Vostok 1, em 12 de abril de 1961 / © RSC Energia

Ao chegar na plataforma de lançamento, Gagarin cumprimentou todos os presentes e, em seguida, entrou na Vostok 1. Às 07:10 hs o sistema de radiocomunicação da cabine foi ligado.

The First cosmonaut Yury Gagarin in cockpit of spaceship Vostok before takeoff. Cosmodrome Baikonur, April 12, 1961.(RIA Novosti)
Gagarin já no interior da Vostok 1, momentos antes do lançamento, em 12 de abril de 1961 / © RIA Novosti

Como ele no interior da cápsula, sua imagem apareceu em todos os televisores do centro de lançamento, enviados por uma câmera a bordo. O lançamento só ocorreria em aproximadamente duas horas, e, nesse intervalo ele ficou conversando com a equipe de controladores da missão.

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Equipe de controladores da missão monitorando Gagarin, já no interior da Vostok 1, momentos antes do lançamento, em 12 de abril de 1961 / © RIA Novosti

Depois de uma série de testes e revisões, quarenta minutos depois de Gagarin entrar na Vostok,  a escotilha da espaçonave foi fechada, mas logo se descobriu que a vedação não estava perfeita, obrigando os técnicos a passarem cerca de uma hora removendo e trocando parafusos até poderem selá-la corretamente. Durante este intervalo, Gagarin pediu que tocassem música pelo rádio da nave.

Korolev estava muito nervoso no comando da equipe de lançamento, com dores no peito, e tomou uma pílula para acalmar os nervos e diminuir o batimento cardíaco. Por outro lado, Gagarin estava completamente calmo, com sua pulsação medida em 64 batimentos por minuto pouco antes do lançamento.

Exatamente às 09:06 hs (horário de Moscou), 06:06 UTC, do dia 12 de Abril de 1961, a Vostok 1 foi lançada do Cosmódromo de Baikonur.

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Lançamento da Vostok 1 / © Roscosmos
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Lançamento da Vostok 1 / © Roscosmos
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Lançamento da Vostok 1 / © Roscosmos
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Lançamento da Vostok 1 / © Roscosmos

Com dois minutos de voo, as quatro seções dos propulsores do foguete preliminar esgotam o combustível e se soltam do núcleo do foguete. Às o 09:09 hs, o invólucro que cobre a Vostok 1 é liberado e deixa a descoberto a janela aos pés de Gagarin e o sistema de orientação ótica da nave. Com cinco minutos de voo, o estágio intermediário do foguete esgota o combustível e se destaca da nave, que segue para a órbita após a ignição de seu último estágio do foguete propulsor.

Às o 09:12 hs, com a Vostok rumando para o espaço, Gagarin transmite: “O voo transcorre normalmente. Eu posso ver a Terra e a visibilidade é boa, posso ver quase tudo, há boa quantidade de espaço vazio visível sob a cobertura de nuvens. Continuo voando e tudo está bem”.

Às o 09:14 hs, com três minutos da ignição do estágio final do foguete, Gagarin transmite: “Zarya 1, Zarya 1 (o controle de voo em Baikonur), não posso ouvi-los muito bem, mas estou bem. Continuo em voo”. A Vostok começa a sair do alcance de frequência de rádio de Baikonur.

Às o 09:16 hs, o estágio final do foguete desliga-se e, dez segundos depois, separa-se da Vostok 1, que entra em órbita. Gagarin informa: “A nave está operando normalmente. Eu posso ver a Terra pelo visor. Tudo corre como planejado.” A nave passa sobre a Rússia em direção à Sibéria.

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Concepção artística da Vostok 1, em órbita / © Raidernick

Os controladores da missão só souberam se a nave havia atingido uma órbita estável 25 minutos após o lançamento. Durante 108 minutos (1h48), o cosmonauta Gagarin orbitou em torno da Terra a 28.150 km/h, a uma altitude de máxima de 327,7 quilômetros, um feito que surpreendeu toda a humanidade. Em sua jornada ao redor do globo, na pequena cápsula Vostok, ele passou pelas repúblicas soviéticas, o Oceano Pacífico, o Estreito de Magalhães (na América do Sul), o Oceano Atlântico e a África, antes de fazer a reentrada na atmosfera terrestre.

Com cerca de 1 hora de voo, a equipe dos controladores da missão dá início aos procedimentos de reentrada.

Às  10:24 hs (horário de Moscou), 07:24 UTC, os sistemas automáticos da nave a a trouxeram até a altitude determinada para ligar os retrofoguetes,  e, pouco depois, ocorreu a ignição, quando a Vostok 1 se aproximava da costa oeste da África, perto de Angola, a 8.000 km de distância do local do pouso, na Rússia.

Screenshot retirada do documentário Space Race, episódio 3 - Race for Survival, da BBC
Screenshot retirada do documentário Space Race, episódio 3 – Race for Survival / © BBC

Os retrofoguetes mantiveram-se ligados por 42 segundos. Dez segundos após a queima de motores, comandos foram enviados da Terra para que o módulo de serviço da Vostok 1 se separasse do módulo de comando (onde fica o cosmonauta), mas os dois continuaram acoplados por um feixe de fios.

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Início da reentrada de Gagarin, com os módulos de serviço e comando ainda conectados / © Detlev Van Ravenswaay

Dez minutos depois, as duas metades acopladas iniciaram a reentrada e a cápsula com Gagarin começou a sofrer fortes oscilações e a girar no espaço quando se aproximavam do Egito. Neste ponto os fios se quebraram e o módulo de reentrada, livre, estabilizou-se na altitude correta de reentrada.

Gagarin telegrafou a mensagem tudo está OK, apesar da Vostok 1 continuar a girar fortemente. Mais tarde, ele declararia que não comunicou o fato por não querer “fazer barulho” e ter calculado que as vibrações e os giros (aparentemente causados pela forma esférica da cápsula) não colocavam a missão em perigo. Segundo seus próprios relatos, à medida em que descia, Gagarin enfrentou forças superiores a 10 G, mas manteve-se consciente.

Às  10:54 hs (horário de Moscou), 07:54 UTC, quando o módulo de comando encontrava-se ainda a 7 km de altitude, a escotilha da cápsula foi automaticamente aberta e Gararin ejetado do seu interior. A 2,5 km do solo, o paraquedas principal se abriu e ela começou a descer lentamente para o chão. Duas estudantes que viram a nave descendo do céu e pousando descreveram a cena: “Era um enorme bola, com tamanho de dois ou três metros. Ela caiu, bateu no solo, saltou e caiu novamente. Ficou um grande buraco onde ela bateu pela primeira vez.

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Módulo de comando da missão Vostok 1, já no solo, após a reentrada / © RIA Novosti

O paraquedas de Gagarin abriu quase ao mesmo tempo que o do módulo de comando e cerca de dez minutos depois, às 11:04 hs, ele pousou em segurança no solo. De acordo com Gagarin, ele tocou suavemente a superfície macia de um campo aberto, que tinha sido arado recentemente, não muito longe da cidade de Engels. Mais tarde, seu pouso foi determinado como não muito longe da aldeia de Smelovka, em Ternovsky, distrito perto de Saratov.

Uma mulher e sua filha ficaram inicialmente assustadas quando viram um homem vestido em um traje laranja e um capacete brilhante, caminhando pelo campo em direção a elas. No entanto, elas deixaram de lado as suspeitas e responderam aos seus cumprimentos. Elas ajudaram a alertar os trabalhadores da fazenda local, que então providenciaram um carro para chegar à base militar local.

O local esperado de pouso de Gagarin estava localizado a 300km mais ao nordeste, perto do centro regional de Pestravka, 89 km de Kuibyshev (Samara). Na manhã do dia 12 de abril, helicópteros de busca e o avião com médicos treinados como paraquedistas estavam sobre o local prevista para o pouso, mas a cápsula de Gagarin estava longe de ser encontrada.

Um dos helicópteros que voava ao longo da trajetória esperada da Vostok finalmente avistou Gagarin e seus salvadores acidentais acenando as mãos em um campo aberto, cerca de 300 km a sudoeste do local previsto de pouso. O Helicóptero pousou, resgatou Gagarin e finalmente chegou ao campo de pouso de Engels. Esta pista era a mais próxima do local real de pouso e se tornou o ponto de encontro da equipe de resgate. Um avião II-14 com médicos chegou ao local de pouso do módulo de descida tarde demais para os programados exames médicos pós voo do cosmonauta, e a equipe foi redirecionada para Engels. O tenente coronel Vitaly Volovich, que liderou a equipe médica, teve que sacar sua pistola, para controlar uma multidão excitada que se acotovelava para ver o heroico cosmonauta. Ele finalmente se encontrou com Yuri Gagarin, no segundo andar do edifício do aeroporto. No entanto, ele só teve a primeira chance de medir o pulso e a pressão arterial de Gagarin à bordo do II-14 no caminho de Engels para Kuibyshev (Samara). Os sinais vitais de Gagarin estavam normais.

Gagarin passou dois dias na casa de campo da liderança local do Partido Comunista, perto Kuibyshev, enquanto Moscou estava freneticamente se preparando para sua chegada triunfante. Em 14 de abril de 1961, ele voou, como passageiro, de Kuibyshev a Moscou a bordo de uma aeronave II-18. Quando o avião se aproximava da cidade, um grupo de caças fizeram companhia.

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Ilyushin Il-18, transportando Yure Gagarin, escoltado por caças MiG-17, em sua chega à Moscou, em 14 de abril de 1961 / © James Whitmore – LIFE
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Yure Gagarin, em sua chega à Moscou, em 14 de abril de 1961 / © James Whitmore – LIFE
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Yure Gagarin, em sua chega à Moscou, cumprimentado pelo líder soviético NIkita Khrushchev e membros do Politburo, em 14 de abril de 1961 / © James Whitmore – LIFE

No chão, Nikita Khrushchev, com uma comitiva completa de membros do Partido Comunista,  juntamente com uma multidão de curiosos, observavam Gagarin vestido com seu uniforme da força aérea sair da aeronave e caminhar sobre o tapete vermelho para uma recepção de herói pelo líder soviético.

Promovido de tenente a major enquanto ainda estava em órbita, foi com esta patente que a agência oficial de notícias TASS, da URSS, anunciou este espetacular feito ao mundo, que assim tomava conhecimento de que entrava numa nova era, dos voos espaciais tripulados.

Um dia após o lançamento, com toda a URSS comemorando o triunfo de Gagarin, um grupo de engenheiros (deixados em Baikonur por ordem estrita de Korolev) teve estudar as fitas de telemetria gravadas durante o lançamento. Foi quando eles descobriram uma falha no sistema de controle de rádio e  monitoramento da nave Vostok, fazendo com que o mecanismo de corte do motor de reentrada fosse acionado uma fração de segundos mais tarde do que o necessário, provocando o pouso fora do local planejado.

Lançado ao espaço em segredo absoluto, Gagarin voltou à Terra uma celebridade internacional. Pela proeza, foi condecorado como Herói da União Soviética pelo governo de Nikita Krushev, tendo recebido a medalha da Ordem de Lenin.

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Capa da revista Time publicada em 21 de abril de 1961 registrando o feito soviético / © Boris Chaliapin 

A onda de choque da missão Vostok espalhou-se fora do programa espacial soviético e apresentou seu herói. Gagarin foi recebido por governos e por multidões em várias cidades do mundo, dos dois lados da “cortina de ferro”, nas viagens oficiais que fez nos meses seguintes, tendo visitado Londres, Paris, Berlim, Cairo, Estocolmo, Sófia, Varsóvia, Belgrado, e Havana, entre outras.

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Propaganda do programa espacial soviético contendo os dizeres: Glória ao conquistadores do universo! / © Science Photo Library

Propaganda do programa espacial soviético contendo os dizeres Em nome da paz! (Science Photo Library)
Propaganda do programa espacial soviético contendo os dizeres Em nome da paz! / © Science Photo Library

Entre os dias 29/07 a 05/08/1961, Gagarin veio ao Brasil, em visita oficial. Nesse período visitou as cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, onde foi condecorado pelo presidente Jânio Quadros com a Ordem do Cruzeiro do Sul. Ao chegar a Brasília o cosmonauta surpreso com o impacto provocado pelo modernismo da capital brasileira recém construída disse: “Tenho a impressão de que estou desembarcando num planeta diferente, não na Terra”.

Nos EUA, o presidente John Kennedy declarou que ainda seria necessário algum tempo até que o seu país pudesse se igualar à URSS na tecnologia de foguetes e propulsores, e que as próximas notícias ainda seriam piores antes de ser boas. Apesar disso, Kennedy mandou congratulações oficiais ao governo soviético pela “fantástica conquista tecnológica”.

Após o Sputnik, o nacionalismo americano tinha então recebido seu mais duro golpe, com Gagarin. Ao mesmo tempo, solidificou a determinação americana de investir pesadamente em seu nascente programa espacial tripulado e tornou politicamente mais fácil para o governo dos EUA a comprometer-se na meta ambiciosa e arriscada de pousar um homem na Lua dentro de dez anos. Junto com o Sputnik, a missão Gagarin ajudou a criar o enorme e superfaturado, programa Apollo. Até hoje, livros americanos e artigos de revistas sobre a história da exploração espacial, que são em grande parte alheias a quaisquer desenvolvimentos fora dos Estados Unidos, fazem uma exceção quando se trata de Sputnik e Yuri Gagarin.

Ao mesmo tempo, o feito de Gagarin ajudou a criar a enganadora aparência da União Soviética como a mais avançada e progressista da nação do planeta. O líder soviético, Nikita Kruschev e seus sucessores, fizeram de Gagarin um dos ícones mais proeminentes do regime soviético.

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Yure Gagarin / © RIA Novosti

Em 1960, Yure Gagarin foi um dos 20 pilotos selecionados para o programa espacial soviético, e, pela sua excelente performance nos treinos e sua origem camponesa (que contava pontos no sistema comunista), além de sua personalidade magnética e esfuziante, acabou sendo escolhido para ser o primeiro a ir ao espaço.

A partir de 1962, ocupou o cargo de deputado no Soviete Supremo da União Soviética até voltar à Cidade das Estrelas, o centro espacial soviético, para trabalhar no design de novas espaçonaves.

Depois de vários anos afastado, dedicado apenas ao programa espacial, Gagarin voltou ao curso de treino de pilotos, para uma requalificação como piloto de caça nos novos caças da VVS.

Em 27 de março de 1968, aos 34 anos de idade, durante um voo de treino de rotina em um caça MiG-15 sobre a localidade de Kirzhach, ele e o instrutor de voo Vladimir Seryogin morreram na queda do jato. Gagarin e Seryogin receberam honras de Estado e foram enterrados na muralha do Kremlin.

A real causa do acidente foi mantida em segredo durante anos, mas, em abril de 2011, no aniversário de 50 anos do histórico voo de Yuri Gagarin, o Kremlin liberou documentos, antes mantidos em segredo, sobre a misteriosa morte do pioneiro espacial soviético. O acidente foi causado por uma manobra brusca de Gagarin para desviar de uma sonda meteorológica. Aos 34 anos, Yuri Gagarin deixou esposa, duas filhas e uma Terra azul.

“A Terra é azul”, frase que lhe foi creditada em 1961, marcou a soberania da União Soviética na corrida espacial e abriu caminho para novas conquistas, como a Lua. O cosmonauta, entretanto, faleceu um ano antes de testemunhar essa façanha.


Eu poderia voar pelo espaço para sempre!  

Yuri Alekseievitch Gagarin
Nascimento: 9 de março de 1934, Klushino, Rússia
Falecimento: 27 de março de 1968, Kirjatch, Rússia


 

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FONTE: BBC, Roscosmos, RSC Energia

EDIÇÃO: Cavok

NOTA DO EDITOR: Por uma incrível coincidência, ou não, no mesmo dia da história em que Gagarin ganhava o Cosmos, em 1981 o Ônibus Espacial Columbia realizava o primeiro voo de um veículo espacial reutilizável e abria uma nova fronteira na tecnologia espacial. A missão STS-1 foi curta, curtíssima para os padrões atuais, mas o objetivo dela era demonstrar a capacidade de lançamento seguro, órbita e retorno seguro da nave e da tripulação, além de verificar o desempenho de todo o veículo. Já no primeiro voo, o shuttle sofreu danos no revestimento, perdendo 16 placas no lançamento e danificando outras 148 (algo que se tornou comum durante toda a sua carreira operacional e nunca corrigida 100%).

 

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19 COMENTÁRIOS

  1. Na minha simples opinião Gagarim foi o ícone de uma era. Representa o lado bom da união soviética e seus avanços tecnológicos.
    Belíssima matéria LaMarca. Parabéns!

    • Gagarin representa o que os russos sempre puderam ser. Nem todos conseguiram porque viveram por muito tempo em uma terra onde a simples opinião te levava à morte, ao degredo. O que este povo não teria feito a mais sem o comunismo para desgraçar aquela terra?

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