Um F-16 Fighting Falcon (esquerda), F-15 Eagle (frente), F-4 Phantom (direita) e um A-10 Thunderbolt II (atrás) voam uma formação diamante. (Foto: U.S. Air Force / Airman 1st Class Veronica Pierce)

Algumas importantes lições de estratégia militar – e, particularmente, de emprego de meios aeroespaciais – parecem jamais ser aprendidas em sua inteireza, não obstante os repetidos exemplos que a história insiste em demonstrar.

Um dos maiores erros de compreensão e percepção do complexo fenômeno da guerra moderna parece ter sido plenamente entendido – para nunca mais ser repetido – na campanha aérea do Vietnã, denominada por operação Rolling Thunder.

F-111A Aardvark durante a guerra do Vietnã.

A ideia básica dos estrategistas militares norte-americanos, desde o início oficial da participação estadunidense no conflito em 1964, era simplesmente de se estabelecer um mecanismo de gradativa pressão de guerra aérea que obrigasse, em última análise, o Vietnã do Norte a não somente suspender o seu apoio político-militar ao movimento Vietcong no Sul, como ainda, a inibir por completo qualquer idéia de invasão terrestre ao Vietnã do Sul.

Bombardeiros B-52 Stratofortress.

Os bombardeios nucleares B-52 Stratofortress, adaptados para transportar 28 toneladas de bombas convencionais (32 toneladas nas versões aperfeiçoadas B-52 G e H), cumpriam a missão estratégica de bombardear alvos em território norte-vietnamita com restrições a zonas de exclusão pré-estabelecidas que se resumiam, especialmente, a uma circunferência em torno das duas principais cidades: Hanói e Haipong.

Gradativamente, todos os alvos importantes foram transferidos para estes locais “protegidos”, permitindo ao Vietnã do Norte estocar armamentos e outros meios necessários a sua campanha em relativa segurança.

Grumman A-6A Intruder.

Portos e outros entrepostos de recebimento de material bélico soviético (e, em parte, também chinês e norte-coreano) se incluíam nas chamadas “áreas proibidas”, viabilizando uma relativa margem de tranquilidade ao inimigo.

Aeronaves F-105 Thunderchief.

Em território sul-vietnamita e fronteiriço, onde inexistia qualquer zona de restrição ao emprego de aeronaves de bombardeio tático (inicialmente foram utilizados preponderantemente o F-105 Thunderchief, – que podiam ser derrubados por artilharia antiaérea e por caças MIG-21 Fishbed -, e, posteriormente, com muito maior sucesso, o F-4 Phantom II e o A-6 Intruder, baseado em porta-aviões, com capacidade de ataque noturno e em qualquer tempo), a estratégia reativa foi a utilização de “santuários” em países vizinhos, simpáticos à causa comunista.

F-4 Phantom II.

O resultado final desta equivocada estratégia (que chegou a consumir em 1967/8, US$ 9 bilhões para efetivamente destruir pouco mais de US$ 100 milhões) somente ficou patente com a ofensiva combinada vietcong e norte-vietnamita em 1968 (ofensiva do Tet), que demonstrou claramente um Vietnã do Norte forte, coeso e determinado a reunificar o Vietnã sob a sua bandeira.

A virtual derrota militar dos Vietcongs, – que perderam, nesta oportunidade, mais da metade de seus efetivos -, não se traduziu em consequente vitória norte-americana e o início dos bombardeios a alvos norte-vietnamitas, sem restrições amplas, apenas assegurou a assinatura dos acordos de Paris e o início da retirada das tropas terrestres estadunidenses de 530.000 homens estacionados em território sul-vietnamita (além de mostrar um Presidente Lyndon Johnson, outrora arrogante, deprimido e envergonhado, que sequer apresentou sua candidatura à reeleição).

B-52 durante a operação Linebacker II.

Em 1972, uma segunda ofensiva norte-vietnamita (em total descumprimento ao estabelecido nos acordos de Paris, em 1968) foi novamente repelida com apenas 20.000 efetivos restantes do exército norte-americano (além do exército regular do Vietnã do Sul) e o valoroso auxílio do chamado “guarda-chuva” aéreo americano que, ao seu tempo, culminou com a decisão histórica do então Presidente Richard Nixon de proceder a uma ousada intervenção no vizinho Laos (à véspera das eleições presidenciais norte-americanas) e à operação Linebacker II, em dezembro de 1972. Durante alguns dias o Vietnã do Norte, pela primeira vez, foi duramente castigado por bombardeios B-52 G e H, partindo de três diferentes localidades (Vietnã do Sul, Guam e Tailândia), ininterruptamente, durante vários dias, sem qualquer restrição (os portos inimigos foram completamente minados).

Os resultados foram imediatos (embora não surpreendentes): não só todos os prisioneiros norte-americanos oficialmente reconhecidos foram repatriados, como o Vietnã do Norte foi obrigado a assinar novos acordos de paz, em janeiro de 1973, assegurando formalmente o fim das hostilidades no Vietnã e consagrando a divisão entre o norte e o sul (os acordos não foram cumpridos, entretanto, pelo norte que, aproveitando-se da crise política norte-americana com o escândalo de Watergate, em 1974, cruzou a fronteira do Vietnã do Sul no final daquele ano, conquistando, em poucos meses, todo o território do sul, já não mais protegido pelo poderio aeroespacial estadunidense).

Embora a operação Linebacker em 1972 tenha sido coroada de pleno êxito, a campanha aérea do Vietnã (operação Rolling Thunder), de modo geral, demonstrou claramente o equívoco de se empreender uma estratégia aeroespacial que não objetive fundamentalmente a completa e total destruição dos meios do inimigo, retirando a sua vontade de lutar.

Helicóptero Mi-24 durante conflito do Afeganistão no começo dos anos 1980.

O mesmo erro foi, em alguma medida, cometido pelos soviéticos em 1979, quando de sua desastrosa intervenção no Afeganistão.

Boeing B-52H sobre o Afeganistão.

Tanto os EUA, no Vietnã, como a extinta-URSS, no Afeganistão, foram reféns, sob certo aspecto, não só de uma política internacional de busca irrestrita de estabilidade, como também de uma equivocada percepção da natureza ampla e complexa dos respectivos conflitos em que se envolveram.

Três F-111E e um EF-111 Raven durante a primeira guerra no Golfo.

Embora a herdeira da extinta União Soviética, a Rússia, pareça não ter aprendido as lições básicas destas aventuras militares, – em face de seu inicial desempenho medíocre na crise da Chechênia (1ª intervenção 1994/1996) -, os norte-americanos, sem dúvida, demonstraram, com as operações escudo e tempestade no deserto, no Iraque, possuir uma nítida compreensão histórica de como deve ser empregada eficientemente a máquina aérea-militar.

Um EA-6B Prowler do VAQ-140 e um A-6E Intruder voam sobre o Golfo Pérsico..

O território iraquiano, simplesmente, durante vários dias e noites, sem qualquer restrição, foi intensa e permanentemente atacado por todos os tipos de meios à disposição das forças armadas estadunidenses, incluindo bombardeios B-52 e FB-111, aviões de ataque A-10 Thunderbolt II (da USAF) e A-6E Intruder e FA-18 Hornet (embarcados), caças F-117 (Stealth), F-111F, F-16 Falcon e F-15 Eagle (da Força Aérea) e F-14 Tomcat e F-18 Hornet (da Marinha), além de aeronaves de outros países e mísseis de cruzeiro disparados de unidades navais.

Caça invisível F-117 Nighthawk.

O resultado – não obstante estrategicamente planejado –, nem por isso deixou de ser surpreendente: destruição maciça de meios militares e de suporte geral do então quinto maior exército do mundo (após os exércitos russo, chinês, americano e indiano) e rendição incondicional, alguns dias após o tranquilo desembarque de fuzileiros navais e a não menos fácil invasão terrestre dos exércitos aliados.

Três aeronaves F-14A Tomcat do VF-32 voam sobre o deserto durante a Operação Tempestade no Deserto.

Os próprios russos, em um segundo momento, – durante a chamada 2ª Guerra da Chechênia (1999/2009) -, também pareceram ter entendido melhor o papel do poderio aeroespacial, empregando-o de maneira maciça e com resultados notáveis.

Aeronaves KC-135 Stratotanker, F-15E Strike Eagle, F-117 Nighthawk, F-16CJ, Tornado GR-4, e F/A-18 Hornet da RAAF durante a Operação Iraqi Freedom. (Foto: U.S. Air Force / Master Sgt. Ron Przysucha)

A chamada 2ª Guerra do Golfo (2003) igualmente logrou demonstrar a inexorável importância do poderio aeroespacial, não obstante os problemas posteriores de ocupação que afligiram as tropas estadunidenses.

Mais uma vez, a história registrou a primazia do poderio militar aeroespacial e a importância fundamental do estabelecimento da superioridade aérea, reafirmando as lições estratégicas, introduzidas há mais de 50 anos (com a 2ª Grande Guerra), que preconizou, em termos amplos, por uma maciça ofensiva aérea, em qualquer tipo de guerra, que destrua previamente todos os meios de defesa e de ataque do adversário e, principalmente, sua vontade de se engajar ou continuar o conflito.


AUTOR: Reis Friede – Desembargador Federal do TRF2, Mestre e Doutor em Direito e Professor Emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME).

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10 COMENTÁRIOS

  1. Foram guerras de características muito diferentes.
    Da derrota histórica no Vietnã , com a perda de milhares de aeronaves à vitória relativamente fácil contra as fracas forças iraquianas na Guerra do Golfo.
    O aprendizado americanos seria: Cuidado com quem vai mexer.

    • Creio que esta sua conclusão não se enquadra no ocorrido porque, como é demonstrado na matéria, o que manteve os norte vietnamitas em condições de combate foi um erro de estratégia dos EUA que permitiu a livre operação de diversos pontos de abastecimento por parte dos comunistas, mantendo-os em condições de continuar a combater.
      Há de se reconhecer a bravura e obstinação dos norte vietnamitas mas eles perderam praticamente todos os combates travados, inclusive em terra.
      Esta proibição imposta a USAF e a US Navy em relação a atacar de forma mais abrangente ao invés de impor áreas específicas é objeto de polêmicas até hoje.
      Alguns chegam a achar que foi um lobby com o objetivo de prolongar os lucros da guerra, mas realmente não teve o fim que eles almejavam.

      • Foi erro da liderança política. Destruída a infraestrutura e cortadas as linhas de reabastecimento, o Vietnã não durava dois meses.

      • Eu considero um crime inclusive, tiveram vários casos mas o "Hambúrguer Hill" mostra bem o que um grupo de generais politicos jumentos são capazes de fazer, e o quanto a vida de um soldado é banal aos olhos deles.

    • " Contra as fracas forças iraquianas na Guerra do Golfo "…….. Discordo totalmente, o exército do Iraque era enorme, muito bem equipado, milhares de tanques e artilharia de origem soviética, sua Força Aérea tinha centenas de aviôes ( só de Mirages F-1 eram mais de 500 ! ), e tinham experiência de combate, devido à longa guerra com o Irã !
      O que houve no OM foi o uso maciço dos meios aéreos, sem restrições absurdas, coisa que no Vietnã não se fez por pura arrogância e burrice do comando americano, permitindo ao inimigo adaptar-se a cada situação.

  2. O autor cometeu um erro grotesco ao comparar o Vietnã com Iraque, no Vietnã havia uma grande preocupação em não trazer a China para o conflito como tinha ocorrido na Coreia ( não vou sequer comentar a URSS) , eles simplesmente não podiam atacar portos onde navios russos estavam atracados e não se atreviam a invadir o norte efetivamente porque a China viria em Socorro do norte. Estavam literalmente pisando em ovos la.
    Ja no Iraque não havia qualquer oposição, a Urss havia acabado de se fragmentar, a China tinha se tornado aliada, todos os vizinhos odiavam o sadam, a ONU deu carta branca etc etc la eles poderiam fazer o que quiser.

    • Então não deviam ter entrado.

      Mandar tropas terrestres com poder aéreo restrito é suicídio.

      Deveriam só armar os locais e no máximo fornecer apoio aéreo.

        • Esse papo de limitações não cola.
          Apenas no Camboja, teatro secundário da guerra na Indochina, foram lançadas mais de 2.700.000 toneladas de explosivos em mais de 230.000 surtidas a 113 mil localidades.
          No Laos foram lançadas mais de 260 milhões de bombas, mais do que em toda a 2ª G.M.
          Pode-se imaginar o que foi despejado sobre o Vietnã do Norte e o do Sul..
          Só como comparação, contra a Coreia do Norte, na década de 1950, foram 635 mil toneladas.
          Então, não foi por falta de apoio aéreo que os EUA perderam a Guerra.

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