A falta de comunicação condenou ao fracasso um esforço de Inteligência complexo.

Em setembro de 1986, a guerra Irã-Iraque – uma sangrenta guerra de desgaste que envolveu milhões de combatentes e deixou cicatrizes profundas em ambos os lados da linha de frente – estava prestes a chegar ao seu 6 ano. A guerra começou quando o Iraque invadiu o Irã na esperança de garantir o controle sobre a via navegável de Shatt Al Arab e a província Khuzestan, rica em petróleo, no sudoeste do Irã.

Embora o Exército iraniano ainda estivesse em desordem causado pela revolução que derrubou o xá Mohammad Reza Pahlavi em 1979, rapidamente se recuperou e ofereceu resistência muito mais forte do que os iraquianos esperavam. Na primavera de 1982, os iranianos forçaram os iraquianos a um retiro estratégico e lançaram uma contra-invasão. Teerã desencadeou uma “ofensiva final” após a outra. A operação Val-Fajr 6, que o Irã lançou em fevereiro de 1986, quase venceu o Exército iraquiano.

Nos combates de solo, era o Exército iraniano que desempenhava o papel dominante, mas nos céus a situação era o contrário. Sem o apoio e a assistência dos Estados Unidos, a Força Aérea da República Islâmica do Irã (Islamic Republic of Iran Air Force – IRIAF) estava desgastada após anos de combate aéreo intensivo.

O Tomcat chega ao Irã

Pelo contrário, a Força Aérea iraquiana (Iraqi Air Force – IrAF) – estava recebendo equipamentos cada vez mais avançados da França e da extinta União Soviética. Embora seja perfeitamente adequado para substituir as perdas e manter a vantagem quantitativa, nenhuma das aeronaves que o Iraque importou correspondeu ao poderoso Grumman F-14 Tomcat que o Irã operava. Graças ao seu radar AWG-9 e aos mísseis ar-ar AIM-54 Phoenix de longo alcance, o Tomcat detectava e derrubava aeronaves iraquianas sem os pilotos iraquianos saberem que o F-14 estava lá. Isso foi o caos e abateu a moral da IrAF.

Na tentativa de conter as operações dos F-14 iranianos e descobrir os segredos da aviônica e das armas da Tomcat, a inteligência militar iraquiana desenvolveu um plano para convencer um dos pilotos iranianos a desertar com o avião para o Iraque.

O capitão da IRIAF, Ahmed Moradi Talebi, concordou com o plano que deveria ser executado no dia 3 de setembro de 1986.

Preocupado com o fato de seus superiores suspeitarem, Moradi decidiu fugir um dia antes, na sexta-feira 2 de setembro.

Seu voo para o Iraque colocou as defesas iraquianas em alerta. Por razões de segurança, a inteligência militar iraquiana manteve a informação sobre uma possível deserção longe de oficiais importantes. Quando Moradi dirigiu seu Tomcat para o espaço aéreo iraquiano, dois MiG-23ML do Esquadrão No.63 da IrAF decolaram da base aérea de Bakr.

Incerto quanto ao que o seu piloto estava fazendo, o oficial iraniano de interceptação de radar (RIO), o capitão Najafi, chamou Moradi várias vezes no interfone. Sem resposta. Em um ponto, ele considerou brevemente atirar no piloto. Enquanto isso, Moradi voou cada vez mais para o Iraque.

O líder da dupla de MiG-23 ficou 15 km atrás do Tomcat, mas ele acabou perdendo o contato radar devido a um mau funcionamento. Ele não teve escolha senão ordenar que seu ala assumisse o controle. O jovem tenente fechou seu radar no Tomcat, disparando um míssil ar-ar R-24T.

O míssil, guiado por calor, não conseguiu acertar o alvo, mas em vez disso, explodiu abaixo do F-14, incendiando o avião. Moradi e Najaf se ejetaram.

Incerto sobre o que estava acontecendo, Brigadeiro-General Ahmad Sadik monitorou a intercepção direto do Comando de Operações de Defesa Aérea em Bagdá. Foi muito fácil. Os MiGs rapidamente pegaram o Tomcat. Ele sabia o que se passaria no dia seguinte. De imediato ele suspeitou que algo deu errado.

Sadik perguntou ao oficial responsável qual caminho a aeronave iraniana fizera. Ele ordenou que os pilotos dos MiG-23 identificassem o alvo. Segundos depois, os dois MiGs iraquianos – já com o combustível criticamente baixo após uma grande busca pelo alvo, localizaram a aeronave derrubada: era um F-14.

Sadik imediatamente voou a bordo de Lockheed JetStar para a base aérea de Al Kut e depois com um helicóptero Mi-8 para a Numanya. Chegando ao local da queda, cerca de duas horas depois, os destroços ainda estavam queimando e a fumaça era visível por mais de 50 quilômetros. O helicóptero circulou uma vez ao redor do local do acidente e depois continuou por Numanya. Ao pousar perto do prédio municipal, Sadik viu uma grande multidão de civis que cercam um grupo de soldados que seguravam os dois cativos iranianos. A multidão estava furiosa e cantavam slogans anti-iranianos.

Aquela fora a primeira vez que os iranianos capturavam uma tripulação iraniana de F-14, e também fora a primeira vez que um Tomcat entrara no Iraque. “Eu conversei com eles e inspecionei vários equipamentos que usavam e perguntei a Moradi por que ele desertou na sexta-feira, não no sábado, conforme combinado. Ele disse que estava em pânico e a oportunidade de voar estava lá e ele aproveitou”, contou Sadik anos depois. Najafi ficou estupefato. Ele não sabia o que estava acontecendo.

Ao chegar em Bagdá, Moradi entregou um manual de voo do F-14 iraniano. Desconhecido para a IrAF, continha uma série de informações obsoletas. Impresso em 1976, afirmava que os Tomcats iranianos eram incompatíveis com o míssil AIM-7 Sparrow. Esta informação era verdadeira em 1980, mas não a partir de 1986. Os F-14 iranianos foram modificados para operar com Sparrow em 1981!

No dia seguinte, voltei ao local do acidente para inspecionar os destroços“, disse Sadik. “Para minha grande decepção, a parte da frente da aeronave fora completamente destruída. Não havia uma única peça do radar ou cockpit para recuperar. Apenas o dossel do cockpit ainda estava intacto. A única arma que pudemos encontrar foi o canhão Vulcan M61A1. Estava completamente torcido e queimado. Os motores estavam relativamente completos, mas ambos eram antigos e sem valor de inteligência para nós. Eventualmente, não aprendemos nada com os destroços, exceto que algumas partes da célula usavam números de série dos EUA e outros de origem não identificável“.

Após um amplo esclarecimento, Moradi buscou asilo num país europeu. Najafi recusou todas as ofertas iraquianas e pediu para ser tratado como um prisioneiro de guerra. Ele retornou ao Irã em 1990.

Menos de um ano depois, no dia 10 de agosto de 1987, Moradi foi baleado enquanto caminhava com sua esposa e filho na Suíça. As autoridades nunca encontraram o assassino.

Assim terminou a história de uma tentativa de deserção por um piloto iraniano F-14 para o Iraque. Lançado um dia antes do que combinado com a Inteligência iraquiana, terminou com o Tomcat sendo derrubado por dois MiG-23ML. Anos de trabalho árduo da inteligência militar iraquiana foram em vão, e o desertor iraniano, em seguida, não apenas forneceu informações erradas sobre o armamento dos F-14 da IRIAF, mas também foi morto no exílio.

Mesmo assim, e ao contrário do que se poderia esperar, os iraquianos nunca compartilharam nenhum pedaço dos destroços do F-14 com os soviéticos. Determinados a reforçar suas relações com Washington, entregaram os destroços aos representantes americanos na embaixada dos EUA em Bagdá. De acordo com um analista aposentado do Pentágono, os americanos concluíram que o Tomcat derrubado continha peças sobressalentes dos estoques da Marinha dos EUA e algumas foram fabricadas de forma reversa no Irã.


FONTE: War is Boring

 

18 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns pela matéria Gio.

    Realmente é uma história muito interessante!!! A imagem do F-14 no chão deve ter partido o coração de muitos que viram os destroços.

  2. Acho que eles só entregaram os destroços para os americanos porque perceberam que não tinham nenhum valor.

    Se o avião tivesse pousado no Iraque intacto o que eles iriam fazer ? Engenharia reversa do radar e dos misseis ? O Iraque nunca teve essa capacidade, provavelmente iria tudo para a URSS e eles obteriam alguma compensação dos soviéticos.

    • Anos depois os soviéticos colocaram as mãos no Tomcat com a conivência dos iranianos.

      • Esse fato deve ter contribuído para a retirada de serviço do F-14 pela USN. Felizmente os russos nunca puseram as mãos em um F-15

          • no cômputo total do conflito os F-14 derrubaram muitos Migs-23. E se contar os dois Migs-23 derrubados pela USN em 1989 a conta aumenta…..

            Agora, os maiores carrascos do Flogger sempre foram os F-15 e F-16 da Heyl Ha'Avir….

            • Segundo algumas fontes, os Tomcat iranianos abateram 163 avioes iraquianos contra 4 perdas. Os da USNavy abateram 2 SU-22 em 1981 e 2 Migs 23 em 1989 de Kadafi, ambos os incidentes no Golfo de Sidra.

              • O score do F-14 com os persas seria de 135 vitórias, 4 derrotas e 4 perdas para a AAA iraquiana.

    • Acho pouco provável! Essas operações da inteligência iraquiana se davam em conjunto com a CIA, que estava interessada em saber o estado operacional dos F-14 iranianos.

      Outras operações nesse sentido foram levadas a cabo pela CIA em conjunto com os sauditas.

  3. A parte que mais gostei foi do traidor levando fumo no final.
    A inteligência iraniana foi formada pela inteligência alemã.
    Naquela época era considerada boa, hoje é considerada umas das dez melhores do mundo.

    • A "gloriosa" inteligência iraniana atual, "considerada uma das dez melhores do mundo", não conseguiu evitar os seguidos atentados levados a cabo pelo Mossad dentro do território do próprio Irã que mataram cientistas chave do programa nuclear.

      Como diria Raul Seixas: "Tente outra vez"

  4. Que burro esse cara!

    Era só ter mandado um ZAP #Partiu Iraque e pronto!

  5. Excelente materia, como sempre. Complicado viu… ate o desertor fora assassinado.

  6. É muito estranha esta história do Iraque, em 1986, precisar de um F14 para determinar suas capacidades. E mais estranho ainda é o Iraque ter capacidade de fazer esta determinação mas, enfim, se você diz…

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