Finda a Segunda Guerra Mundial, a indústria bélica britânica saiu como a grande vencedora.

Enquanto a indústria e a tecnologia alemã estavam em ruínas, os britânicos, embora o Estado estivesse praticamente falido por anos de guerra, as conquistas tecnológicas jogaram a Grã-Bretanha na vanguarda tecnológica do mundo. Cansados de guerras e com uma conta enorme para pagar, os políticos que assumiram o governo após 1945 logo se encantaram pelo que a nova tecnologia podia fazer.

Em 1957, o recém-nomeado Ministro da Defesa, Duncan Sandys, escreveu o que ficou conhecido como o Livro Branco da Defesa, que estabeleceu a política do governo britânico que definiu propostas e estratégias para os militares britânicos.

O assim chamado Livro Branco ganhou má reputação com o passar do Tempo devido aos seus efeitos esmagadores sobre a indústria de defesa britânica e as Forças Armadas, especialmente no que diz respeito à RAF. Sandys tornou-se ministro da Defesa em 14 de outubro de 1957 e manteve este cargo até 27 de julho de 1960. As políticas sugeridas foram influenciadas por duas questões principais: a primeira foi o estado econômico em que a Grã-Bretanha se encontrava. A segunda era que a Grã-Bretanha ainda era uma potência global, embora um pouco atrás dos EUA e da URSS, com um império ainda intacto. Até meados da década de 1950, a Grã-Bretanha ainda era a potência européia mais forte, tanto em termos militar quanto econômicos, e muito superior no desenvolvimento da energia atômica, se comparada às contrapartes continentais.

Duncan Sandys

No entanto, com a perda gradual do Império, a Índia, em particular, a Grã-Bretanha não apenas perdeu seu lugar como potência global, mas também européia. Em 1954, o PIB da Grã-Bretanha foi 22% superior ao da França e 9% superior ao da Alemanha; em 1977, o PIB francês era 34% maior e o PIB alemão 61% maior. Talvez mais revelador da deterioração da situação econômica na Grã-Bretanha foram seus níveis comparativos de produtividade. Em 1954, a Grã-Bretanha, a França e a Alemanha estavam relativamente equilibradas, com a Grã-Bretanha tendo uma vantagem marginal. Em 1977, a produtividade da Grã-Bretanha havia aumentado em apenas 1,68% em comparação a 2,66% na França e 2,77% na Alemanha. Todos esses eram sintomas de um fato crucial: a Grã-Bretanha estava à beira da falência após o fim da Segunda Guerra Mundial e tornou-se fortemente dependente da ajuda dos EUA. Assim, os orçamentos da defesa, como de outros departamentos do governo, tiveram que forçosamente se adaptar as propostas de Sandys de avançar para programas de mísseis, menos onerosos em termos de custos contra os aviões da RAF.

Muitos analistas afirmam que Sandys apostou que armas nucleares e mísseis seria o Futuro. Que os aviões não mais se encontrariam nos céus para duelarem. Já outros – como este que vos escreve – acreditam que Sandys sabia que não existia tecnologia na época capaz disso, mas ante a crise econômica, ele ludibriou a todos, presenteando com bons cargos aqueles oficiais que lhe apoiaram. Sandys foi um burocrata de plantão, que para economizar algumas libras, destruiu toda uma rica e poderosa indústria. Não só isso. Milhares de profissionais de alto gabarito perderam seus empregos, indo muitos trabalhar nos EUA, levando toda uma gama de conhecimento.

Quem analisa o Livro Branco da Defesa nos dias atuais fica surpreso: como o Harrier conseguiu existir?

O estrago só não foi maior por três simples motivos: primeiro, a tecnologia não dava sinais de ser confiável; Segundo os EUA mantinham um programa de financiamento de armas estrangeiras (o motor Pegasus do Harrier deve sua vida ao dólar) e por fim a URSS.

A ameaça soviética, embora muitos no governo fossem simpáticos a causa comunista, permitiu a RAF manter certo número de programas que mantiveram a indústria bélica viva. O melhor exemplo foi a Força V (Valiant, Victor e Vulcan) de bombardeiros

Politicamente e tecnologicamente falando, a ênfase nos artefatos nucleares mudou para o desenvolvimento de mísseis, que não apenas ameaçavam as aeronaves em termos de uma arma de contra-ataque, mas seu crescente desenvolvimento na década de 1960 significava que esses mísseis poderiam levar as armas nucleares a qualquer parte do globo. Politicamente, os mísseis tornaram-se extremamente importantes com o lançamento soviético do Sputnik em 4 de outubro de 1957, apenas dez dias antes de Sandys se tornar ministro da Defesa.

O sucesso dos soviéticos pegou os americanos de surpresa, desencadeando a Corrida Espacial, que passou a dominar as preocupações geopolíticas entre as superpotências no contexto mais amplo da Guerra Fria.

Vulcan armado com o míssil Blue Steel
Kestrel

De fato, o lançamento inaugurou novos desenvolvimentos políticos, militares, tecnológicos e científicos, tudo centrado em mísseis e, por conseguinte, não surpreende que o Livro Branco refletisse estas preocupações. A Guerra Fria, portanto, ditou a política de defesa britânica.

A indústria aeronáutica britânica entrou num gradual programa de extinção. Construtores de aeronaves, antes recebidos com pompas no Palácio Real, foram marginalizados. Aqueles que não foram embora para o outro lado do Atlântico (o Canadá recebeu um tremendo impulso em sua indústria bélica) viram suas empresas virarem pó. Sem contratos novos, era fechar ou vender para outro fabricante.

Mas houve um avião, que foi o derradeiro canto do cisne para a indústria britânica. Seu nome, Hawker Hunter. Foi praticamente o ultimo grande avião britânico posto em serviço. Se os EUA deram ao mundo o F-86 e os soviéticos o MiG-15, na mesma classe, os britânicos deram ao mundo o elegante Hunter. Foi a aeronave que por mais tempo serviu aos interesses da Coroa, com 1.972 aparelhos produzidos. Ele foi o supra-sumo da industria bélica britânica.

A RAF foi iludida duas vezes pelo governo Trabalhista inglês. Cancelou o P.1154 prometendo manter o TSR-2. Depois cancelou este prometendo a RAF o F-111K, aeronave que nunca chegou…

Muitos dizem que o ultimo grande foi o BAC TSR.2. É preciso concordar que o TSR.2 era uma máquina fabulosa, mas ele foi o produto da soma de todo o erro chamado Livro Branco. O avião jamais poderia existir. Os pacifistas, travestidos de políticos, fizeram de tudo para encerrar de vez com a base industrial bélica britânica.

O TSR.2 foi cancelado em prol do F-111K, com a desculpa que o F-111K, em sua versão britânica, seria tão ou mais poderoso e que já estava pronto. No final, o TSR foi cancelado e o F-111K jamais foi adquirido exatamente pelo alto custo de aquisição e manutenção.

Em contrapartida, o Hunter pode voar. Pode nascer. Pode viver, e mostrar a quão poderosa e rica foi a indústria britânica antes do famigerado Livro Branco da Defesa.


– Giordani –

10 COMENTÁRIOS

  1. Realmente lamentável este fratricídio cometido contra a indústria aeronáutica britânica. Seria interessantíssimo se pudéssemos hoje observar toda uma linhagem de aeronaves criadas pelo muito peculiar estilo de design dos britânicos. Cada país têm seus estilos e soluções aerodinâmicas mais características mas os britânicos foram os que mais se diferenciaram de tudo mais já feito.

    • Era para os ingleses mandarem no mundo das aeronaves hoje, no entanto, de produtores eles passaram a consumidores.

  2. Acho que o CAVOK, poderia tecer alguns comentários em relação ao cancelamento do CF-105 Arrow, que iniciou o fim da vibrante industria bélica canadense. Os motivos para seu cancelamento são parecidos: ICBM´s, entrada do Canada no NORAD, míssel BOMARC, etc.

    • O Arrow pôs a RCAF na vanguarda da aviação militar, no entanto, olha o que os políticos fizeram!

  3. Decisão política feita por "burrocrata"… esperar o quê?
    Custou caro, aliás, os ingleses andam tomando umas decisões meio questionáveis, ultimamente.

  4. Não nos preocupemos!

    Os britânicos estão trabalhando para que o EAP (o pai do Eurofighter Typhoon) seja o último supercaça rabiscado naquelas ilhas!

    O futuro é fazer pedaços de um grande diecast, mas para alguém-do-além — já que os EUA não precisam deles e não há sinal de nenhum bom projeto com outras nações. Que "auspicioso"! 😀

  5. partido trabalhista da UK semeou a pobreza tecnológica e o atraso. assim como a Máfia PT, Mafia kirchner e o chavismo. confiar só no poder nuclear impede fazer geopolítica.Aqui a embraer escapou da sanha da máfia pt por se concentrar no mercado externo. a industria da UK nem isso pode fazer pela esquerdistas no governo. será que tem estátua deste sandys?

  6. Excelente texto.
    O que arrebentou o UK nos ultimos 50 anos foi o tal Partido Trabalhista, juntamente com a midia Britanica, essa sim um ninho de parasitas comunistas ou social-democratas que só produzem a destruição. Mas tem um outro detalhe: Os Britanicos tambem entraram na politica de "deitado em berço explendido" na aeronautica justamente por aquilo que nos primeiros paragrafos fala. Nos anos 50 a GB tinha varios projetos aeronauticos e militares, mas a maioria deu péssimos frutos. O Hunter foi a exceção, junto com o Camberra mas quando lembramos de Swift, Sea hawk, Lightning, Sea Vixen ou Scimitar, essa industria tambem pediu para morrer!
    Sem falar que seu unico sucesso comercial foi o Comet, lançado em 1950! De lá para cá nada de cunho comercial civil que nasça no UK fez sucesso (Concorde era lindo mas economicamente um mico do tamanho do king kong).

    • E outra. O Comet foi um fracasso terrível com os acidentes que interromperam sua operação e acabaram com sua carreira.

  7. Caro Giordani, passando com certo atraso para elogiar o excelente artigo!

    Seu texto me fez lembrar outros com temática semelhante que li recentemente. Apesar de ressalvas quanto à linha editorial, achei o conteúdo no mínimo interessante. Uma reportagem do Guardian que pondera como um "poder militar em declínio possui uma empresa tão grande como a BAE", segue o link: https://www.theguardian.com/commentisfree/2012/oc

    As Guerras Mundiais cobraram um preço grande do Império. Na segunda, por exemplo, o Reino Unido literalmente 'entregou' tudo de valor tecnológico que possuía para ser fabricado além mar. Comprou a segurança de seus súditos com sua vanguarda científica.

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