Poucos caças, especialmente os de motores a jato, foram construídos em números tão grandes e em num alto ritmo como o Mikoyan-Gurevich MiG-23. Além disso, o avião ia contra a abordagem soviética ao conceito de caça tático. Designado Flogger pela OTAN, o MiG-23 na verdade é um grande e mal compreendido avião.

A carreira do MiG-23 da Síria continuou subseqüentemente em um ritmo elevado e, durante 1974, o país recebeu mais 24 interceptadores MiG-23MS, bem como um número similar de MiG-23BN. Em 1978 começaram as entregas do MiG-23MF, equipando dois outros esquadrões .

Durante os combates no Líbano, entre abril de 1981 e junho de 1982, os interceptadores MiG-23MS reivindicaram duas vitórias e a perda de quatro aeronaves e um piloto. Segundo fontes sírias, a SyAAF (Força Aérea Síria) perdeu 85 aeronaves entre 6 e 11 de junho de 1982, juntamente com 27 pilotos mortos e oito feridos, em troca de 21 aviões e helicópteros israelenses. Fontes israelenses negam qualquer perda em combate aéreo. A IAF afirma ter derrubado em combates ar-ar de 82 a 87 aviões sírios. Destes, entre cinco a sete Su-22 foram abatidos e dois pilotos de MIG-23MS aparentemente usaram o caos para desertar.

O capitão Abdul Wahhab al-Kherat reivindicou o abate de um F-4E fazendo uso de mísseis ar-ar R-3/K13 (AA-2 Atoll na designação OTAN). Segundo fontes sírias, Abdul foi subseqüentemente abatido pelos F-15 israelenses.

Um ex-piloto da SyAAF explicou mais tarde: “cometemos muitos erros em 1982, e muitos de nossos pilotos mais jovens e menos experientes pagaram por isso com suas vidas. Mas os israelenses nunca controlaram totalmente os céus do Líbano, e muitos pilotos sírios conseguiram ditar as regras da batalha. O bom planejamento aplicado pelo outro lado nos causou muitos problemas, mas a SyAAF não foi completamente destruída, nem neutralizada, e permaneceu ativa até o cessar-fogo ao meio dia de 11 de junho.

Com a Líbia

A Líbia estabeleceu conexões com Moscou via Egito durante o início dos anos 1970. O país recebeu um total de 54 MiG-23MS e U entre o final de 1974 e o início de 1976, seguido por um número similar de MiG-23BN. Apenas 20 MiG-23MS e uns poucos 23UB foram postos em serviço, com os demais indo para armazenamento.

Flogger líbio fotografado no início dos anos 1980 a partir de um caça da Marinha dos EUA

Os MiG-23 da Líbia tiveram uma pequena e inexpressiva participação durante a curta guerra com o Egito em julho de 1977, mas um deles foi abatido pelos MiG-21 egípcios. A situação se repetiu no início de 1979, quando outro breve confronto com os combatentes egípcios se seguiu. Durante um breve encontro, dois MiG-23MS da Líbia cometeram o erro de engajar dois MiG-21MF egípcios equipados com mísseis AIM-9J Sidewinders. O major egípcio Sal Mohammed conseguiu derrubar um MiG-23, enquanto o outro líbio usou sua aceleração superior para fugir.

Estréia com os soviéticos

O próximo a usar o MiG-23 em combate foi a Força de Defesa Aérea Soviética (V-PVO). Durante a década de 1970, ocorreram inúmeros incidentes na fronteira soviético-iraniana e afegã-iraniana, forçando os soviéticos a instalar um regimento de MiG-23M na base aérea de Ak-Tepe, perto da fronteira com o Afeganistão, no então Distrito Militar do Turcomenistão. Um dos incidentes mais sérios aconteceu no dia 21 de junho de 1978, quando o radar soviético detectou quatro contatos lentos provenientes do Irã e penetraram de 15 a 20 km no espaço aéreo soviético perto de Dushak, no Turcomenistão. Cinco minutos depois, esses alvos foram detectados por outro radar. Um MiG-23M, pilotado pelo Capitão Dem’janov, foi lançado. Uma vez sobre a área, Dem’janov encontrou apenas um helicóptero, mas identificou erroneamente como amigável. Além disso, o posto de comando disse a ele para “não chegar muito perto do alvo”.

Dem’janov retornou a base, mas as 06h52 (hora local), outro MiG-23M, pilotado pelo Capitão Valery I Shkinder, foi lançado. Ele se aproximou de quatro contatos, identificou-os apropriadamente como helicópteros Boeing CH-47C Chinook da Força Aérea Iraniana e conseguiu a ordem para atacar. Na época, os Chinooks iranianos estavam voando em dois pares para o noroeste ao longo do Canal Garagum, mas quando suas tripulações detectaram o interceptador acima deles, viraram a sudoeste e voaram em direção às montanhas de Kopet e à fronteira iraniana.

Mergulhando atrás dos dois Chinooks do par de trás, Shkinder disparou dois mísseis ar-ar R-60 (AA-8 Aphid). Ambos explodiram o helicóptero mais recuado, cujos destroços caíram perto da aldeia de Gjaurs, matando todos os oito tripulantes. Shkinder relatou a destruição do primeiro alvo para sua base e anunciou que ele estava atacando o segundo helicóptero. Virando-se, ele posicionou seu MiG-23M atrás do helicóptero e abriu fogo com seu canhão GSh-23L. O helicóptero foi bastante avariado, mas o piloto iraniano conseguiu pousar perto do posto de fronteira soviético al Gjaurs. Todos os quatro tripulantes sobreviveram, mas foram capturados pelos guardas de fronteira. Os dois Chinooks restantes escaparam, voltando para o espaço aéreo iraniano.

O incidente foi minimizado por ambos os lados, e os soviéticos permitiram que o Chinook danificado fosse consertado pelos iranianos e levado de volta para casa, junto com os quatro membros da tripulação. O cenário completo deste incidente ainda permanece incerto.


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7 COMENTÁRIOS

  1. Matérias assim que engrandecem mais ainda o Cavok. Parabéns e queremos mais!
    Foram ótimos tempos para a aviação, o mundo vivia a iminência de um grande conflito em larga escala, mas o aprendizado tirado destes encontros que ajudou a evoluir os conceitos dos aviões que surgiram depois, das táticas e armas que foram desenvolvidas e também do legado que estas aeronaves deixaram.

  2. Os sírios nunca, jamais conseguiram comprovar os caças israelenses que alegaram ter abatido sobre o vale do Bekaa e ainda usam a justificativa de que pilotos que teriam logrados abates logo após foram abatidos. Bem diferente das IDFs, que fizeram farta prova dos seus feitos, tanto que tem muitos vídeos no YouTube.

    E pesquisando como aqueles combates se desenrolaram claramente é perceptível que a versão dada pelos sírios não condiz com a realidade. Graças à pesada ECM israelense os pilotos sírios perdiam contato com o GCI logo que cruzavam a fronteira com o Líbano e, às cegas praticamente voavam na direção das CAPs israelenses que eram alertadas dos caças pelos E-2 Hawkeyes da Heyl Ha Avir. Com a vantagem da consciência situacional é improvável que em alguma oportunidade os pilotos sírios pudessem impor os termos

  3. Avião projetado para a filosofia russo/soviética de dissuasão mediante um número descomunal de equipamentos, cientes da desvantagem tecnológica para o Ocidente. Dificilmente um projeto assim daria certo nas mãos de outros operadores (a não ser, talvez, com China e Índia, também com grandes contingentes e arsenais). Li em algum lugar que, como no MiG-21, a fuselagem de seção quase circular do MiG-23 facilitava e barateava bastante a produção.

  4. O controle dos céus do Líbano e Síria passou para as mãos israelenses depois dos conflitos do Bekaa, esta situação persiste até os dias atuais…é um fato e contra fatos não há argumentos…..os israelenses estão anos luz a frente de seus vizinhos em termos de táticas, treinamento, equipamentos e doutrinas e esta situação começou nos conflitos de 1973 (Y.Kippur) e se confirmaram em 1982 , continuando até hoje….

  5. Essa aeronave Mig-23 é historicamente injustiçada. Porque inicialmente a URSS exportava apenas a versão inferior e ainda para países não muito familiarizados com a tecnologia. O resultado disso: muitas derrotas. A aeronave em si também necessitou de um tempo de amadurecimento, tanto que as versões finais eram muito evoluídas, notadamente a versão Mig-23MLD.
    Nesta matéria me chamou a atenção, além, obviamente, da história em si: a eficiência da força aérea israelense (abatendo mais de 80 aeronaves inimigas em poucos dias).
    Muito legal esta série.