O Concorde foi o sinonimo de voos comerciais supersônicos por décadas. (Foto: Getty Images)

Este texto pode soar de uma forma bem parcial para os fãs assíduos de alta velocidade, aventuras próximas ao FL 600 e aeronaves comerciais com asas em formato delta. Mesmo com uma centena de modelos de aeronaves e suas respectivas variantes, a partir das informações contidas na primeira frase deste texto já presumimos qual aeronave surgiu em sua mente.

Temos quase certeza que você imaginou que esta aeronave é o Aerospatiale/BAC Concorde, afinal, são poucas aeronaves de transporte de passageiros com estas características.

O BAC/ Aerospatiale Concorde.

O Concorde foi a única aeronave supersônica a voar comercialmente (deixaremos o Tu-144 de lado), onde foi operado pela British Airways e pela Air France. A breve análise deste texto irá avaliar o jato franco-britânico introduzido no final dos anos 1960, a fim de tomar como base para projetarmos o futuro dos jatos supersônico no século XXI.

Com o advento da tecnologia e da informação pulsante, há de se concordar que estar conectado com pessoas do outro lado do globo é extremamente mais fácil nos dias de hoje do que há 30 ou 40 anos atrás. Mesmo assim, a dinamicidade da sociedade aliada à globalização e a necessidade de realizar negócios por toda esfera deste planeta poderia justificar o vácuo deixado pelas aeronaves supersônicas.

A sociedade como um todo sempre necessitou se locomover mais rápido, embora no momento o qual estejamos vivendo, isto venha se mantendo estável. Ainda no século XIX, os navios a vela eram o meio mais rápido de fazer uma volta ao mundo. Com o surgimento da propulsão, os navios, antes a vela, passaram a serem movidos a vapor, logo no início do século XX. Já em meados de 1925, uma volta ao mundo poderia ser feita em até 60 dias. Hoje em dia, com a massificação das aeronaves, companhias aéreas e alianças globais, a volta ao mundo pode se dar em até um dia.

Tupolev Tu-144.

Ao observarmos, pode-se auferir que há alguns anos os tempos de viagens não mostram tendência significativa de redução, conforme os professores Elton Fernandes e Ricardo Pacheco, pesquisadores da COPPE-UFRJ.

Sabemos que as tecnologias evoluíram bastante, viabilizando muitas coisas até então inimagináveis. Uma aeronave supersônica neste período o qual vivemos, poderia ser desenvolvida com uma facilidade extremamente maior à época do Concorde ou do Tupolev 144, por exemplo. Contudo, deve-se considerar, antes de tudo, o aspecto financeiro de planejamento, desenvolvimento e operação em Mach 2.

O quadro abaixo descrimina a comparação de eficiência operacional do Concorde com outras aeronaves. Na primeira parte grifada, encontram-se aeronaves com propulsão Turbofan, como é o caso do Boeing 747. Já a área em verde nos mostra o Rolls-Royce Olympus 593, motor utilizado no Concorde. Ainda, nas demais áreas contidas no gráfico, encontram-se aeronaves não-comerciais, as quais não são o foco deste texto.

Para efeitos de comparação, as aeronaves em voos de longa distância até os anos 2000 consumiam 40-50g/RPK (gramas por passageiros transportados por quilômetros voados), onde as mais eficientes aeronaves consumiam abaixo de 30g/RPK. O Concorde, o icônico supersônico, consumia 313g/RPK. A partir disso, podemos entender muito sobre a questão operacional da aeronave apenas com esta variável, ainda que modelos e variantes mais recentes não estejam inclusas, como o Boeing 787, 737- MAX, Airbus A320neo, Airbus A350, etc.

Os altos custos operacionais justificam o preço que era cobrado aos ilustres clientes que tiveram a oportunidade de voar nesta majestosa aeronave. Tanto os franceses da Air France quanto os britânicos da British Airways sabiam que a operação de uma aeronave como esta seria emaranhado, foi aí que entrou uma bela estratégia de marketing: o Concorde encontrou seu nicho de mercado, vendendo passagens para pessoas dispostas a pagar acima de US$ 8000 por passagem. O tratamento especial aos passageiros que voavam em um assento de classe econômica com serviço de bordo de primeira classe (e sem IFE, é claro), é algo notável e marcou época.

Futuro

Jato supersônico da Boom Aerospace.

O desenvolvimento de uma aeronave supersônica para linhas aéreas comerciais, assim como o Concorde, não foi viável à época de sua introdução tampouco ao decorrer de sua história. Deste modo, um projeto supersônico poderia ser viável nos dias atuais? Qual a necessidade de voarmos mais rápido do que já voamos hoje? Poderíamos passar horas citando uma lista extensa de projetos de aeronaves que atingem velocidades absurdas as quais desafiam a engenharia moderna, como até já mencionamos nesta lista.

Cygnus M3.

As aeronaves que conseguem quebrar a barreira do som dependem de combustíveis fósseis para atingirem esta velocidade, como muitos caças militares. Citamos aqui dois desafios: ou aperfeiçoar o consumo de combustível ao máximo (caminho difícil em aeronaves supersônicas) ou desenvolver outro método de propulsão (caminho extremamente difícil), fator onde devemos também avaliar a questão de infraestrutura aeroportuária além do já complexo fator operacional.

Recentemente o ex-CEO da Air France e atual CEO da IATA, Alexandre de Juniac, afirmou em entrevista que os voos supersônicos só ficarão economicamente viáveis a partir de 2040. Elon Musk, CEO da SpaceX, já demonstrou interesse em desenvolver uma aeronave de alta velocidade conduzida através de baterias elétricas e que possam realizar os procedimentos de pouso e decolagem verticalmente.

O futuro é imprevisível. Devemos sempre respeitar o passado, mas desenvolver alternativas para o futuro. Será mesmo este o futuro do transporte aéreo comercial?

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5 COMENTÁRIOS

  1. Os caminhos são difíceis mas serão todos percorridos e alcançados, porque isto faz parte do progresso evolutivo desta humanidade e não há como ser de outra forma.
    Creio que a maior meta da aviação nesta época é o desenvolvimento de novos meios de propulsão mais eficientes e baratos. Os designs acompanharão esta mudança.
    A maior dificuldade está relacionada ao fato de que o estagio de realização tecnológica que se estabeleceu nas últimas décadas chegou a um limite, e agora é necessário um salto para o novo.
    Tudo será alcançado, e depois superado. A única forma isto não acontecer é se alguns líderes deste planeta resolverem cometer a suprema insanidade de extinguirem a raça humana através uma hecatombe nuclear

  2. Não se sei compensaria, mas assim como os Bugatt e Ferrari, o simples fato da exclusividade fariam aparecer muitos clientes para este mercado.Agora desenvolver um avião desses do zero para não lucra muito, acho que ninguém se aventura.

    • Talvez esse seja o caminho, pequenos jatos executivos supersônicos, os superesportivos dos céus. Eles poderão trazer novas tecnologias das "pistas" para as "ruas".

  3. Sempre quando surge esse assunto eu sempre digo que não acredito em nada disso…
    Voltar com o supersônico civil é uma coisa, criar nova tecnologia é outra.

    Duas coisas sobre isso:
    1- O motivo pelo qual o Concorde saiu (econômico), continua, e na verdade piorou.
    2- Eu não vejo a iniciativa privada construindo novas tecnologias, talvez daqui "500" anos, sou cético quando as empresas privadas, pra mim sempre será o estado.

  4. A NASA bancou por décadas estudos para mitigar o boom sônico. Razões militares no início, agora para estimular investimentos privados em aviação comercial supersônica – como fez com a indústria espacial para lançamentos em órbita terrestre. Indústria de defesa, aerospacial (mesmo o Elon Musk) e energia (nuclear e até a antiga combustão) ainda dependem fundamentalmente do estado como investidor, função do viés estratégico e do valor que nações com aspirações desenvolvimentistas têm, já outras áreas como: farmacêutica, eletrônica, informática, química, etc.. são fundamentalmente suportadas pela iniciativa privada. Isso é normal…

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