funny-stealth-fighter-plane.jpg.pagespeed.ce_.FGo0DM_FpxRecentemente o site russo Sputnik News aprontou mais uma das suas. Conhecido por produzir material de qualidade duvidosa e que carece de bom senso, o portal russo, com base em informações supostamente publicadas pelo jornal chinês People’s Daily, afirmou que os chineses foram capazes de detectar o caça stealth de 5ª Geração, F-22 Raptor.

Antes de o amigo leitor continuar, guarde esta frase: “Para toda Quimera sempre haverá um Belerofonte”.

Mas se o Sputnik tem essa fama de fanfarrão, de jornalismo sensacionalista, e é republicado por sites brasileiros (em que um deles teve até de emitir nota se desculpando pela barrigada), por que me preocupar com isso?

Realmente, o Sputnik com sua linha jornalística irresponsável, pouco importa, e para muitos é motivo de risos, mas no meio disso, surgiu um tema que é sempre recorrente e geralmente usado como argumentos por aqueles que são movidos mais pela ideologia, pelo desdém aos EUA do que pela razão. Para eles, o Raptor não é invisível. E eles estão certos!

Em 1957 a North American Aviation apresentou um modelo baseado na teoria da sustentação por compressão. A Força Aérea dos EUA gostou tanto da proposta que conseguiu fundos para a construção daquele que viria a ser o incrível B-70 Walkyrie, um bombardeiro supersônico capaz de voar a 21.300 m e a mais de 3.000 km/h.

Do outro lado do Atlântico, estrategistas da PVO, responsável pela defesa da União Soviética contra ataques de bombardeiros, o B-70 se tornara um problema sério. Um bombardeiro de 200 t, voando a Mach 3, pode constituir um alvo fácil de detectar, mas não de derrubar. Para isto, é necessário um impacto direto, com a utilização de explosivos químicos, algum pesado projétil cinético ou uma explosão nuclear. As ogivas atômicas tornam menos graves os problemas de orientação, mas implicam um sistema de lançamento mais complexo.

Qual foi a resposta soviética então? Uma enxurrada de projetos e ações, do MiG-25 a complexos sistemas de defesa anti-aérea. O B-70 não foi adiante, sendo cancelado, em parte porque melhores sistemas de orientação foram desenvolvidos para os ICBMs, mas foi o causador de um incrível salto tecnológico na URSS. Da noite para o dia, os soviéticos tinham uma defesa aérea quase impenetrável. Em caso de guerra, os aviões da OTAN teriam de entrar no espaço aéreo mais defendido do mundo.

Qual foi a resposta dos EUA? A tecnologia stealth.

As origens da tecnologia stealth são difíceis de dizer, mas isso pouco importa, mas antes de continuarmos, é preciso entender o que significa ‘tecnologia stealth’. Em linhas gerais significa ‘furtivo’ e/ou ‘algo furtivo’, não é e nunca foi ‘invisível’, como apregoam aqueles movidos por ódio aos EUA.

No mundo da ficção, os fãs de Star Trek sabem que as naves Klingons e Romulânas possuem dispositivos de disfarce, tornando-as invisíveis aos radares da Federação, mas que quando elas vão atirar, precisam sair da camuflagem. A Federação sabe que naves desses impérios estão no setor graças a distorções de energia. Agora voltando para a realidade, é a mesma coisa com os aviões ditos furtivos. Eles não são invisíveis, mas eles são invisíveis quando comparados a forma de detecção quando em outros aviões. Antes do F-117, as ondas de radar eram refletidas pelas palhetas do motor, cobertura do cockpit, cantos retos do assento do piloto e por aí vai…ou seja, permitiam ao operador de radar uma clara visão e o mais importante e foco deste texto, a solução de tiro.

A Força Aérea dos EUA possuem hoje o que pode ser considerado a principal capacidade stealth do mundo, com seus caças F-22 Raptor e bombardeiros B-2 Spirit. (Foto: Master Sgt. Kevin J. Gruenwald / U.S. Air Force)
A Força Aérea dos EUA possuem hoje o que pode ser considerado a principal capacidade stealth do mundo, com seus caças F-22 Raptor e bombardeiros B-2 Spirit. (Foto: Master Sgt. Kevin J. Gruenwald / U.S. Air Force)

A solução de tiro é o ‘X’ da questão, é a perfeita integração entre os sistemas. Quando a USAF dava sinais de que colocaria o B-70 em produção, a solução de tiro soviética foi o MiG-25, pois seus sistemas de radar podiam detectar o Walkyrie, existiam mísseis capazes de chegar na altitude do bombardeiro mas eles não tinham os algoritmos para fazer o sistema funcionar. O algoritmo acabou por ser um gigantesco avião capaz de Mach 3!

É isso que os críticos precisam entender. Os operadores de radar sabem que tem algo lá fora, mas devido às características stealths, a solução de tiro fica impossibilitada e nesse meio tempo o alvo está se movendo, até o momento em que ele fica visível, mas nesse momento, ele está atirando.

Em 1999, os operadores de radar sérvios conseguiram acompanhar um alvo justamente graças as essas ‘distorções’ de energia. Para alguns, o abate do F-117 foi um puro golpe de sorte. Para os anti-americanos, foi a prova viva da farsa da tecnologia stealth. Para aqueles que tem bom senso e entendem minimamente do universo da aviação militar, aquilo foi uma grotesca falha dos estrategistas militares. Ao não destruírem os radares, permitiu aos sérvios uma livre forma de vasculhar os céus. Os operadores localizaram uma distorção, pesquisaram na Barsa e descobriram que Pardal não voa a 900 km/h.

F-117Por fim, é preciso lembrar que por ocasião do recente envio de 4 unidades do F-22 à Coreia do Sul, de fato houve o sobrevoo dessas aeronaves sobre a região onde supostamente houve a detecção por parte dos chineses. Não é demais lembrar, entretanto, que no voo de traslado dos caças, eles estavam equipados com tanques externos, o que sabidamente compromete a furtividade da aeronave.

Concluindo, não existe avião invisível. O que falta é solução de tiro e quando esta vier para os aviões de 5ª Geração, uma nova geração stealth virá e Belerofonte seguirá lutando com sua Quimera…

– Giordani –


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55 COMENTÁRIOS

  1. Bacana o artigo, Giordani.

    Apenas acrescentando…

    A grande "sensação" são os radares que operam em UHF e VHF, normalmente abaixo de 2GHz… Ocorre que as características dessas ondas ( ondas métricas, muito longas ) tornam os radares bastante imprecisos; logo incapazes de proporcionar uma solução de tiro… Para a solução de tiro, existe a necessidade de ondas curtas, operando em bandas que normalmente vão para além dos 5GHz, muito longe das frequências nas quais o stealth "ressona" melhor ( que é abaixo de 1 GHz )… E esse é o grande dilema… É até possível saber que algo está lá, mas não é possível fazer um "look" do alvo…

    Ampliar ao máximo as virtudes da guerra centrada em redes tem sido o caminho escolhido para lidar com a ameaça stealth, aplicando ao máximo as capacidades de inteligência… Radares de todos os tipos possíveis varrendo o espaço aéreo, satélites monitorando as bases inimigas, forças não convencionais em solo adversário, e outros meios ELINT/SIGINT; tudo coordenado e transmitindo informações em tempo real para um centro de comando e controle, onde a informação é "mastigada" de modo a distinguir as intenções do oponente. O movimento constante de forças no solo, camuflagem eletrônica e convencional também são medidas para dificultar localização dos reais objetivos e facilitar a criação de algum ardil… E ainda, a ciência de que o adversário que emprega uma aeronave stealth certamente estará preparado para jogar o mesmo jogo…

    Atualmente, grandes esperanças para aquisição de alvo estão sendo depositadas em radares de banda S, que vão abaixo dos 4 GHz até 2 GHz e ondas centimétricas, podendo teoricamente localizar com alguma precisão, se dotados de potencia adequada. Os russos também vem apostando na banda SHF ( chega até 3 GHz em ondas centimétricas ) para direção de tiro…

    • Isso me faz lembrar de um causo da Guerra Fria. Os soviéticos estavam montando (ou montaram, não sei se deu tempo) um radar passivo de mais de 2 km de comprimento, na região dos Urais. Imagine você defender um radar deste tamanho!

      E sobre radares, Taiwan construiu um que irritou profundamente Pequim. Pelas distâncias e pela tecnologia (made in USA) envolvidos, decolou na China, Taipé sabe!

      • Giordani,

        Creio que se refere aos radares Over The Horizon ( OTH ). Operam na banda HF com ondas de cumprimento que variam para mais de dez metros… Esses aí costumam ter instalações do tamanho de campos de futebol e servem pra monitorar o espaço aéreo ou o mar por até milhares de quilômetros. Os maiores tem emissores e receptores que distam centenas de quilômetros entre si… Mas precisão que é bom, nheca… A "margem de erro" da resolução fica em torno dos 30 a 40 km pra distância e uns 3 km lateralmente…

  2. E alguém já parou para pensar que se realmente os chineses detectaram as aeronaves, bem na sua auto denominada ADIZ, porque eles não enviaram um par de qualquer coisa? Imagina, sair na imprensa mundial, um jacto chines escoltando o todo poderoso F-22! Que publicidade! Mas não, preferiram apenas rastrear? Solução de tiro…

    Mas vamos agradecer ao sputnik por essas sputinicies, pois sem elas, não poderíamos debater tal assunto tão fascinante.

    • Foi a mesma coisa que eu disse em um comentário anterior…
      "Se o detectaram, por nunca o interceptaram?"
      A China já disse outras vezes que detectou o F-22, mas curiosamente, nunca o interceptam… Porque?! Ou é medo, ou não o detectaram…

      Imagina a propaganda? E as fotos então? Imagina a China sendo o primeiro país a interceptar caça mais poderoso do planeta?

      • Pois é…. Na Europa, toda as vezes que a OTAN detecta aeronaves russas, intercepta e mostra fotos. A Rússia também faz o mesmo….
        Já a China conta uma estória bonita. Isso aqui na Bahia nós chamamos de “gueba”.

    • Amigos,

      É até viável localizar um Raptor a distância ( digamos a uns 100 – 130 km ) utilizando um radar VHF com uns 300 kW de potência. Novos tipos, que aplicam a tecnologia AESA, aparentemente tem uma resolução interessante que permite localizar alvos com alguma precisão ( embora seja cético quanto a fazer direção de tiro )… Poderiam até ser localizados mais longe ainda por radares HF, mas aí a resolução invariavelmente é pobre demais pra dizer qualquer coisa além de que tem algum troço no ar… Aliás, se alguém "achou" um Raptor, deve ter sido justamente um tipo HF… E se realmente acharam, fico até em dúvida se os chineses foram realmente capazes de distinguir o Raptor de alguma outra aeronave… Só se desenvolveram algum algoritmo específico que permita isolar um Raptor ( mas pra isso, teriam que ter acesso a dados do mesmo ).

      Enfim… Localizar, eles até podem ter sido localizados. Mas caso tenha sido, provavelmente o foi em uma situação em que a interceptação seria impossível; longe demais pro interceptor chegar… E é provável que até tenham visto e nem se dado conta do que era até cruzar os dados com os do tráfego aéreo…

  3. Eu li a matéria da Sputnik e não considero uma falha grotesca não. Na verdade, tive a impressão que eles reproduziram a informação com a intensão de comunicar que os chineses afirmam terem detectado a aeronave, e isso foi reconhecido como possível. Já li algumas matérias sensacionalista deles, mas no geral, creio ser uma fonte útil, é só saber filtrar.

  4. Já existem soluções em andamento para melhorar a solução de tiro, com a melhora (compressão) dos sinais radares VHF e UHF. Em verdade, pelo que cita este artigo, http://nationalinterest.org/blog/the-buzz/reveale… , a própria tecnologia AESA, aliado a cabeças de busca ativas, facilita o engajamento dos vetores stealth.

  5. Então vamos lá.
    a) Os F22 Raptor e os F35 Lightning II são aeronaves furtivas;
    b) os seus oponentes no combate simulados não são aeronaves furtivas;
    c) Supõe-se que os aviões que não querem e não podem ser detectados não emitem sinais externos;
    d) Supõe-se que os seus adversários não-furtivos emitem muitos sinais externos, passivos e ativos;
    e) O cenário e as variáveis de batalha são: rastro infravermelhos, sons, energia eletromagnética e imagens óticas.
    Considerando que os aviões furtivos possuem como proteção / defesa:
    Sistemas de envelopes dissimuladores de presença baseados em:
    a) Formas geométricas complexas que minimizam sua reflexão por ondas de radar de alta frequencia, mais eficientemente em determinados espectros eletromagnéticos;
    b) Tintas absorventes e reflexivas de ondas de rádio;
    c) Revestimento defrator de ondas eletromagnéticas;
    d) Minimização de geradores de campos elétricos e magnéticos, tais como fiação metálica e bobinas de campo.
    Considerando que tais aeronaves minimizam as suas emissões magnéticas ativas e passivas para não serem facilmente detectadas por radares amigos e inimigos elas possuem :
    a) Câmaras oticas de alta resolução;
    b) Sensores de calor de alta sensibilidade passivos;
    c) Radares AESA que possuem as habilidades para, ocultarem as suas emissões através de:
    c1) Rajadas curtas de ondas criptografadas e digitalizadas;
    c2) Frequencia de ondas aleatoriamente escolhidas e rapidamente vetorizadas em milhares de antenas;
    c3) Varredura das ondas de radar em feixes direcionados e muito estreitos;
    c4) Embaralhamento das ondas agressoras através de jamming.
    Considerando tudo isto, o sistema de identificação amigo-inimigo deve ser minimizado e criptogafado; o sistema de navegação deve ser inercial e por referência guiado por rotas previamente e rigidamente determinadas, pois não pode contar além do GPS com eventuais desencontros com aeronaves outrem amigas acidentalmente.
    Considerando realmente uma esquadrilha de aeronaves stealth voando de forma coordenada precisam esconder-se de agressores portanto fazem um voo totalmente cego e guiado orientado pelos planos de voo muito rígidos, ou por aeronaves de alerta de voo aéreo e por eventuais satélites militares.
    Estamos diante do inferno dos stealth. Quando em voo, os stealth não podem ser vistos pelos controladores de voo civis e nem os controladores de voo militares, o s stealth não podem ser detectados pelos outros stealth, e obviamente, por outras aeronaves stealth, nenhuma aeronave stealth pode saber exatamente a sua posição no momento sem a ajuda do link de dados criptografado cujo rastreamento depende dos planos de voo, das aeronaves AWACS e da confiança dos pilotos stealth em seus capacetes de visão 3D de quatrocentos mil dólares que vai projetando virtualmente o cenário de combate e de navegação segura.
    O stealth faz um voo cego coreografado e coordenado pela rede de dados externa ao aparelho em voo.
    Supondo que o inimigo não pode jamear a rede de link de dados, supondo que os agressores são completamente passivos, supondo que os agressores não podem ilaquear os mísseis dos stealth, supondo que a rede alerta AWACS e de satélites militares possam operar sem serem ameaçados então a probabilidade de sucesso dos stealth depende inteiramente de fatores que estão além das habilidades do piloto e dos aviões stealth

  6. Amigo, precisa mesmo é de um estatístico, e não de um analista entusiasmado pela tecnologia stealth.
    Para uma central de radar solução de tiro significa uma função probabilidade representada por uma superfície esférica dentro da qual se situa o alvo a ser abatido, tudo o que o artilheiro tem que fazer é ajustar as suas alternativas de probabilidade de sucesso.
    A questão da faixa de frequencia do radar sempre tem sido citada mas os não engenheiros e não físicos não entendem que a resolução do radar é uma função de comprimento de onda que está relacionada à frequencia v=Lf, então para uma faixa de onda VHF a solução de tiro fica acomodada aos objetos que tenham um quarto do cumprimento de onda VHF objetos que tenham uma superfície de reflexão na faixa dos 1,5 metros, o que é muito para uma aeronave furtiva. O que isto quer dizer para a solução de tiro?
    Significa que um alvo com 0,1m(2) seria como acertar com uma bola de golf um buraco que está em uma área de 10 metros quadrados.
    Esta era a mesma solução de tiro dos primeiros SAM soviéticos no começo da guerra doVIetnam, então eramprecisos 70 SAM para cada aeronave americana abatida, mas esta solução melhorou para no fim da guerra do Vietnã que 38 SAM abatiam uma aeronave e isso foi suficiente para que 873 fossem abatidas um terço delas pelos SAM.
    O que ocorreu com o F117 ele era um alvo de 1m2 dentro de uma solução de tiro em uma esfera de 300 m(3) assim a probabilidade de ser derrubado era de 1/300 e mesmo assim foi derrubado.

  7. Texto perfeito, mas explica aí porque as aeronaves furtivas precisam de radar AESA com a habilidade de ilaqueamento jamming do radar inimigo? É apenas por diletantismo?

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