Com o advento da 5ª Geração de caças e o combate BVR, o “hiato” tecnológico entre os aviões de 4.ª e 5.ª gerações aumentou enormemente, ao ponto que muitas forças aéreas se tornaram forças de transporte, pois com a moderna guerra aérea perderam a capacidade de combater. Haverá um Futuro para as Forças Aéreas que não investirem em tecnologia?

No ultimo dia 16 de março, a FAU (Força Aérea Uruguaia) desativou seus bimotores turboélices IA-58 Pucará. Em setembro de 2016, a FAM (Força Aérea Mexicana) aposentou seus F-5E. Não fosse o fato desses aviões serem “famosos” e tais eventos teriam passado desapercebidos, pois em termos de armas militares atuais, esses aviões não servem para nada. São máquinas velhas, resquícios de um tempo aonde a diferença entre as forças aéreas era medida em números, bem ao contrário de hoje, aonde um moderno avião de combate, como por exemplo o F-15E ou Rafale, equivale por uma dúzia de caças F-5 produzidos em 1974.

Entre a Primeira e a Segunda geração de caças, o ‘gap’ tecnológico entra elas não era tão imenso. A Segunda geração trazia melhorias sobre a Primeira, mas nem sempre essas melhorias eram assim tão boas. Exemplo disso foi o F-104. Após a Guerra da Coreia, os projetistas ouviram dos pilotos que eles queriam mais velocidade e rapidez ascensional. O que receberam? Um foguete com asas e só. O Starfighter manobrava menos que o F-86!

A ultima geração de aviões à pistão da USAF encontra a primeira geração de aviões à jato.

As Forças Aéreas encontraram o seu ponto de equilíbrio na 3.ª Geração. Na década de 1960, o A-37 Dragonfly era operado tanto pela poderosa Força Aérea dos EUA quanto pela Força Aérea Uruguaia e pela Força Aérea Boliviana. O avião, em que pese ser bom ou não, o A-37 da USAF estava em pé de igualdade contra o A-37 da FAU ou da FABol, o que os diferenciava era como eram voados.

A guerra indo-paquistanesa, os conflitos da África do Sul com seus vizinhos, a Guerra dos Seis Dias, Vietnã, Yom Kippur e Falklands, foram todas travadas entre Forças Aéreas em pé de igualdade, tendo um ou outro detalhe, como a capacidade de ter um AAM ou um treinamento melhor, que as diferenciava no campo de batalha, pois em suma, as máquinas se equivaliam.

Quando a Quarta Geração chegou, marcou o início do ‘gap’ tecnológico entre as forças aéreas. De repente, ter e manter um F-15 ou F-14 só era possível para quem pudesse pagar. Os britânicos elogiaram e testaram o F-15, no entanto não tiveram orçamento para adquirir e manter os aviões. Ou compravam o modelo americano ou desistiam do Panavia Tornado. E o resultado, já conhecemos.

Conforme a tecnologia foi sendo refinada – e custando cada vez mais – o gap foi aumentando. Com a 4ª Geração e, suas constantes atualizações, um caça poderia fazer o trabalho que vários teriam de fazer. Enquanto um F-15 subia aos céus armado com 4 mísseis AIM-9 Sidewinder e 4 mísseis AIM-7 Sparrow e um radar capaz de localizar os oponentes a centenas de quilômetros, forças aéreas dotadas de F-5E teriam que colocar quantos no ar para contrapor um Eagle?

Foi o que aconteceu em 1991 durante a Guerra do Golfo. A Força Aérea Iraquiana era formidável, mas incapaz de lidar com o que havia de melhor da Quarta Geração (armas, sensores e táticas). Enquanto isso, do outro lado do mundo, a FAU continuava com seus Pucarás e A-37.

Durante a CRUZEX I (2002) a Força Aérea Brasileira tomou um choque de realidade. Ao combater contra os Mirage 2000 da França, ficou evidente a incapacidade da FAB de lutar dentro da moderna guerra aérea. O resultado foi benéfico para a Força, que mesmo sem dinheiro, se mexeu e conseguiu, num ato de desespero, modernizar o F-5E, elevando-o para o padrão F-5M, dando ao velho Tigre a capacidade de operar dentro da 4ª Geração.

Retrofiar velharias se tornou uma saída para as forças aéreas, como a Brasileira, sem dinheiro para investir em novos e modernos aviões. A tecnologia desenvolvida para a quarta geração permitiu que velharias como o F-5 ou o Kfir fossem modernizados. Hoje é possível dar a um A-37 a capacidade BVR, mas quem em sã consciência iria para guerra com um Dragonfly???

Então chegou a Quinta Geração, com sensores saídos direto da ficção científica, com a tecnologia stealth e com armas capazes de acertarem um alvo entrando pela janela da casa! O hiato entre a 4ª e 5ª geração não pode ser diminuído através de um pacote de atualização. É impossível elevar um F-5, um F/A-18E ou um Rafale a Quinta Geração. Para ter a Quinta Geração é preciso pagar, e muito!

Hoje um Raptor pode abater um inimigo a centenas de km. Como um pequeno país como o Uruguai vai poder se igualar? Um míssil lançado por um F-22 pode atravessar o Uruguai em questão de minutos. A 5ª Geração não é só o avião. Adquirir um F-35 não basta para adentrar o reino da 5ª Geração. O F-22 e o F-35 são sistemas de armas, complexos, que vão desde a estrutura da pista da base até o radar de vigilância. Não adianta nada comprar o melhor vetor e defender as bases aéreas com mísseis terra-ar Igla, como no caso da FAB.

O Uruguai procura um novo avião de caça, assim como a Argentina e outras forças aéreas inexpressivas. Quais seriam estes? Um velho e cansado F-5? Um subsônico AMX com a tecnologia de 1990 retirado diretamente dos esquadrões da FAB? Um F-16 com sua décima quinta MLU? A pergunta que essas forças aéreas precisam fazer é o que elas querem? Aviões de verdade, capazes de dissuadir uma aventura militar de outra nação ou apenas dissuadir aviões a serviço do tráfico de drogas?

Um exemplo concreto de dissuasão baseada na tecnologia está bem ao nosso lado. Apenas 4 míseros Typhoon estacionados nas Falklands são capazes de manter a Força Aérea Argentina longe das ilhas. Mas seriam só 4 se a FAA estivesse dotada com aviões da mesma geração do Typhoon?

Qualquer que seja a resposta, sem investimento sério, não haverá uma força aérea, mas sim, uma guarda aérea. Quem, de hoje para o Futuro, não tiver a capacidade stealth e a capacidade de combate BVR, não existirá como Força Aérea. O gap é imenso e não há espaço para quem quer voar só em desfile militar.


Giordani

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35 COMENTÁRIOS

  1. Penso que o que vai "matar" as forças aéreas pequenas é a própria evolução tecnológica somado o inevitável envelhecimento dos tipos hoje em ação, além dos custos crescentes de uma força do ar, que praticamente irá impor menos pessoal e maiores gastos com equipamento. Os grandes produtores, já fixados no mercado, irão ditar as tendências, parando gradualmente o suporte aos tipos antigos e impondo ao mercado seus produtos ultra avançados ( como, aliás, já vemos isso hoje… ).

    Haverá quem diga que ainda será possível "recauchutar" o que é antigo. Contudo, as aeronaves que estão saindo hoje ( e que serão as antigas de amanhã ), já são absurdamente complexas. Antes, a gente podia pegar um caça francês, botar um motor americano, mísseis israelenses, um canhão suíço e pronto. Era tudo elétrico e hidráulico. Hoje, já não é mais possível isso. Não se faz qualquer modificação de monta sem o fabricante…

    Particularmente, acredito que para os "pobres" o futuro é não ter uma força aérea propriamente dita. Se houverem aeronaves relacionadas ao combate para estes, serão muito provavelmente drones de observação/vigilância, o que, tudo indica, não será algo essencialmente caro… Até poderemos falar em aeronaves de combate LIFT, mas nada além disso…

    E mesmo as aeronaves LIFT de hoje são caras, se pensarmos bem… E o desempenho dessas aeronaves é aquém do necessário para ser a espinha dorsal de uma força aérea. Podem ser interessantes em cenários assimétricos, mas nunca poderão competir com os 'grandes' ( nem hoje e nem no futuro ). Aliás, é provável que estejamos vendo o "canto do cisne" dessas aeronaves, que cederão lugar a drones diversos ( o que limitará ainda mais as opções dos pequenos ).

    Já para os intermediários ( em vários níveis ), haverá a possibilidade de drones de combate, capazes de ataques com armas inteligentes, que irão variar desde tipos como o 'Predator' até desenvolvimentos de armas que hoje estão apenas em teste ( como o 'nEUROn' ). Para os mais aplicados, poderão haver caças, mas em número muito reduzido.

    Apenas os grandes deterão os caças e os bombardeiros de grande porte e em quantidade que valha, além de outras armas estratégias autônomas.

    A tecnologia embarcada nas aeronaves do futuro as tornarão verdadeiros segredos de Estado. A exportação de modelos, portanto, será algo muito mais restrito. Já vemos isso hoje, com o F-22.

  2. Texto muito bom. Obrigado!

    Atualmente somente EEUU, Rússia, França, China e Alemanha teriam capacidade de desenvolver aviões deste nivel, e ainda assim os primeiros tendo enorme vantagem técnica sobre os demais. E esta será a realidade por muito tempo.

  3. A questão do armamento aéreo é apenas uma dentre muitas variáveis. O Iraque de Saddan Hussein foi derrotado apenas porque invadiu o Kuwait, se tivesse ficado dentro de suas fronteiras estaria seguro e sua força aérea seria mais que suficiente.

    A definição dos efetivos de defesa é o resultado das análise de ameaças e por vezes das ambições territoriais históricas. A força aérea de uma país pacífico com poucas ameaças como o Brasil deveria ser relativamente bem pequena, podendo focar na manutenção e melhorias de suas capacidades com o foco no longo prazo. Isso significa evitar dispender muito nos dias de hoje, mas preparar um infraestrutura (aeroportos, controle de tráfego aéreo, gente treinada) para dar um salto quando as condições econômicas permitirem.

  4. Ótimo texto, Giordani !! Corroboro com o teu ponto de vista. Para desenvolver hoje uma verdadeira Força Aérea, não dá mais para comprar aviões com vale-transporte e ticket refeição…

    Nóóósssinhora, então quer dizer que as Falklands possuem atualmente a melhor Força Aérea da América do Sul??

    Como diria o Guri de Uruguaiana: Mas que barbaridade, aonde é que a gente chegou??

    • Digo mais….4 Typhoon cobrindo as falklands são mais do que 36 F22 defendendo o Brasil.

    • Não, uma Força Aérea não se faz apenas com Caças. Radares, AWACs, Misseis, sistemas, logística, baterias antiaéreas, vants etc. E nesse ponto a Venezuela e o Chile estão bem acima dos 4 typhoon nas Falklands.

  5. Cadê uma boa alma pra selar uma unidade mundial, e deixar as briguinhas de lado? Fala sério…daqui a pouco tem invasão Alien e inteligência artificial pra combatermos, e não será possível combate-los com a atual conjectura militar mundial. Não será como nos filmes, eles não atacarão apenas NY…

    • Talvez quando os Aliens vierem nos atacar, todas as nações se juntem.
      Talvez.
      Eu apostaria que alguns paises ofereceriam territórios alheios em troca de serem poupados.

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