Muitos analistas, especialmente os de facebook, afirmam que o HAL Tejas é uma bagunça, um desperdício de verba pública de um país ‘pobre’.

E eles, de certa forma, não estão errados. O Tejas é um programa desenvolvido em meados da década de 1980, com o protótipo voando somente em 2001! Na ponta do lápis  é um programa com mais de 30 anos! Muitos atribuem os percalços do programa a interferência política ao longo dos anos, onde muitos gestores já foram presos e condenados por corrupção.

O Tejas (Esplendor em hindu) não é o primeiro avião que a HAL (Hindustan Aeronautics Limited) projeta. Na década de 1960 o governo indiano contratou Kurt Tank, projetista do lendário caça alemão da Segunda Guerra Mundial, o Focke-Wulf Fw 190. Tank, então recém-chegado da Argentina (onde estava trabalhando no desenvolvimento do Pulqui II), projetou e deu aos indianos o HAL HF-24 Marut (Espírito do Vento). Note que o parque industrial indiano apenas cumpriu ordens de um elemento estrangeiro. E o Marut para se tornar realidade dependeu absurdamente da tecnologia britânica. Fora o desenho da fuselagem, o Marut era essencialmente um britânico, a começar pelo motor Bristol Siddeley Orpheus Mk 703.

Voltando ao Esplendor, tem um “detalhe” significativo que os especialistas – e agora me refiro aos de facebook – parecem não se ater: o Tejas é um programa que visa dar à Índia a capacidade de projetar, construir e operar um caça de fabricação 100% indiana. Ao contrário do Marut, o programa Tejas é para ser 100% indiano até no menor parafuso. Acontece que tecnologia não se transfere, se copia. E se não é possível copiar, têm que criar.

As nações produtoras de caças não transferem tecnologia, elas vendem. Mas vendem com “amarras”. E quando realmente transferem, ao custo de um Titanic recheado de ouro, é tecnologia ultrapassada. Note que os indianos no passado fabricavam caças britânicos sob licença. Depois passaram para o soviético MiG-21 e atualmente o russo Su-30. E mesmo assim eles ainda não conseguiram desenvolver sua capacidade de produzir um motor nacional nem aviônica de ponta.

Correntes internas de pensamento indiano sugerem que o programa Tejas deveria seguir o exemplo sueco, onde apenas a propriedade intelectual do design é nacional, mas o motor e demais sistemas são estrangeiros.

Outra corrente usa o exemplo israelense, adquirindo caças estrangeiros mas recheando o aparelho com tecnologia e armas nacionais. Não é uma ideia absurda, está aí Israel para provar, mas no caso do Tejas, mataria de vez o programa e politicamente seria muito difícil de explicar aos pobres da nação que os bilhões de dólares injetados no programa resultaram em nada. Mas de certa forma a Índia já busca faz essa opção, projetando armas e aviônicos, como o Astra e o programa DARIN III.

A solução para o Tejas a indústria francesa e britânica já deram, mas a um custo que corrobora com o que escrevi acima.

Só um inocente acredita que Tecnologia se transfere. Tecnologia ou se copia ou se cria.

O Tejas pode não ser um sucesso. Talvez nunca chegue nas 200 unidades planejadas. Os atuais comandantes militares indianos, como os da Marinha, torcem o nariz para o pequeno jato, mas as futuras gerações de técnicos, engenheiros, pilotos e – especialmente – o parque industrial indiano vão agradecer pelos frutos que colherão que esse ‘pequeno indiano’ plantou.


Giordani

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16 COMENTÁRIOS

  1. O turbofan Kaveri já usava peças da Snecma antes do contrato de parceria de 2006. Daí passavam a adotar um núcleo da Snecma. Entre idas e vindas, centenas de milhões de dólares depois, não há qualquer previsão sobre ele.

  2. Não condiz com os fatos.. O projeto foi fortemente suportado por alemães e franceses na concepção, e quase toda aviônica é de origem externa, assim como motor e outros sistemas mecânicos.
    Tivesse sido pensado mais simples e com entrada em serviço até 2000, não seria um erro de todo. Hoje, é um absurdo manter o programa.

  3. Se olhar o projeto levando em conta o desempenho do caça foi um erro, mas se olhar para o fato deles conseguirem desenvolver um caça supersônico mesmo que não seja um caça muito bom valeu a pena, a tecnologia e os conhecimentos desenvolvidos não tem preço!

  4. Primeiro este tipo de projeto implica:
    a) ter uma base de conhecimento aeronáutica civil forte;
    b) investir numa estrutura de ensino de engenheiros e técnicos;
    c) Pagar galeões de OURO para um processo de transferência de tecnologia;
    d) com o nível atingido, 100% ou não, a partir daí tens que criar sua tecnologia própria;
    e) dependendo do seu grau de sucesso no desenvolvimento da sua tecnologia , seu projeto seguinte demandará mais ou menos participação estrangeira.

    O BRASIL tinha todos os parâmetros para um projeto nacional do tipo do Tejas…

    Tinha Embraer, tinha ITA e CTA e tinha até uma turbina aeronáutica nacional projetada ainda incipiente …
    Teve até um governo que toparia este tipo de projeto…
    Mas não tinha uma FAB com ambição de ser grande por si, apenas a vontade de ser a melhor pequena Força Aérea que você não ouviu falar e querendo manter-se alinhada com a ambição de ser apenas uma força auxiliar Ocidental…

    Este bonde já passou, sem Embraer, com esse governo e a tendência é da tecnologia que possuímos tende a se esvair sem uso prático…

    Se o Tejas AINDA não é o que devia, ou se dobra a aposta ou desiste… Sem mais ou menos…

    • "esse tipo de projeto implica"

      – Onde essas suas regras foram aplicadas e o país se tornou 100 porcento independente?

      "tecnologia que possuímos tende a se esvair sem uso prático"

      – Qual tecnologia que possuímos vai se esvair?

  5. Ele não foi um erro, só foi "mal concebido", cheio de atrasos e limitações, os indianos tentaram dar o passo maior que as pernas, então fizeram um Frankstein..
    Há alguns dias atrás um alto oficial indiano disse "vcs acha que a Índia produzirá um caça de 5°G" ?

    Antes que me esqueça.. Logo teremos "notícias" novas do Tejas por aí, estas notícias podem surgir da Malásia…

  6. A verdade é que desenvolver um caça não é rápido, não é barato e não é fácil. Uma aeronave de combate moderna é um enorme sistema de sistemas. Vale a pena? Sem dúvida, mas vai sempre ser algo extremamente dependente do Estado e, como governos vão e vem, politicamente é difícil proporcionar as condições favoráveis para um empreendimento deste porte.
    A Índia tem algo "positivo" que é a presença de um inimigo mortal na fronteira, mas mesmo assim, foram incapazes de potencializar essa motivação em um projeto eficiente.
    O Gripen é um bom projeto e Israel é um bom modelo. São situações distintas que, no meu entender, devem orientar a FAB na modernização de nossa frota.

  7. Não considero um erro !
    Quer ter acesso irrestrito, mas irrestrito mesmo a toda a tecnologia de um avião de combate ?
    Simples: FVM ! ( Faça você mesmo ).
    E criar algo do zero, num país com as características da Índia é mesmo muito difícil.
    Quanto à participação estrangeira, é um detalhe para discussões, porém, ao encarar o projeto e desenvolvê-lo ao longo do tempo ( e que tempo heim ? ) é um esforço que merece ser respeitado, claro que devem ter ocorrido erros, falhas, desvio$$$ etc…
    Afinal, a expertisse que os indianos adquiriram nesse projeto poderá ser muito útil no futuro, e quanto ao avião ser bem básico e simples foi uma aposta acertada, só trabalhar e desenvolver conceitos já provados mundo afora.

  8. Sinceramente, o projeto se tivesse cumprido o cronograma inicial, já estaria finalizando outro novo projeto de desenvolvimento, mais os desvios e a malandragem de alemães e franceses que só foram enrolando os engenheiros indianos, deu no que deu.