Quando a guerra Irã-Iraque começou em setembro de 1980, os F-14A lutaram para defender o país; no entanto, com o prolongamento do conflito e as sanções militares impostas pelos EUA, fizeram com que os Tomcats sofressem com a escassez de mísseis operacionais, especialmente o AIM-54 Phoenix.

Em 1986, durante a guerra Irã-Iraque (que durou até 1988), os F-14A Tomcats chegaram a um ponto onde a escassez de mísseis ar-ar estava no seu limite. A IRIAF (Islamic Republic of Iran Air Force) há tempos vinha colocando os Tomcats mais como um posto aéreo avançado, vetorando outros caças – como o pequeno F-5 e o poderoso F-4 -, do que agindo como um verdadeiro interceptador.

Embora o Tomcat tenha chego ao Irã em 1976, juntamente com um bom carregamento de mísseis de longo alcance AIM-54 Phoenix, os demais mísseis ar-ar destinados ao F-14, como o AIM-9L Sidewinder de curto alcance e o AIM-7F Sparrow de médio alcance, não chegaram. Quando estourou a Revolução Iraniana no início de 1979, o novo governo cancelou todos os contratos militares com os EUA, deixando os F-14 armados apenas com o míssil Phoenix e o canhão M61 Vulcan de 20 mm.

Embora a IRIAF ainda tivesse quantidades substanciais de AIM-54, a falta de líquido de arrefecimento e a deterioração das baterias do míssil deixaram praticamente os Persa Cats desarmados.

Uma solução paliativa foi armar o F-14 com os mísseis AIM-7E Sparrow e AIM-9G Sidewinder do McDonnell Douglas F-4 Phantom, mas esses mísseis não eram 100% compatíveis com o radar AWG-9 e ofereciam uma baixa taxa de precisão.

A IRIAF precisava de um novo míssil ar-ar. Acessível e confiável.

O governo revolucionário criou um departamento chamado Escritório do Movimento de Autossuficiência e, como o nome diz, deveria buscar a independência tecnológica para o país.

Voltar-se para a URSS naquele momento, nos primeiros anos da Revolução não era algo tão simples, uma vez que Teerã e Moscou nunca tiveram uma boa relação. Os aiatolás não confiavam no Kremlin e o Kremlin não confiava nos aiatolás.

Uma das propostas do “Escritório” foi adaptar misses terra-ar, como o MIM-23 Hawk, ao F-14, como uma forma de substituir o Phoenix. A ideia foi fortemente contestada pela liderança da IRIAF. No entanto, o Escritório tinha força política e o plano foi apresentado ao Vice-Comandante-Chefe da época, Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, que aprovou o plano.

Um F-14 e cinco mísseis Hawk foram usados para os testes. A equipe, composta por pessoal da IRIAF, recebeu ordens de manter o projeto em segredo absoluto e mostrar os resultados em seis meses!

Acontece que míssil escolhido – MIM-23 Hawk – era mais longo, mais largo e mais pesado que o Phoenix, o que de imediato obrigou que apenas os cabides subalares sob as luvas das asas fossem capazes de serem usados. Os cabides (1 e 8) tiveram de ser reforçados.

Um voo foi realizado, onde a integração cabide-míssil foi verificada, executando-se decolagem, manobrabilidade da aeronave, estabilidade, aterrissagem e todos os outros testes necessários.

O próximo passo foi o teste de liberação do míssil em segurança antes do acionamento do motor-foguete. Temia-se que o propelente danifica-se o Tomcat.

Os testes de solo foram realizados com o Tomcat suspenso por um guindaste. A bancada era um grande improviso, uma vez que os iranianos não tinham equipamentos de ponta para validação. Uma simples vala foi escavada e câmeras registraram o “lançamento” de um Hawk inerte. O tempo calculado entre a liberação e o acionamento do motor foi de 5 milissegundos.

Após o teste inicial, o passo mais difícil: a compatibilidade do radar AWG-9 com o míssil Hawk.

A estação de radar do MIM-23 recebe todas as informações do alvo e as transmite para o sistema de guia do míssil antes de disparar do lançador terrestre; no entanto, se disparado do F-14, exigiria uma constante transmissão de dados do AWG-9.

O MIM-23 precisava entender os dados do AWG-9. Mas a equipe iraniana obteve sucesso, criando um emoludador de dados, traduzindo os sinais. Agora, o F-14 poderia identificar o míssil Hawk e ele poderia entender todos os dados das correções de voo e trajetória que estavam sendo alimentadas a partir da aeronave.

Uma drone BQM-34 foi selecionado como alvo para o primeiro teste real. Voando a 6.700 metros, o radar AWG-9 do F-14A localizou o drone-alvo voando a 7.600 e a 45 km de distância. Depois que o alvo foi travado, o piloto do Persa Cat disparou seu míssil que atingiu o alvo.

No entanto, após esses testes bem-sucedidos, houve ceticismo entre os oficiais do alto escalão da Defesa Aérea, que sugeriram testes em um cenário mais difícil, em combate real.

A equipe Sedjil (nome do projeto) entraram em alerta real. No terceiro dia, o Major Ali Mazandarani e o Tenente Ansarin decolaram para interceptar caças iraquianos que chegavam em direção à ilha Khark.

A uma distância de 40 km, Ali Mazandarani disparou seu primeiro míssil Hawk. Por ironia, o míssil armado no F-14 era um dos cinco destinados aos testes. O míssil era desprovido de propelente e ogiva. Ao ser liberado, o míssil caiu inerte em direção ao mar.

Os pilotos, incrédulos, viram aquilo, mas logo readquiriram o alvo, iluminaram-no e dispararam o segundo míssil a uma distância de 30 km. O míssil atingiu em cheio o alvo, no caso, um Super Etendard iraquiano armado com um míssil Exocet, comprovando assim o sucesso do projeto.

O teste não apenas se mostrou bem-sucedido, mas reviveu os PersasCats, além de trazer de volta o medo da Força Aérea Iraquiana de que os F-14 ainda estavam no jogo.

Vários F-14 foram modificados para transportar o míssil Sedjil junto com o suprimento limitado de mísseis Phoenix operacionais.

Quando a guerra terminou em 1988, o Sedjil contabilizou duas vitórias ar-ar. Além disso, com o término do conflito, a IRIAF teve tempo de retrofiar os mísseis Phoenix usando líquidos de arrefecimento substitutos e novas baterias. Acredita-se que por esta época a relação Teerã-Moscou era muito boa, portanto, é certo que houve apoio soviético.


FONTE: ganjjang.ir


O MIM-23 HAWK (Homing All the Way Killer) é um sistema de mísseis terra-ar de baixa a média altitude para todos os climas, desenvolvido e projetado pela Raytheon em 1952. O primeiro disparo de teste guiado ocorreu em junho de 1956, com a fase de desenvolvimento concluída em julho de 1957. O HAWK Básico, MIM-23A, entrou em operação em 1960.

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1 COMENTÁRIO

  1. Interessante ver como a necessidade impulsiona o criativo de forças militares; Exocets lançados de terra na Guerra das Malvinas, adaptação do Hawk aos Tomcat na Irã-Iraque, redes de túneis e AAA de alta mobilidade no Vietnã, dentre muitos outros casos, são representativos disto. Excelente matéria, digno do padrão Cavok!!

    Ademais, queria esclarecer com os editores: o que seria o "emoludador de dados", mencionado no parágrafo nº 17?

    Forte abraço a todos, boa tarde e bom domingo! 😉

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