Y#16Foi o último ato militar dos Estados Unidos no Sudeste Asiático, depois da retirada do Vietnam e do Cambodja. O governo radical do Khmer Vermelho tomou o cargueiro norte-americano SS Mayaguez. Os Estados Unidos enviaram suas forças e o pesadelo começou.

O ano de 1975 foi muito ruim para os Estados Unidos, sendo abril e maio os piores meses. Em pouco menos de trinta dias, os sul-vietnamitas, aliados dos norte-americanos, foram definitivamente derrotados pelo vietcong, entre 15 e 30 de abril; atuando diretamente no Cambodja, os norte-americanos tentaram evitar a tomada do poder pelo Khmer Vermelho e falharam, no dia 17 de abril; no dia 12 de maio o próprio Khmer Vermelho capturou o cargueiro SS Mayaguez. O último desastre foi a operação de resgate do navio.

É verdade que a embarcação foi recuperada, e seus 39 tripulantes, resgatados. Mas em poucas operações militares os Estados Unidos perderam, proporcionalmente, tantas vidas e tanto equipamento. Poucas vezes houve tantos problemas e erros. Não fosse a aviação, a calamidade poderia ter sido pior.

Os helicópteros Sikorsky H-53 fizeram o papel principal no resgate, transportando fuzileiros e os retirando, e disparando sem cessar sobre os inimigos.
Os helicópteros Sikorsky H-53 fizeram o papel principal no resgate, transportando fuzileiros e os retirando, e disparando sem cessar sobre os inimigos.

O Mayaguez era um navio transportador de containers, de 10 776 toneladas, bandeira norte-americana, da companhia Sea Land Service, Inc., e navegava em águas internacionais a cerca de 110 km do sudoeste do Cambodja na tarde do dia 12 de maio. Em minutos, foi capturado por lanchas de patrulha do Khmer Vermelho; a tripulação mal teve tempo de descrever a situação pelo rádio.

A mensagem, entretanto, foi ouvida pelo comando militar dos Estados Unidos na Tailândia. E assim, nas primeiras horas do dia seguinte, um Lockheed P-3 Orion, da Marinha, voou da base tailandesa de U-Tapao para o mar da China, ao largo de Kompong Som (a antiga cidade de Sihanukville). Ali, localizou o Mayaguez, perto das ilhas Poulo Wai.

Baseados nas informações conseguidas pelo P-3 e por aviões F-111 que fizeram outros voos de reconhecimento na área, os chefes do Estado-Maior combinado e o Conselho de Segurança norte-americanos pressionaram o presidente Gerald Ford: queriam tentar o resgate. Ford considerou a possibilidade de que a falta de reação pudesse encorajar novos atos de pirataria — e aprovou a operação.

Y#1As tropas dos Estados Unidos, em processo de retirada do Sudeste Asiático, ainda estavam na Tailândia. Além disso, 230 homens da Brigada Anfíbia da 3ª Divisão dos Fuzileiros Navais podiam ser transportados de Okinawa (Japão) em Lockheed C-141A; e uma força-tarefa, incluindo o USS Coral Sea e três destróieres de escolta, podia ser deslocada para o golfo do Sião. O governo tailandês não gostou muito, mas reuniu-se essa força na base de U-Tapao, com aparelhos de apoio da Força Aérea — Vought A-7D da 388ª TFW, McDonnell Douglas F-4E da 432ª TFW, General Dynamics F-111A da 347ª TFW, Lockheed C-130E da 347ª TAW, AC-130E do 16º SOS, HC-130P do 56º ARRS, helicópteros Sikorsky HH-53C do 40º ARRS e CH-53C do 21º SOS. O desastre já começou aí, na reunião de forças: um helicóptero CH-53C caiu enquanto transportava homens de Nakhon Phanon para U-Tapao; morreram 23 pessoas — e a operação nem tinha começado.

Sob um céu vermelho

O primeiro aparelho a entrar em ação foi um Lockheed AC-130E do 16º SOS. Durante a noite de 13 de maio, o AC-130E seguiu o rastro de pequenos navios que iam e vinham entre o Mayaguez e a ilha de Koh Tang. Foi atacado pela artilharia de lanchas armadas e por fogo antiaéreo leve da ilha. Nas primeiras horas da manhã, o avião fez disparos de advertência contra o convés da lancha de patrulha, para tentar impedir a transferência da tripulação do Mayaguez para terra. Caças táticos também fizeram disparos contra pesqueiros e pequenos botes, e lançaram gás antimotim. Era uma demonstração de força — inútil.

A tripulação foi transferida e os norte-americanos nem chegaram a notar. Só no dia 15 de maio, 6 helicópteros HH-53C Super Jolly Greens e 5 CH-53C partiram da Tailândia para desembarcar fuzileiros em Koh Tang e no destróier USS Harold E. Holt, que devia abordar o cargueiro. A tarefa do destróier foi fácil: às 8h30min daquele dia, o USS Harold E. Holt avistou o Mayaguez, os fuzileiros abordaram-no, e o navio foi rebocado. Os homens deixados na ilha de Koh Tang, entretanto, iniciaram nesse momento um longo e desnecessário pesadelo: a resistência do Khmer era muito mais forte do que a esperada — e a tripulação do Mayaguez não estava mais na ilha; tinha sido transferida para Kas Ron. O pesadelo demorou quatorze horas.

Fuzileiros navais correm para o HH-53C Jolly na terceira e última tentativa de resgate, sob o fogo de cobertura de aviões norte-americanos. Acima, à direita, o porta-aviões USS Coral Sea e sua 15ª ala, que deram a base para a tentativa de resgate. A 15,a ala fez um ataque bem-sucedido com A-7D Corsair lI e A-6 Iintruder contra o aeroporto de Ream.
Fuzileiros navais correm para o HH-53C Jolly na terceira e última tentativa de resgate, sob o fogo de cobertura de aviões norte-americanos. Acima, à direita, o porta-aviões USS Coral Sea e sua 15ª ala, que deram a base para a tentativa de resgate. A 15,a ala fez um ataque bem-sucedido com A-7D Corsair lI e A-6 Iintruder contra o aeroporto de Ream.

Sob o comando do tenente-coronel Randall W. Austin, os primeiros fuzileiros deviam desembarcar ao amanhecer, no extremo noroeste de Koh Tang, em dois grupos: o maior em uma praia na costa oeste, o menor em outra praia a leste. O transporte seria feito por esquadrilhas de CH-53C (que receberam o nome-código “Knife”) e HH-53C (nome-código “Jolly”).

No primeiro momento, os helicópteros líderes Knife 21 e Knife 22 aproximaram-se da praia oeste sem que houvesse oposição, e o desembarque parecia fácil. Mas, assim que os aparelhos pousaram, começou o fogo de armas leves, foguetes e morteiros. A tropa foi desembarcada, e o Knife 21 conseguiu decolar, mas perdeu um dos motores e sofreu outros danos: foi forçado a uma amerissagem de emergência, na qual morreu o mecânico de voo, sargento Elwood E. Rumbaugh.

Ao mesmo tempo, o Knife 22 tentou pousar na praia oeste, mas tendo os tanques de combustível perfurados teve de fazer um pouso de emergência no litoral da Tailândia. Um terceiro CH-53, o Knife 32, foi para a praia oeste e desembarcou os fuzileiros, embora o aparelho fosse atingido repetidamente. Os três helicópteros estavam fora de combate.

O assalto à praia leste, planejado para um ataque em pinça que consolidaria posições no norte de Koh Tang, foi ainda pior. Os Knifes 23 e 31 foram derrubados, a tripulação e os fuzileiros do 23 acabaram acuados na praia; o co-piloto, 2 marinheiros e 10 fuzileiros do 31 morreram com a queda do helicóptero. Naturalmente, receava-se ordenar o apoio de aviões táticos, porque poderiam ferir seus próprios soldados, na confusa e confinada área em que os primeiros fuzileiros haviam sido desembarcados. A única sorte, no caso, é que um FAC dos fuzileiros escapou com vida do Knife 31 e transmitiu as coordenadas para os caças. Só então, com os caças trabalhando, é que se pôde enviar 3 HH-53C para desembarcar fuzileiros navais na praia oeste.

Y#13Não que a operação tivesse sido fácil. O Jolly 41 nem chegou a pousar, foi afastado pelo fogo inimigo; o Jolly 43 foi forçado a deixar seus fuzileiros ao sul da praia, em má posição; só o Jolly 42 desembarcou os soldados sem grandes problemas, no ponto certo. Mas estava tudo errado. Os três grupos de norte-americanos — 60 fuzileiros na praia oeste, 29 mais ao sul, 5 tripulantes da Força Aérea e 20 fuzileiros na praia do leste — não podiam se reunir. Uma primeira tentativa para resgatar as forças isoladas na praia leste teve de ser abortada depois que o Jolly 13 sofreu pesados danos.

Como retirar os fuzileiros?

Às 7h45min, enquanto os fuzileiros tentavam atravessar com dificuldade as praias de Koh Tang, sob proteção de caças, a 15ª ala, do USS Coral Sea, lançou um primeiro ataque contra o aeroporto de Ream, em que 17 aviões cambodjanos foram destruídos (a maioria, North American T-28D fornecidos pelos Estados Unidos em épocas mais amistosas). Um segundo ataque aeronaval, com A-7Es e Grumman A-6As, foi lançado uma hora mais tarde e resultou na destruição de um depósito de combustível perto de Kompong Som. Uma esquadrilha de B-52D da 43ª ala da base Andersen, de Guam, nem sequer chegou a levantar voo.

Sob a direção de um A-7D, outros A-7D e AC-130E metralharam e bombardearam posições inimigas acertando a até 50 m dentro de suas próprias linhas. Aproveitando esse apoio, uma outra força de fuzileiros foi desembarcada pelo Jolly 41. Até esse momento, 8 dos 11 helicópteros em ação haviam sido derrubados ou danificados ao ponto de inutilização.

No meio disso tudo, às 10h45min, o USS Wilson divisou um barco pesqueiro tailandês. O pesqueiro fora enviado pelo Khmer Vermelho — para devolver a tripulação do Mayaguez. Agora, era só retirar os fuzileiros navais de Koh Tang e cair fora. Mas, para retirar os homens da praia leste, era preciso trazer mais fuzileiros navais.

Vai começar tudo de novo?

O fogo denso e preciso na praia do leste, entretanto, frustraria mais uma tentativa de desembarcar reforços. O Knife 52, já com pouco combustível, foi atingido várias vezes e teve de regressar à base sem desembarcar suas tropas. Na praia oeste, os norte-americanos tiveram mais sorte: o Knife 51 e os Jollys 11, 12 e 43 desembarcaram 108 fuzileiros.

Y#15As tentativas de resgate geral foram mais difíceis. Apesar de aviões A-7D lançarem granadas de gás antimotim sobre as posições cambodjanas, uma tentativa na praia leste, no começo da tarde, falhou, quando o Jolly 43 teve um dos motores ;atingido’ e sofreu ruptura nas tubulações de combustível. É verdade que o apoio aéreo aumentou — com 2 OV-10A do 23º TASS marcando os alvos e dirigindo aviões A-7D, F-4E e AC-13E. Mas a situação continuava crítica, e piorava à medida que a noite se aproximava: notou-se que seria impossível reunir os grupos antes de escurecer. Num esforço desesperado, os Jollys 11 e 12 e o Knife 51 conseguiram retirar 25 homens da praia leste, já isolados havia mais de dez horas, graças a um C-130E que lançou uma bomba de concussão de 6 804 kg sobre os cambodjanos, enquanto aviões táticos e armados e uma lancha do USS Wilson faziam fogo supressivo.

Mas faltava recolher os homens da praia oeste, e só haviam sobrado 3 helicópteros: o Knife 51, o Jolly 43 e o Jolly 44. Outra demonstração de exatidão dos AC-130E (disparando a 50 m na frente dos fuzileiros acuados) e finalmente o Knife 51 e o Jolly 43 levaram um primeiro grupo de fuzileiros — o Jolly 43 transportou, então, mais do dobro de sua carga normal de combate. O Jolly 44 conseguiu evacuar uma parte dos homens e voltou rapidamente para pegar outra leva. O Knife 51 recolheu os últimos 29 fuzileiros.

Quando a noite caiu, finalmente, sobre o golfo do Sião, os soldados estavam exaustos, boa parte a bordo do USS Coral Sea, outra no USS Holt, recebendo cuidados médicos. Os tripulantes do Mayaguez e o próprio navio estavam salvos: a operação afinal havia tido sucesso. Durante muito tempo, porém, os homens envolvidos na ação continuaram tendo pesadelos com as praias do Cambodja.


Glossário

ARRS Esquadrão aeroespacial de busca e salvamento (Aerospace Rescue and Recovery Squadron)

FAC Controlador aéreo avançado (Forward Air Controller)

SOS Esquadrão de operações especiais (Special Operations Squadron)

TASS Esquadrão tático de apoio aéreo (Tactical Air Support Squadron)

TAW Ala tática aerotransportada (Táctica/ Airlift Wing)


FONTE: Aviões de Guerra #8


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3 COMENTÁRIOS

  1. Quantos Sea Stalion caíram no total, era um heli problemático, creio que corrigiram isso no Super Stalion.

  2. Para ver como é a evolução (ou não) da guerra…
    O que esses fuzileiros passaram não foi nada fácil. Porém não é nada comparado com o que seus companheiros passaram nas ilhas do Pacífico na 2°GM, ou os soldados nas trincheiras da 1°GM, sendo bombardeados dias a fiu, com pé de trincheira, no meio de ratos e lama.
    Não quero menosprezam o que eles fizeram, mas a guerra era mais violenta no passado, olhem hoje, às ações são bem mais bradas e mornas, fazendo o Vietnan parecer um inferno. E isso contrata com os equipamentos mais mortais e eficientes, o que deveria tornar o ambiente de combate mais devastador que no passado.
    A guerra está mais cara, porém menos mortal, devido ao ambiente de guerra que normalmente é de guerra assimetrica. Uma guerra simétrica seria uma incógnita. Só tendo uma para saber qual é a real tendência de uma guerra moderna. Pois as teorias de emprego militar, morrem nas primeiras rajadas…

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