25355f6606fe34591e22d0a959461a49
F/A-18A Hornet do VFA-204 “River Rattlers” (Imagem: Joe Copalman)

Há um ano, dois caças F/A-18 Hornet do esquadrão VFA-204 foram atingidos por um raio enquanto voavam sobre o Golfo do México.

As aeronaves estavam a 23 mil pés (7.000 m), quando ambos foram simultaneamente atingido por um raio, o que deixou o líder desorientado.

O piloto “Chili” Williams, voando seu Hornet sobre o leste do Golfo do México, logo sentiu que algo estava errado. Havia estática em seu rádio. “Senti uma sensação de calor na ponta dos dedos sobre o gatilho do rádio”, relembra ele. “E então, tudo ficou branco. Um bonito, magnífico e quase branco brilhante.”

chili-over-cockpit-mainjpg-3538d17db7356e05
A equipe de emergência corre para ajudar o comandante “Chili” Williams, que caiu para fora do cockpit de um F/A-18C Hornet depois de ter sido atingido por um raio durante um exercício de treinamento sobre o Golfo do México em 18 de julho de 2014.

Williams já sabia dos perigos no ar. Antes de se juntar a da Reserva da Marinha junto ao Strike Fighter Squadron 204, conhecido como o River Rattlers, ele fora um piloto de caça dos Fuzileiros Navais dos EUA, voando várias missões de combate sobre Afeganistão e patrulhando a zona de exclusão aérea sobre o sul do Iraque. Ele já havia sido sido atingido por raios no Boeing 737, avião comercial que ele voa em seu trabalho civil.

Mas desta vez, o ataque relâmpago foi diferente. Desta vez, ele sentiu.

A carga elétrica do gatilho no rádio parecia fritar sua rede neurológica, assim como fez com alguns fusíveis das asas do Hornet. A descarga que ele recebeu a 23.000 pés jogou-o numa luta pela sobrevivência que durou 25 minutos, aonde ele fazia de tudo para sincronizar seu corpo e mente a fim de controlar o jato até que ele pudesse retornar a base.

Por sua capacidade e habilidade no dia 18 de julho de 2014, ele foi condecorado por salvar um jato de US$ 70 milhões, a própria vida e, potencialmente, as de pessoas em solo, levando o jato para longe da área povoada.

A relâmpago também atingiu o seu ala naquela tarde, o tenente Cliff “Mover” Lemoine.

Lemoine é um ex-piloto da Força Aérea que também voou missões de combate sobre o Iraque em um F-16 Falcon. Ele fez a transição para a Reserva da Marinha e para o F/A-18 Hornet em 2012.

crowe-williams-lemoinejpg-55f3b03d689fbac3
O Comandante Mark Crowe, à esquerda, condecora o comandante Williams tendo a seu lado o tenente Lemoine.

Outros pilotos tinham voado missões naquela manhã, na qual eles relataram as trovoadas na região. Ao meio dia, Williams e Lemoine verificaram com o controlador de tráfego aéreo a previsão. “Ele disse: sim, parece bom. Decidimos decolar“, disse Williams. “Quando chegamos ao nivel de voo, tudo ficou escuro, o mais escuro que eu já vi em uma formação de nuvens.”

Eles navegaram visualmente cerca de 30 milhas a leste e estavam entrando no espaço aéreo reservado para treinamento. As nuvens tornaram-se tão espessas que Williams disse que podia ver a ponta da asa do Hornet de Lemoine, mas não a fuselagem. Logo eles encontraram granizo. De imediato ele verificou os bordos de ataque das asas em busca de danos.

Por segurança, Williams decidiu que ele e Lemoine precisavam se separar. “Eu estava ligando o microfone para dar a ordem“. Foi quando ele disse que ouviu a estática do rádio que sempre precede a um relâmpago. Ele não ouviu estrondos, e tudo o que ele viu era branco. Ele suspeita que o raio atingiu a cobertura acima, a menos de 1 metro de sua cabeça.

Eu senti a descarga por todo o meu corpo“, disse Williams. “Eu me vi balançando a cabeça, não tenho certeza se os meus olhos estavam abertos ou fechados. Apenas balançando a cabeça.

No outro jato, Lemoine sentiu a descarga em seu rosto e viu a luz. “Cara, eu acho que foi só um raio“, disse Williams.

Houve um silêncio. Em seguida, Lemoine ouviu Williams, “Cara, fique longe de mim.”

Eles sairam para longe da tempestade, na qual Williams descreveu como “céu claro e bonito.” Lemoine voou mais perto de Williams e viu a marca no cockpit. “Eu fiquei chocado, era muito ruim“.

Os pilotos inspecionaram visualmente os aviões um do outro em busca de danos, mas eles não viram nada, fora a marca do raio.

Mas Lemoine suspeitou de que Williams precisava de cuidados médicos. Eles consideraram ir para Gulfport, mas as tempestades estavam no caminho. Então eles decidiram voltar para Belle Chasse.

Lemoine perguntou se Williams queria que ele assumisse a liderança, mas Williams disse não.

Foi quando eu soube que algo estava errado“, disse Lemoine. Os pilotos são treinados para cuidar de várias tarefas simultaneamente, disse Williams. “Eu sou capaz de pensar em uma coisa e ainda monitorar outra“, disse ele.

Mas o raio roubou-lhe a habilidade. “Parecia que meu cérebro estava redefinindo a cada 30 segundos, o que é meio difícil de descrever“, disse Williams.

Ele suspeitava que estava sofrendo de hipóxia, em que seu cérebro é privado de oxigênio. Quando ouviu Lemoine mencionar que podia estar hipóxia, ele sabia que o voo poderia virar mortal. Ele passou um rádio a controladores de tráfego aéreo de Houston e declarou estado de emergência. Eles desceram de 23.000 para 10.000 pés, onde há mais oxigênio. Lemoine contatou a estação aérea Belle Chasse.

air-medal-certificate-mainjpg-bb091e9b52bdc457

O assento do Hornet esta equipado com um suprimento de oxigênio puro, que é acionado e flui através da máscara do piloto por 10 minutos. O problema é que este sistema é acionado por um anel verde, na qual o piloto puxa, porém, o anel fica a poucos centímetros do anel de ejeção.

Desorientado em suas habilidades motoras e preocupado que pudesse confundir os anéis, Williams colocou o corpo na posição de ejetar. Ele puxou um anel. Era a chave certa. Mas o oxigênio não ajudou.

A cerca de 10 milhas, Williams solicitou uma “armadilha”, ou seja, uma aterragem assistida porgancho de cauda.

Foi tenso e intenso”, lembrou. “Eu ainda balançava minha cabeça.

Em sua primeira tentativa, Williams ultrapassou o cabo por cerca de quatro pés (1,2 m). “Naquele momento eu pensei que eu estava prestes a testemunhar um acidente“.

Velocidade é vida, pensou Williams. Ele então empurrou os manetes a frente para chegar no alto, virando bruscamente para a direita sobre edifícios residenciais e administrativos da base a 260 nós (480 km/h).

Pousando em um porta-aviões, os pilotos quando perdem o cabo, giram para a esquerda para outra tentativa. O mesmo se aplica na base, disse ele, onde o limite de velocidade é de 250 nós.

Lemoine começou a falar com a Williams usando palavras básicas como lembretes de procedimentos de pouso. Williams aproximou-se da pista uma segunda vez e desta o gancho de cauda pegou o cabo na pista.

Eu senti o cabo“, disse Williams. “Era uma boa sensação. Eu já fiz isso muitas vezes antes.” Assim que o jato parou, abri o cockpit e cai sobre a frente do dossel.

Embora William tenha desligado o jato, ele esqueceu de desarmar o assento ejetável.

O pessoal de solo logo apareceu, desarmaram o assento. Williams foi levado para um hospital.

Lemoine pousou sem incidentes. Ele foi encaminhado para atendimento médico na clínica da base. Um eletrocardiograma detectou um batimento cardíaco irregular. Então ele também foi levado para o hospital, sendo libertado quatro horas mais tarde.

Eu não me sinto um herói“.

Depois de um certo tempo de tratamento médico, ele recuperou a visão completa e foi devolvido ao estado do voo. Ele credita a Lemoine por salvar sua vida. Foi Lemoine que voou ao meu lado todo o caminho. “Eu definitivamente agradeço a ele toda vez que o vejo“.

O resto ele credita à memória muscular que veio com seu treinamento de voo militar. “Eu não tive nada a ver com isso“, disse ele. “Eu não estava no controle do avião. Nem um segundo eu estava no controle do avião”.

 

FONTE/IMAGENS: Belle Chasse Air Base – Tradução e edição: CAVOK


12 COMENTÁRIOS

  1. Incrivel , essas aeronaves não tem uma "vedação" anti-descargas eletricas ?

  2. Treinamento+treinamento… Mesmo em uma situação onde o cara ta quase inconsciente ele lembra exatamente o que fazer .

  3. É incrível quando ele comenta da memoria muscular, isso revela o nível de treinamento que esses pilotos americanos tem, treinamento é o diferencial para eles serem o que são.
    Eu fico imaginando esses pilotos das forças aéreas dos EUA com 2 metros de altura mais 2 metros de largura entrando no cockpit do GRIPEN, deve ser por isso que a cabine do JSF é quase que um hotel 5 estrelas de espaçosa.

    • o gripen foi prejetado pra ser usado pela força aérea viking, mas se não me engano tem limite de tamanho pra entrar nele

      • A Flygvapnet teve problemas com o Viggen a cerca disto. Alguns foram modificados com pedais mais longos para pilotos mais altos.

        • os países do norte europeu possuem uma algumas das maiores estaturas médias do mundo. a da suécia é de 1,80 por exemplo

Comments are closed.