O protótipo N 02 no hangar da SUD Aviation em Toulouse, mostra as sinuosas curvas do La Belle Caravela.

Entre 18 de abril a 25 de junho de 1957, o protótipo nº 02 do Se-210 Caravelle, matriculado F-BHHI, participou de um tour pelo continente americano. Nestes mais de dois meses, em um percurso de 29.800 milhas, visitou o Brasil, Uruguai, Argentina, Venezuela, Estados Unidos e Canadá, efetuando 60 voos de demonstrações nos quais 2.924 passageiros foram transportados. Saiba mais sobre esta visita histórica no Brasil, com destaque para visita em Porto Alegre, sede da então saudosa companhia Varig.

O plano da SUD era apresentar o primeiro bireator comercial com motores instalados na empenagem de cauda em “T”, desenvolvido para curtas e médias distâncias, a potenciais clientes nestes países, demonstrando o avançado estado de arte da tecnologia aeronáutica francesa.

Já na edição do dia 07 de abril de 1957, o Jornal Correio do Povo anunciava a chegada do Caravelle a Porto Alegre, para o dia 24 daquele mês.

O “Caravelle n. 02” iniciou seu périplo para o continente americano partindo de Paris (Orly) no dia 18 de abril de 1957 às 9:17LT. A bordo encontravam-se Georges Hériel – presidente da fabricante Sud-Aviation – e sua esposa, dois comandantes seniores da Air France – Lionel Casse e André Lesiur, auxiliados pelo F/E Jacques Vergine e duas aeromoças; Geneviève Salzani e Françoise Durandet. A delegação ainda era composta por Pierre Nadot (piloto de provas da Sud Aviation) e Wsiewolod Jan Jakimiuk (diretor de vendas da Sud).

Após um pernoite em Dakar, onde embarcou o navegador chefe da Air France, Paul Comet, o F-BHHI partiu para a longa travessia do Atlântico Sul nas primeiras horas do dia 20 de abril em direção à Recife, primeira cidade nas Américas a ser tocada pelas rodas do Caravelle, próximo das 04hs da manhã. Os 3.220km que separam as duas cidades foram cobertos em 5:43hs de voo – e enfrentado um componente de vento de proa de 32 nós. Apesar disso, ao pousar na capital pernambucana os tanques do Caravelle ainda continham pouco mais de 3 toneladas de combustível, quantidade suficiente para mais duas horas de voo.

O mapa abaixo mostra todo o percurso efetuado pelo F-BHHI em seu tour das Américas.

Ainda no mesmo dia 20, o protótipo “02” decolou em direção ao Rio de Janeiro, onde pousou próximo ao meio dia no aeroporto do Galeão. O trajeto Recife-Galeão foi cumprido em 3:33hs de voo.

Na capital pernambucana embarcaram em direção à “Cidade Maravilhosa” o Sr. Bernard Hardiom, embaixador francês no Brasil e esposa; General Normand, adido aeronáutico da embaixada francesa e esposa; Brigadeiro Dario Azambuja, Diretor do então DAC; Paul Vaché, ex-Diretor da Air France para a América do Sul, Paulo Sampaio e Erik de Carvalho, Diretores da Varig; Cláudio Silveira, Diretor da Cruzeiro do Sul; Comandantes Décio Vilhena, Jatahy e Bougner, da Panair do Brasil; além de vários jornalistas cariocas especialmente convidados.

No Rio foram efetuados três voos de demonstrações entre os dias 21 e 22 de abril.

No dia 23 o protótipo partiu do Galeão para São Paulo, onde aterrissou no aeroporto de Congonhas, após 36 minutos de voo. Na capital paulista foram realizados dois voos de demonstrações com jornalistas e convidados a bordo do F-BHHI.

A próxima parada do avião francês seria então Porto Alegre!

Era tal a expectativa para a chegada do avião francês, que inclusive um anúncio foi publicado na imprensa local, pela Air France, conclamando a população da cidade a comparecer ao Salgado Filho a fim de receber a aeronave.

O aviso publicado no Correio do Povo em 24 de abril de 1957, na manhã do dia da chegada do jato francês à capital gaúcha

Também uma interessante nota foi veiculada no jornal Diário de Notícias de Porto Alegre, edição de 19 de abril. Nesta nota, sob o peculiar título “Sei que Falaram de Mim” – o próprio avião se “apresentava” ao público em primeira pessoa, descrevendo suas qualidades técnicas e conclamando a população gaúcha a recebê-lo no Salgado Filho dali a cinco dias.

O Caravelle se apresenta ao povo gaúcho em primeira pessoa, na interessante nota do Diário de Notícias de 19 de abril!

Em outro sinal que denotava a importância da visita do F-BBHI, o jornal Correio do Povo, que era matutino, publicava matéria na edição de 24 de abril com a seguinte manchete: “Às 12 horas a Chegada do Caravelle”.

O concorrente Diário de Notícias, por sua vez, anunciava com destaque na primeira página de sua edição de 23 de abril: “Amanhã em P. Alegre o Mais Moderno Jato Comercial do Mundo”.

Em outro lance que comprovava a extrema importância que a passagem pelos “Pampas” do jato francês vinha de ocasionar, a Rádio Farroupilha anunciava que meia hora antes do pouso na capital faria uma inédita transmissão a bordo da aeronave.

Como previsto, em 24 de abril de 1957, procedente de São Paulo, Porto Alegre recebia finalmente o charmoso bireator francês. Tocando a pista do Salgado Filho próximo do meio dia, o voo desde a capital paulista foi realizado em apenas 1:24h.

Foto histórica: O F-BHHI no pátio do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre (RS), no dia 24 de abril de 1957.

Sob a manchete “Caravelle Faz Sucesso em Porto Alegre”, a edição de 25 de abril de 1957 do Diário de Notícias assim dava conta da vinda do avião francês à capital dos gaúchos:

“Ao meio dia de ontem aterrissou no Aeroporto Salgado Filho o jato comercial da Air France “Caravelle”, atualmente em voo de propaganda pela América. O avião conduzia uma caravana de convidados, que haviam ido a São Paulo, especialmente para participar da viagem a Porto Alegre. Grande número de curiosos acorreu ao aeroporto para ver o aparelho, havendo a necessidade de formarem-se cordões de isolamento.

O “Caravelle” cumpriu a etapa São Paulo-Porto Alegre em 1 hora e 24 minutos de voo, havendo ainda sobrevoado a cidade antes de pousar. Manifestando suas impressões a respeito da viagem, os seus passageiros se referiram principalmente às condições extraordinárias de estabilidade e ausência de ruído.”

A mesma reportagem, aduzia que vieram de São Paulo, como convidados, além da tripulação e representantes franceses, os srs. Rubem Berta e Rudy Schaly, presidente e diretor da Varig; Waldemar Renner e Sra.; Gildo Russowski, deputado Paulo Mincarone, vereador Aloísio Chagas, Sr. Adail Morais, Secretário do Governo, jornalista Nelson Dimas Filho, os srs. Goetz Hertzfeldt, Beaumel, Bordini e Schutz, da Varig, Erny Peixoto, Ernani Cardoso e o locutor Ari Rêgo.

Tratava-se do primeiro pouso de uma aeronave comercial equipada com motores à reação no Salgado Filho. Os jatos – uma relativa novidade então na aviação comercial – substituíam os trepidantes e lentos motores a pistão que então equipavam a maioria das aeronaves de passageiros (L-1049G, DC-3, DC-4, DC-6, DC-7, Convair 240/340/440, Curtiss C-46).

Às 15hrs do dia 24 de abril realizou-se o primeiro dos três voos de exibição que partiram de Porto Alegre com convidados, técnicos e jornalistas da imprensa local. Com duração de 40 minutos, o F-BHHI realizou diversas evoluções sobre a Lagoa dos Patos em direção sul, tendo atingido a região de Tapes, retornando após para pouso no Salgado Filho.

A matéria publicada no Jornal Correio do Povo, na edição do dia seguinte, tratava de ressaltar a velocidade, estabilidade e conforto que caracterizavam o voo em um avião a jato – então uma novidade que causava espanto, mas que hoje em dia passa completamente despercebida aos passageiros. Atente-se, neste sentido, para alguns dos aspectos comentados na reportagem:

A manchete do Correio do Povo.

“A moderna aeronave proporcionou aos seus passageiros, uma agradável sensação, sendo de frisar a ausência total de ruído no interior do avião que é movido por dois reatores a jato, situados na cauda do aparelho.

Sem trepidação o avião ganha extrema velocidade (500 km/h) e alça voo a razão de 100 metros por segundo, sem que os viajantes sintam outra sensação, senão presenciar a rapidez com que a terra fica para trás.

A impressão é de quem viaja num automóvel super confortável em rodovia asfaltada, tal é a estabilidade que oferece o “Caravelle” em pleno voo.

A estabilidade é tal que a taça de champanha oferecida a bordo, repousa no braço da poltrona.”

Um segundo voo de demonstração partiu de Porto Alegre na mesma tarde do dia 24 de abril, em regime de alta velocidade, com duração de apenas 25 minutos, com o “n 02” deslocando-se até a vertical da cidade de Pelotas e retornando à capital.

À noite foi oferecida uma recepção à comitiva francesa no Clube “Amigos da Air France”, na qual estiveram presentes, entre outros, Ruben Berta, Georges Hériel, Presidente da SUD Aviation; Paul Vachet e Sra., representante da Air France, o cônsul francês Sr. Courtenaz e Henry Laforest, Secretário do Ar da França.

As 9hs da manha seguinte, 25 de abril, o Caravelle efetuou um terceiro e último voo local, com técnicos e engenheiros – embora o autor não tenha obtido nas pesquisas efetuadas em periódicos comprovação da realização desse voo (entretanto, John Wegg, na sua monumental obra “Caravelle – The Definitive History”, atesta que foram efetuados um total de 3 voos de demonstração em Porto Alegre).

O fato é que após dois dias em Porto Alegre, o F-BHHI prosseguiu em seu tour pelas Américas, partindo às 15hs para Buenos Aires, deixando em todos a marca indelével na memória da passagem do então revolucionário jato pela provinciana capital sulista.

O Caravelle PP-PDU da Panair, visto em Toulouse, França.

O mesmo protótipo retornaria ao Brasil, mas somente em paradas técnicas, no trecho Buenos Aires-Rio (em 27 de abril) e Rio-Belém (no dia 28) em direção à Caracas, continuando depois para os Estados Unidos e Canadá, de onde após visitar inúmeras cidades, finalmente partiu desde Gander em direção a Paris (Orly), no dia 25 de junho em voo direto que foi coberto em 6h26.

O PP-VJD, segundo Caravelle da Varig, em 1961, já convertido em modelo III, como se pode ver pelo motor.

Como se viria a comprovar o tour do Caravelle pelas Américas não foi em vão e empresas de vários dos países da região, como Varig, Panair do Brasil, Cruzeiro do Sul, Aerolíneas Argentinas, Lan Chile e United Airlines viriam a se tornar compradoras originais do clássico jato francês.

O PP-VJD em Idlewild, Nova York, em 1960.

De destacar, dentre estas, a encomenda da Varig, feita junto à Sud Aviation em outubro de 1957, ou seja, poucos meses após a visita do Caravelle a Porto Alegre, para dois modelos da série de produção Se-210 srs I. Com esta transação, a Varig tornava-se então apenas a terceira empresa no mundo a encomendar o avião francês, atrás apenas da Air France e SAS. De fato, a companhia gaúcha viria a ser a primeira empresa brasileira a colocar em operação jatos de passageiros em dezembro de 1959 na linha para Nova Iorque – mas isso já é outra história!

VIDA OPERACIONAL DO CARAVELLE nº 02

Caravela 02 – Motores Avon 521 – Roll out: 18-ABR-56 e primeiro voo: 06-MAI-56

O último resquício do protótipo n 02 do Se-210, a seção 41 preservada no Museu do Ar e do Espaço de Le Bourget.

Prefixo F-WHHI – ABR-56; testes pelo Centro de Ensaios em Voo 20-23-JUN-56 (TT 73:05/TL 33); reformado com interior para 70 assentos 18-JUL56 (TT 110/TL 50); NOV-56 equipado com antena HF; voos de testes retomados 17-DEZ-56/18-JAN-57; equipado com interior com 52 assentos e pintado na cores da Sud Aviation; F-BHHI reg. 18-MAR-57; testes de ruído em Orly 19-20-MAR-57; Tour das Américas 18-ABR/25-JUN-57; pintado nas cores da Air France (sem títulos); testes de condições em tempo frio 27-JAN/28-FEV-58; lsd Air France/SAS 23/26-ABR-58; LSD Air France JUN-JUL-58 (títulos “Air France” aplicados); WFS 28-NOV-58 para revisão geral (TT 1193/TL 1284); lsd SAS 24-FEV/23-ABR-59 para treinamento de tripulação (200hrs); dmgd 01-ABR-59; para o Centro de Ensaios em Voo 03/24-AGO-59; testes de pouso automático JUL-62/65; testes com barreira de contenção em Toulouse 1968; WFU 1969 e doado para Centro de Instrução da Air France de Vilgénis, Massy; de-registrado ABR-72; desmontado 1976, nariz e possivelmente seção da fuselagem para o Museu do Ar e Do Espacço de Le Bourget; somente o nariz em exposição atualmente.


Fontes consultadas:

– Diário de Notícias de Porto Alegre, Diários Associados (edições de abril de 1957)
– Correio do Povo, Porto Alegre, Caldas Júnior (edições de abril de 1957)
– CARAVELLE, The Definitive Story, John Wegg, Airways, 2005


Marcelo Magalhães é advogado em Porto Alegre, fotógrafo e pesquisador de aviação comercial nacional e internacional. Fundador da Radar Associação Aeronáutica, que mantinha uma revista impressa de aviação na década de 1980 e 1990, e também colaborou com fotos para as principais revistas de aviação do Brasil. Recentemente lançou um livro magnifico sobre a história do Boeing 707 e sua operação pelas empresas aéreas brasileiras e pela FAB, que pode ser adquirido no link abaixo.

Nota do Editor: A presente matéria foi publicada originalmente por Marcelo Magalhães no site Aeroentusiasta em 2012 e é aqui reproduzida com a autorização do mesmo.


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8 COMENTÁRIOS

  1. Ao contrário do que está no texto, creio que tecnicamente o Caravelle não tinha leme em 'T', que normalmente se caracteriza por está situado no topo do leme, como no Boeing 727, por exemplo.
    Uma curiosidade sobre essa aeronave é que seus projetistas acharam o desenho do nariz do de Havilland Comet bem concebido que resolveram simplesmente pagar p/ os ingleses a licença p/ utilizar no seu jato. Se buscarem imagens dos narizes no Google verão que são idênticos.

    • E várias décadas depois, a Boeing adota um nariz de perfil similar no Dreamliner.

      • Esse formato de nariz já havia sido adotado pela Embraer nos seus E-Jets. Abs.

  2. O avião voava com tanques de combustível extras à bordo? O alcance MTOW declarado na Ficha técnica é de Alcance (MTOW)1 700 km (1 060 mi).
    Dakar até recife da mais de 3200 km.

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