Em missões noturnas na década de 1980, quando o feixe do radar do E-2 Hawkeye varria a cabine, os pilotos podiam gerar arcos elétricos, mantendo a base metálica de suas lanternas perto dos painéis de metal ao redor deles.

Os arcos “iluminavam o cockpit à noite toda vez que o radar passava“, disse o capitão (retirado) da Marinha Ralph Ricardo. O Hawkeye é um avião de alerta aéreo antecipado  (early warning – EW) que é altamente reconhecível pelo grande radar em forma de disco na parte superior do avião. É usado para proteger porta-aviões, detectar aeronaves ou mísseis inimigos e atuar como uma estação de comando aéreo dos aviões de combate da Marinha dos EUA.

Em voo, o disco do Hawkeye ao completar uma rotação, a cada 10 segundos o feixe varria o cockpit. Alguns pilotos na época se perguntavam o que o radar estava fazendo com eles quando passavam, se isso poderia criar arcos elétricos, poderia criar algo para o organismo humano?

Então, de repente, a Marinha decidiu colocar o revestimento dourado em todas as janelas e nas escotilhas de fuga“, disse Ricardo. “Depois disso, os pilotos não conseguiram mais criar os mesmos arcos elétricos“, disse ele.

Era obviamente para manter o feixe de radar fora do cockpit“, disse Ricardo. “Eu pensei…estou voando há anos sem essa proteção. O que pode ter acontecido comigo nesse meio tempo?”

Ex-pilotos da Marinha e da Força Aérea dos EUA ou seus cônjuges sobreviventes expressaram ao jornal McClatchy suas preocupações sobre o alto número de câncer de próstata, cérebro, sangue e outros tipos que afetam sua comunidade, e alguns se perguntam se os radares em aeronaves militares podem ter sido um fator.

Uma investigação do jornal McClatchy no mês passado descobriu que quatro dos oficiais comandantes da Estação Naval de Armas de China Lake (Naval Air Weapons Station China Lake) morreram de câncer nos últimos anos. O jornal também descobriu que a USAF estava relatando um conjunto de cânceres urogenitais em seis pilotos de F-15E Strike Eagle e oficiais de sistemas de armas entre 33 e 43 anos na Base Aérea Seymour Johnson, na Carolina do Norte.

Os pilotos do E-2 Hawkeye que falaram ao jornal McClatchy relatarm outros ex-pilotos ou membros da tripulação que também estão enfrentando câncer ou morreram da doença em idades relativamente jovens.

Ricardo, por exemplo, é tratado por dezenas de carcinomas desde os 37 anos. Seu comandante da Guerra do Golfo de 1991, capitão JJ George, morreu em 2011 aos 60 anos de linfoma. Em 2018, Ricardo perdeu um de seus oficiais subalternos, o piloto de E-2 Comandante John Quinlan.

Acho que o revestimento não resolveu o problema“, disse Ricardo.

A Marinha dos EUA disse que uma revisão mais aprofundada não se justifica porque não há evidências suficientes de um aumento de cânceres na comunidade de aviação, nem evidências de que a radiação de radiofreqüência (RF) emitida pelos radares de aeronaves cause câncer. Quando o jornal pediu ao Departamento de Medicina e Cirurgia da Marinha cópias de quaisquer estudos anteriores da Marinha sobre radiação nos cockpits de seus jatos, a USN disse que não havia estudos anteriores.

A Grumman Corporation, que agora é a Northrop Grumman Corporation, adicionou o revestimento dourado ao vidro da cabine ainda nos anos 1980, depois de receber dados sobre os níveis de radiação por radiofreqüência da cabine através de pilotos de E-2 que estavam testando atualizações de radar no Hawkeye para a empresa.

Eu acho que os resultados dos testes alarmaram tanto a Grumman quanto a Marinha e que eles colocaram uma folha de ouro adesiva nas janelas de cima e, posteriormente, nas janelas laterais“, disse o comandante da Marinha (retirado) Les Ryan, ex-piloto-chefe de testes da Grumman para o E-2 Hawkeye.

Na ausência de um estudo atual conduzido pela Marinha, ex-pilotos da Marinha estão tentando coletar dados eles mesmos. Comandante da Marinha aposentado, Mike Crosby, ex-oficial de interceptação de radar (RIO) de F-14 Tomcat e fundador do Veterans Prostate Cancer Awareness Inc., e membros de vários outros grupos de veteranos de aviação estão lançando uma pesquisa para coletar informações de todos os aviadores militares atuais ou aposentados que foram diagnosticados com qualquer tipo de câncer.

John Hammerstrom, Comandante (retirado) e ex-piloto de testes de engenharia da Grumman, também havia experimentado os arcos elétricos da cabine – segurando lápis de chumbo perto de qualquer metal na cabine quando o feixe de radar passava.

Hammerstrom disse que em 1982 ele e outros pilotos de teste do Departamento de Teste de Voo da Grumman começaram a levar medidores de radiação de mão no cockpit do E-2 para testar os níveis de radiação durante o uso do radar em voo. Os engenheiros da Grumman ensinaram a Hammerstrom como operar os medidores e calcular os resultados.

A Northrop Grumman foi contatada sobre os testes de radiação da cabine, mas a companhia se recusou a comentar.

Os padrões nacionais de segurança em 1982 para um nível seguro de exposição à radiação humana específica da radiofrequência emitida pelo radar do Hawkeye era de 1,3 a 1,5 mw/cm², ou miliwatts por centímetro quadrado, que o Instituto Nacional de Padrões Americanos informou que seria a quantidade máxima segura de absorção para o corpo humano.

Alguns dos números registrados por Hammerstrom durante o voo foram maiores. Na primeira rodada de testes, as leituras realizadas nas posições de escotilha de piloto e de co-piloto foram de 3,6 e 4,0 mw/cm² quando o radar estava em uma posição de “holofote” (sem rotação). Quando a antena estava girando, os níveis foram registrados dentro dos limites de segurança conhecidos.

A equipe continuou testando as exposições em diferentes configurações, incluindo uma na qual eles cobriram o cockpit com blindagem de folha de alumínio. Quando todo o vidro do cockpit estava coberto com papel alumínio, as leituras também estavam consistentemente dentro de limites seguros.

Quando a película foi removida, atingiram 10,8 mw/cm² acima da escotilha de fuga do copiloto. A maior exposição registrada foi em 1985, quando uma leitura de 30,5 mw/cm² foi registrada acima da escotilha de fuga do co-piloto.

Em um memorando da Grumman que resume os resultados dos testes de 1982, datado de 22 de fevereiro de 1983, a empresa relatou que “está em andamento um estudo de engenharia para avaliar ações corretivas, como revestimentos ou materiais de triagem“. O memorando também dizia: “Uma carta da Marinha está sendo preparado para documentar o problema e solicitar uma reunião“.

As leituras levaram a uma análise mais aprofundada por parte da Grumman e à adição da folha de ouro às cabines do piloto. “Disseram-me que essa foi uma das razões pelas quais eles acabaram colocando ouro em diferentes formas no cockpit“, disse Hammerstrom.

Na época, o ouro também estava sendo estudado na Texas A&M University para fazer melhores trajes de proteção para trabalhar com radiação. “O ouro, um dos elementos químicos mais pesados, é a base de uma nova espuma plástica leve em desenvolvimento como um escudo contra radiação“, relatou um artigo de 1988 do New York Times .

As leituras dos testes da Grumman são uma percepção rara da radiação da cabine. Dos estudos de aviação disponíveis ao público que se concentram na exposição potencial ao câncer, a maioria se concentra no risco potencial de exposição à radiação UV ionizante prejudicial experimentada ao voar em altitudes mais altas por horas prolongadas, como voos comerciais através do Oceano Atlântico, e não os não ionizantes, como a radiação de radiofrequência produzida por radares.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a radiação ionizante contém energia suficiente para causar alterações cromossômicas, que podem levar ao câncer. A radiação não ionizante é definida como não contendo energia suficiente para causar alterações cromossômicas.

No entanto, em 2011, a Agência Internacional para Pesquisa do Câncer da OMS classificou a radiação por radiofrequência como um possível cancerígeno com base nas taxas aumentadas de câncer no cérebro que podem estar associadas a ele.

Essa designação ‘possível’ significa que existe um nível de suspeita, mas as evidências não são suficientes” para a OMS identificar a RF como um agente de câncer, disse Kenneth Foster, professor de bioengenharia da Universidade da Pensilvânia, especializado em radiação ionizante.

Como existem poucos pilotos em comparação com a população em geral, será difícil identificar com certeza o que causou esses cânceres, disse Foster.

Devido à “raridade do câncer nos adultos jovens que seriam pilotos e à série de outras coisas às quais eles podem ter sido expostos, acho que seria difícil estabelecer qualquer aumento no câncer nesses indivíduos e conectá-lo à radiofrequência”, disse Foster.

Mas os aviadores militares estão pedindo um estudo de qualquer impacto à saúde dos radares, pois questionam sua exposição passada e se perguntam como os pilotos atuais e futuros serão protegidos à medida que os militares continuam a atualizar os radares em seus aviões de combate.

Um estudo da Força Aérea dos EUA que analisou a exposição à radiação do cockpit no F-15 em 2003 observou que nenhum teste de voo anterior havia sido realizado. Esse estudo mediu três voos a partir do assento traseiro de um F-15D e encontrou níveis normais de exposição.

O General do Estado-Maior da Força Aérea, David Goldfein, prometeu aprofundar a questão, e a Marinha disse que, dependendo do que o estudo da Força Aérea encontrar, pode reconsiderar a realização de sua própria revisão.

Mudanças tecnológicas. O que sabemos sobre a radiação?”, disse Goldfein. Ele e o Cirurgião-Geral da Força Aérea dos EUA dirigiram uma primeira revisão da Força Aérea de seus ex-pilotos desde 1970, para registrar casos de câncer e analisar mais detalhadamente as possíveis causas.

O plano final de como o estudo da Força Aérea será conduzido deve ser anunciado até o final do ano, disse o porta-voz do Cirurgião-Geral da Força Aérea dos EUA.


Com informações do jornal McClatchydc

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15 COMENTÁRIOS

  1. Será que as soluções de jatos AEW com antenas conformais, como o Gulfstream 550, seriam mais seguros? Pois teoricamente o feixe nunca passaria por dentro cabine ou seria mais fácil blindar eletronicamente aquela área do avião.

  2. Fato é que hj tudo dá câncer, quem quiser viver em um mundo livre de substancias cancerígenas e imune a radiação terá que se mudar para algum lugar do planeta que tenha sido intocado pela atividade humana e viver como os homens das cavernas viviam.
    Me chamou atenção o relato de militares e ex militares com câncer com idade relativamente jovens, agora os que já estão mais velhos (na casa dos 60) poderiam ter desenvolvido câncer por N motivos. Quanto mais velho ficamos maior é a chance de desenvolvermos essa maledita doença.
    Infelizmente essa é uma doença que apesar de ser incansavelmente estudada pela comunidade científica ainda estamos muito aquém de compreender o porque do seu surgimento. Até cães e gatos hj tem câncer. Verdade precisa ser dita, talvez tenhamos extrapolado a validade do corpo humano, nossa expectativa de vida se alongou tanto mas talvez ela não tenha respeitado a validade do nosso DNA (o mesmo ocorre com os pets).
    Certamente será bem difícil provar caso a caso qual deles a radiação do radar foi decisiva para o surgimento de câncer de pilotos e oficiais embarcados, ou seja, esse assunto ainda vai dar muito pano pra manga!
    Somos reféns do nosso próprio desenvolvimento!

  3. Não e difícil não, pois no Brasil a legislação trabalhista garante aos empregados em setores que lidam com radiações ionizantes o recebimento do adicional de periculosidade/insalubridade, vez que,há diversos pareceres técnicos e estudos que demonstram que radiações ionizantes atuam como fatores cancerígenos, de form eu não se é impossível provar que as radiações ionizantes dos radares, induzam ao desenvolvimento de cancros, dos mais diversos tipos.

    O problema não é o uso de tecnologias que emitam radiações que podem atuar como agentes cancerígenos, o problema e não adequar este fator ao uso de EPI, por exemplo, como fizeram quando revestiram a cabine com o revestimento a base de ouro, assim o estudo não quer que os radares sejam tirados dos caças e aviões, mas sim que seja adaptado o suo de sistema e ou equipamentos que minimizem os efeitos.

            • Não entendi o que vc disse sobre "tirar o direito do pobre recorrer" pois o texto não fala sobre recursos.

              Se vc se referia a condenação a pagar custas, basta não inventar coisas que não existem. Isso não afeta nem ricos, nem pobres.

              • Não tirou o direito do pobre de recorrer de forma explícita, mas tirou.
                O Povo incluindo eu nao entende nada de direito, procuro um profissional, caro, e ainda corro o risco de ao perder ter que pagar o custo geral sendo que nem tenho pra pagar minha parte.
                A justiça tem que facilitar o acesso a todos e nesse caso impede., mesmo porque quem decide, com ou sem farra da justiça trabalhista, é o juiz, então que eles mudassem sua postura e não atacar o pobre.

                • Não é recurso, é direito de ação. Recurso é devolver ao judiciário um tema decidido.

                  Na justiça trabalhista, advogados recebem em regra apenas percentual daquilo que os clientes alcançam (30 porcento).

                  Pobre não paga custas, pois tem direito a gratuidade de justiça.

                  Se a ação é justa, receberá o que é devido.

                  Supondo que era justa, mas por erro do advogado ou do juiz, a ação foi perdida. Que foi condenado a pagar as custas.

                  Pobre não tem bens. A residência, a ferramenta profissional, a poupança até 20 salários, o salário não são executáveis.

                  Se tem mais de uma casa, se tem mais de 20 salários no banco, ele não é pobre.

            • Ao menos aqui no sul a justiça trabalhista é uma máquina de fazer caridade com o dinheiro das empresas.

              Esse dias uma empresa foi condenada a pagar os direitos trabalhistas de outra empresa fornecedora que fica em outra cidade!!!!
              Um fabricante faliu e como não tinha dinheiro para pagar os direitos do funcionário a loja que revendia os produtos foi condenada……

              Outro ganhou indenização porque um dia (01 dias) ficou com dor de cabeça porque entrou no depósito de tintas de uma loja. Isso sem oferecer prova nenhuma e sem nenhum outro funcionário reclamar.

    • Caro raposa,

      No caso dos revestimentos das janelas, aqui no Brasil, podem ser considerados EPC — que são a primeira medida a ser tomada contra uma fonte de risco identificada.

      Depois, viriam medidas administrativas ou de organização do trabalho (tirar a fonte de perto das pessoas ou as pessoas de perto da fonte) e, falhando isso, transformar a pessoa em Robocop (na versão male, de 1987): EPI.

  4. O que determina se a radiação será maléfica é o nivel e tempo de exposição, conheço uma radiologista que trabalha a décadas com raio x e etc e teve um filho, sem problemas, enfim citei esse exemplo para lembrar que o que importa é o nivel da radiação ja que o tempo foi alto.

    Eu, somente no achismo imagino que a radiação dessa antena na cabeça deles seja altíssima, alias esse jammer pessoal (link) eu ja acho que deve ser altissimo. https://www.israeldefense.co.il/en/node/36879