É missão do Comando da Força Aeronaval: “Assegurar o apoio aéreo adequado às Operações Navais, a fim de contribuir para a condição de pleno e pronto emprego do Poder Naval onde e quando for necessário“. Com a retirada do porta-aviões A-12 São Paulo, a Marinha faz o quê com eles?

Interceptar e atacar alvos aéreos e localizar, acompanhar e atacar alvos de superfície, a fim de contribuir para a Defesa Aeroespacial e proteção de Forças Navais”.

A frase acima é a síntese da missão – e objetivo de existir – do 1º Esquadrão de Aviões de Interceptação e Ataque (EsqdVF1). Sem um porta-aviões, pode a MB cumprir tal? A defesa aérea do país, a tal soberania do espaço aéreo, é uma atribuição da Força Aérea Brasileira. Com os A-4 Skyhawks baseados na base aeronaval de São Pedro d´Aldeia, ou outra base ao logo do extenso litoral brasileiro, poderia a diminuta frota apoiar as ações da Marinha sem conflitos de interesses? E com uma base fixa, teriam os aviões alcance suficiente para serem efetivos ou lembrariam os casos dos A-4 argentinos durante a guerra das Falklands, que chegavam sobre os alvos no limite da autonomia?

Breve história da Aviação Naval brasileira

Os aviões de asa fixa que operavam na Marinha brasileira eram voados e mantidos pela Força Aérea, num absurdo caso de interesses que tinha tudo, menos sinergia.

As origens do braço aéreo da Marinha do Brasil foi durante o ano de 1916, com a criação da Escola de Aviação Naval. Os primeiros pilotos de combate da Marinha participaram da Primeira Guerra Mundial em missões de patrulha voando ao lado de pilotos da RAF (Royal Air Force) como parte integrante do 10° Grupo de Operações de Guerra.

Até 1941, a aviação militar no Brasil era subordinada ao Exército, mas com a criação da Força Aérea Brasileira neste ano, tanto a aviação Naval quanto a do Exército deixam de existir, privando as demais forças militares de terem sua própria aviação de combate, o quê forçou a MB a lutar na Segunda Guerra Mundial sem meios aéreos.

Em 1952 ressurge a Aviação Naval, com o comando da MB buscando reaver sua capacidade aérea. Para tanto, com a desculpa de criar doutrina, em 1956 a MB adquire o porta-aviões A-11 Minas Gerais, o que gerou gigantesca polêmica com a FAB, tanto que o presidente da República teve de intervir, tamanho era o desentendimento entre a FAB e a MB. Em 1965 um Decreto Presidencial retira da Marinha a capacidade de possuir aeronaves de asa fixa, deixando-a livre para o uso de helicópteros. Os aviões só seriam voados por pessoal da FAB. A Marinha engoliu seco o decreto, mas nunca se deu por satisfeita.

A-4KU Skyhawk. Os aviões hoje a serviço da Marinha do Brasil são veteranos de guerra.

Em 1998 foi publicado o Decreto Presidencial nº 2.538 que deu a Marinha do Brasil o direito de voltar a operar suas próprias aeronaves de asa fixa destinadas a operar a partir de suas embarcações. A MB já estava em negociações para aquisição de caças, o que culminou na compra de 23 jatos McDonnell Douglas A-4 Skyhawk do Kuwait (A-4KU, a última variante produzida), sendo então designadas na MB como AF-1 (A-4KU monoplace) e AF-1A (TA-4KU biplace).

No ano 2000, a MB adquire da França o porta-aviões R-99 Foch, descomissionado pelo país gaulês e comissionado no Brasil como A-12 São Paulo e transformado em Nau Capitânia. Assim, a MB reativava de vez a sua capacidade aérea.

Mas as coisas não saíram como o planejado. A MB fez tudo certo, readquiriu os meios, retomou a doutrina e reaprendeu a operar aparelhos de alta performance em pleno mar aberto. Durante um brevíssimo período a MB foi capaz de operar dois porta-aviões e realmente projetar força sobre o mar. Mas o tempo passou, o Foch se mostrou uma ‘bomba’, apresentando defeito sobre defeito, e infelizmente ceifando a vida de alguns marinheiros. O tempo também chegou para os A-4, com a tecnologia atropelando os aviões, que ainda hoje aguardam uma modernização que se arrasta, ao passo que se continuar neste lento ritmo, quando a ultima célula for modernizada – se for – já estará obsoleta.

Com a retirada do A-12 São Paulo de serviço, a MB vai contra o decreto presidencial 2538 e sem a perspectiva de um novo porta-aviões nos próximos dez anos, fica então a pergunta no ar: o que fazer com a diminuta frota de A-4?

Qual utilidade o comando da Marinha vê no A-4? Que o pequeno jato da McDonnell é uma grande aeronave, isso ninguém duvida. A Marinha está de posse do melhor jato de ataque do inventário das Forças Armadas brasileiras, seria um desperdício de energia não fazer uso deles em caso de necessidade e um desperdício de dinheiro não fazer uso no treinamento e capacitação desses profissionais no dia-a-dia das Forças Armadas brasileiras.

A-4UK, redesignados AF-1. (Imagem: Anderson Gabino)

A Marinha poderia contribuir na missão de policiamento e defesa aérea do espaço aéreo brasileiro? Sim, mas incorreria em erro de finalidade com base no DP 2538 e, com toda a certeza, geraria um atrito desnecessário com a FAB.

Manter os aviões para “criar doutrina”, ou melhor, não perder a doutrina? Na verdade, quando os aviadores deixaram de serem catapultados e recolhidos, a doutrina foi perdida. Não se capacita essa gente em sala de aula ou hangar.

Seria interessante saber quais os planos da MB para o grande guerreiro. Perder novamente a capacidade aérea seria um ato de irresponsabilidade, algo que o comando da Marinha, composto por profissionais da mais alta competência, jamais permitiria.

(Imagem: Marinha do Brasil)

Analisando outras forças navais que passaram por semelhante estresse, como a Marinha Real quando da perda de seus porta-aviões, a MB tem sim escolhas. A mais óbvia seria a retirada do A-4 e aquisição de uma aeronave com capacidade V/STOL. Na atualidade, só existe o velho Harrier, na versão AV-8 dos Fuzileiros Navais dos EUA, aonde o USMC vai voar até por volta de 2030 com este tipo, portanto, a MB poderia sim adquirir dos estoques excedentes e operá-los sem a necessidade de um porta-aviões CATOBAR ou STOBAR.

A segunda opção seria o F-35B, o que colocaria a MB no estado-da-arte, dando a aviação naval uma capacidade superior a da FAB e seu Gripen E. O problema destas duas opções é o custo. Se a MB não teve dinheiro para consertar o A-12, vindo a perdê-lo, terá para adquirir Harriers ou F-35B? A resposta é um sonoro e gigantesco não.

A terceira – e ultima – opção seria atribuir ao A-4 o apoio aéreo aos Fuzileiros, assim como o AV-8 opera com o USMC, obviamente que resguardando as proporções, visto que o USMC leva os seus meios aéreos até o ponto mais próximo do campo de batalha. No caso da MB, os meios aéreos teriam de ir até o campo de batalha.

Enquanto a MB não se manifesta, o quê o amigo leitor acha? Qual destino a MB poderia dar para o A-4?


– Giordani –


Quer conhecer mais sobre este pequeno grande guerreiro? Clique aqui.

60 COMENTÁRIOS

  1. Finalmente leio um artigo sério que escapa daquele ufanismo infantil e comercial das revistas "especializadas" que "batem palma pra maluco". Primeiro, quando compramos o São Paulo, foi um oba-oba generalizado. Logo depois vieram os Skyhawk e foi a mesma coisa: confete pra tudo que é lado. Aí gastamos os tubos numa modernização meia-boca de um navio que até as sardinhas da baía da Guanabara sabiam que era idoso e que daria trabalho e gasto, só pra descobrir meses depois que tinha que gastar outro tanto e que a grana já tinha ido embora em outros projetos megalomaníacos como o SSN e os próprios A4. Isso quando começava a faltar o básico: escoltas.
    Agora sai a notícia que foi escolhido o consórcio vencedor das corvetas Tamandaré. Parece ser um belo projeto, mas 4, isso mesmo, QUATRO corvetas pra uma costa desse tamanho! E a gente torrando grana em SSN, num porta helicópteros e modernizando aviões de ataque projetados nos anos 50 para operar de terra. Belíssimo planejamento para uma marinha "oceânica"!!! 4 corvetas, com as fragatas Niterói e Greenhalgh no limite da vida útil….

Comments are closed.