Publicidade divulgando o voo ao redor do mundo realizado pela VARIG. (Coleção Marcelo Magalhães / Cavok)
Publicidade divulgando o voo ao redor do mundo realizado pela VARIG. (Coleção Marcelo Magalhães / Cavok)

Desde Fernão de Magalhães, capitão português que completou de forma inédita a circunavegação do globo, iniciada no ano de 1519, passando por Julio Verne e seu famoso romance de aventura “A Volta ao Mundo em 80 Dias” publicado em 1873, à humanidade nunca deixou de fascinar a ideia de contornar completamente a terra, pelo meio de transporte e com a tecnologia que estivesse então à disposição.

Quadro da Pan American Airways com propaganda do seu voo "round the world".
Quadro da Pan American Airways com propaganda do seu voo “round the world”.

Com o advento da aviação comercial, do desenvolvimento do motor a jato turbofan e dos aviões de grande porte, a volta ao mundo passou a ser uma realidade cada vez mais factível tanto sob o ponto de vista econômico como operacional.

Foto da partida desde o La Guardia, em New York, do voo inaugural de volta ao mundo da Pan American em 17 de junho de 1947, com o L-749 "Clipper America".
Foto da partida desde o La Guardia, em New York, do voo inaugural de volta ao mundo da Pan American em 17 de junho de 1947, com o L-749 “Clipper America”.

Com efeito, já no ano de 1947 a toda poderosa Pan American inaugurava com o Lockheed L-749 Constellation NC86520 “Clipper America” seu voo “round the world”, então o primeiro do tipo no mundo. Eram dois voos, um saindo de São Francisco em direção oeste (“PAA 1”) e escalando em Honolulu, Hong Kong, Bangcoc, Delhi, Beirut, Istambul, Frankfurt, Londres e Nova Iorque e outro partindo desta em direção leste (“PAA 2”) com paradas nos mesmos locais. Na verdade, não chegava a ser uma verdadeira volta ao mundo, pois a empresa não fazia a ligação transcontinental entre São Francisco e Nova Iorque. Entretanto, o PAA 1 e 2 tornaram-se famosos no mundo e foram seguidos por voos também em volta do mundo oferecidos pela inglesa BOAC e a australiana QANTAS.

Trajeto do voo em redor do mundo planejado pela Varig pela distância great circle.
Trajeto do voo em redor do mundo planejado pela Varig pela distância great circle.

Agora, o que poucos sabem, é que a “nossa Varig” considerou também operar um voo regular ao redor do globo, o que certamente teria sido algo inusitado para um país que na época tinha reduzida importância ou destaque no cenário global.

O fato é que após absorver a REAL e seu consórcio em 1961 e mais tarde – 1965 – receber as linhas da Europa até então concedidas à saudosa Panair do Brasil, a Varig tinha mais que dobrado sua milhagem internacional.

Manchete de nota publicada no Diário de Notícias em 1969 (Diário de Notícias).
Manchete de nota publicada no Diário de Notícias em 1969 (Diário de Notícias).

Já em maio de 1966, por ocasião da inauguração do voo para Beirute (destino que fora anteriormente servido pela Panair), matéria publicada no Jornal do Brasil, na edição do dia 6 informava que “Brevemente a Varig receberá novos aviões Boeing 707 do tipo 320C, com os quais dará início aos voos para Tóquio, que se estenderão pela Ásia até interligar-se com os de Beirute, completando a volta ao mundo”.

Folder da Varig, de meados dos anos 60, onde se pode observar a malha da empresa, ainda antes da inauguração do voo para o Japão, com a linha tracejada do possível percurso da volta ao mundo (arquivo Marcelo Magalhães)
Folder da Varig, de meados dos anos 60, onde se pode observar a malha da empresa, ainda antes da inauguração do voo para o Japão, com a linha tracejada do possível percurso da volta ao mundo (arquivo Marcelo Magalhães)

Também um folder da Varig editado em meados dos anos 60 – ainda antes da inauguração do voo para Tóquio -, mostra em linhas tracejadas a provável continuação da ligação para cidades mais à oeste da terra do sol nascente, terminando em Beirute para de lá prosseguir em direção à Europa e América do Sul…outro indício da rota de circunavegação almejada pela aérea.

O 707-341C PP-VJS, visto aqui em Los Angeles em 1978, teve papel de destaque na expansão da empresa para o extremo oriente, realizando o voo especial com Costa e Silva em 1967 e inaugurando o voo para o Japão no ano seguinte. (Foto: Ron Moore)
O 707-341C PP-VJS, visto aqui em Los Angeles em 1978, teve papel de destaque na expansão da empresa para o extremo oriente, realizando o voo especial com Costa e Silva em 1967 e inaugurando o voo para o Japão no ano seguinte. (Foto: Ron Moore)

O voo para o Japão (que fora explorado pela REAL em 1960 e 1961) foi efetivamente inaugurado em 26 de junho de 1968, com o Boeing 707-341C PP-VJS, sendo que no trecho transpacífico havia uma escala técnica em Honolulu no sentido oeste (substituída por Anchorage a partir de abril de 1969, por ser o percurso mais curto great circle), mas fazendo o retorno sem escalas devido aos ventos favoráveis de alta altitude prevalecentes no trecho.

Marechal Costa e Silva a bordo do PP-VJS, no voo especial que o levou de Hong Kong para Tóquio. O globon terrestre observado pelo mandatário era iluminado com a rota voada. (Coleção Marcelo Magalhães).
Marechal Costa e Silva a bordo do PP-VJS, no voo especial que o levou de Hong Kong para Tóquio. O globon terrestre observado pelo mandatário era iluminado com a rota voada. (Coleção Marcelo Magalhães).

É digno de nota que antes da inauguração do voo para o Japão, a Varig realizou uma espécie de viagem exploratória – e também a serviço do governo brasileiro, para verificar as condições de operação no Extremo Oriente, com o Boeing 707-341C PP-VJS. Tratava-se de transportar o então recém-eleito Presidente Marechal Costa e Silva, que se encontrava em Hong Kong, de retorno de sua viagem pela Europa e Ásia, iniciada em dezembro de 1966. O périplo do ‘VJS teve início na noite do dia 8 de janeiro de 1967, quando decolou do Rio para Lima. A bordo, o Presidente da Varig, Sr. Erik de Carvalho, a primeira dama D. Iolanda e a viúva de Ruben Berta – D. Vilma entre outros convidados. A tripulação técnica era composta pelos Comandantes José Schittini, Lili Souza Pinto e Carlos Homrich, navegadores Rafael Godinho e Aziz. Após Lima, o ‘VJS fez escalas em Los Angeles, Honolulu e Wake Island, chegando finalmente a Hong Kong no dia 11. No dia 13 de janeiro partiu com o Presidente Costa e Silva e comitiva para Tóquio, onde aterrissou após um voo de cerca de três horas. Tendo permanecido na terra do sol nascente por seis dias, o Marechal prosseguiu sua viagem a bordo do ‘VJS, com destino a Honolulu (Havaí). Partindo da capital japonesa às 10hs do dia 19, o 707 da Varig pousou no arquipélago havaiano às 21h35 do dia anterior, 18 (tendo em vista o cruzamento da linha internacional da data). Após uma breve estada em Honolulu, Costa e Silva embarcou mais uma vez a bordo do ‘VJS que decolou então às 10h23 da manhã do dia 20 com destino a Los Angeles, onde pousou na noite daquele mesmo dia.

Foto da chegada ao japão do PP-VJS, em 28 de junho de 1968, inaugurando os voos regulares da Varig para o Japão. (coleção Marcelo Magalhães)
Foto da chegada ao japão do PP-VJS, em 28 de junho de 1968, inaugurando os voos regulares da Varig para o Japão. (coleção Marcelo Magalhães)

Foi uma viagem considerada um sucesso, tendo tudo transcorrido normalmente, sem grandes imprevistos. Certamente, atestava a capacidade da Varig em realizar deslocamentos de grande extensão para uma região então desconhecida para a empresa, mas que estava nos seus planos de expansão e por onde passariam necessariamente as aeronaves no voo em volta do globo.

O PP-VJS é recebido por uma banda de música em Tóquio, trazendo Costa e Silva desde Hong Kong. (Diário de Notícias)
O PP-VJS é recebido por uma banda de música em Tóquio, trazendo Costa e Silva desde Hong Kong. (Diário de Notícias)

Matérias sobre a eventual rota ao redor do planeta a ser aberta pela Varig continuavam a ser veiculadas: o Diário de Notícias do Rio de Janeiro, em sua edição de 18 de novembro de 1967, informava em manchete na seção de “Notícias Aeronáuticas” que a “Varig Caminha Agora para Linha de Volta ao Mundo”. Citava que após a inauguração do voo para o Japão, prevista para ocorrer no ano seguinte a intenção da aérea era prosseguir rumo oeste, até Beirute, ponto já servido pela companhia.

Propaganda da Varig de 1969, quando a empresa ainda mantinha o sonho da rota em redor do globo. (Diário de Notícias)
Propaganda da Varig de 1969, quando a empresa ainda mantinha o sonho da rota em redor do globo. (Diário de Notícias)

Mas como seria efetivamente o trajeto do voo round the world “variguiano”? O plano, segundo a mesma matéria do Diário, seria estender o voo de Tóquio para Hong Kong, e dali para Bangcoc, Calcutá, Teerã e Beirute (voltando dali para o Brasil, com escala em Roma).

Um voo assim teria mais de 25 mil milhas e exigiria um investimento vultoso em lojas, balcões, funcionários, contratação de catering e apoio em solo em cada uma das escalas.

Timetable da Varig do ano de 1969, com os horários do voo para Tóquio, notando-se a escala técnica em Honolulu. (coleção Marcelo Magalhães)
Timetable da Varig do ano de 1969, com os horários do voo para Tóquio, notando-se a escala técnica em Honolulu. (coleção Marcelo Magalhães)

Ainda em 1969 a ideia de circular o globo não havia arrefecido e uma propaganda da companhia chamava a atenção para o fato de então a Varig cobrir com sua malha internacional, 232º da circunferência terrestre e ir “completando a volta ao mundo”.

O fato é que a tal rota em redor do mundo nunca chegou a ser inaugurada pela Varig e teria sido talvez uma temeridade, já que na época era muito pouco o interesse pelo Brasil ou pelos brasileiros na Ásia, com exceção do Japão que sempre teve fortes laços com nosso país. Também não havia grande demanda de negócios ou mesmo carga que justificassem tal investimento.

Em 1993, com o Boeing 747-400, a Varig inaugurou sua mais longa rota, do Rio para Hong Kong. Aqui o PP-VPI na escala do voo de entrega para a Varig em 1991, ainda com as nacelles azuis da Canadian Pacific, que havia encomendado a aeronave originalmente, mas desistiu da compra. (coleção Marcelo Magalhães)
Em 1993, com o Boeing 747-400, a Varig inaugurou sua mais longa rota, do Rio para Hong Kong. Aqui o PP-VPI na escala do voo de entrega para a Varig em 1991, ainda com as nacelles azuis da Canadian Pacific, que havia encomendado a aeronave originalmente, mas desistiu da compra. (coleção Marcelo Magalhães)

No ano de 1993 a Varig quase voltou a concretizar o acalentado sonho da volta ao mundo, quando em 15 de janeiro inaugurou o voo para Hong Kong (RG828), partindo do Rio, com escalas em São Paulo, Johanesburgo e Bangcoc, operado pelo Boeing 747-400. Com efeito, bastava completar a ligação entre Hong Kong e Tóquio para que fosse fechado o circulo em volta da terra pela Varig.

Marcelo Magalhães é advogado em Porto Alegre, fotógrafo e pesquisador de aviação comercial nacional e internacional. Fundador da Radar Associação Aeronáutica, que mantinha uma revista impressa de aviação na década de 1980 e 1990, e também colaborou com fotos para as principais revistas de aviação do Brasil. Atualmente está escrevendo um livro sobre a história do Boeing 707 e sua operação pelas empresas aéreas brasileiras e pela FAB.

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11 COMENTÁRIOS

  1. Saudosa Varig… época de ouro na aviação comercial brasileira.

    Excelente artigo, Valduga!

  2. Excelente história , muito bom deliciar-se com um bom tempo de leitura de boa qualidade , que venha muito mais matérias assim!!!

    • Não tenho certeza, mas acho que tudo começou com esses planos idiotas do governo(Sarney e Collor). A Guerra do Golfo (90-91) tb prejudicou bastante com os preços dos combustíveis, que o governo proibiu de repassar os custos. No fim, não foi só a VARIG, a VASP e a Transbrasil tb foram prejudicada.
      Como sempre, o governo mais atrapalha que ajuda

  3. Parabéns, ótima matéria.
    Realmente era incrível viajar pela VARIG, a comida, o atendimento, o vinho e o whisky, ainda mais comparando com as de hoje. Mas tinha um preço, viajar era para poucos.

  4. Quando criança ouvia falar de Boeing como sinônimo de avião grande, não como uma marca e também de Varig como sinônimo de transporte aéreo. O Brasil foi muito bem representado mundo afora pela Viação Aérea Riograndense, um ícone que permanece até hoje na cabeça de muitos ainda. Boeing e Varig, ótimas recordações.
    Ao editor parabéns pela matéria.

  5. Parabéns ao Cavok…

    Matéria muito legal.

    Só faltou dizer que VARIG significava

    Vários Alemães Roubam Inocentes Gaúchos.

    Desculpem os amigos gaúchos, mais não resisti…

    KKKKKKK

    • Só mais uma matéria legal! Quer feijão com arroz? Vai para o blog da aviação inimiga!

  6. Juntar aviação, VARIG, Boeing 707, uma matéria excelente como esta, fácil leitura, mas com riquíssimas informações, eu poderia varar a noite lendo que nem notaria o dia amanhecer.
    Parabéns e que possam vim mais e mais matérias como esta!

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