A aeronave da Varig Boeing 707-345C, prefixo PP-VJX, vista em Miami em 1979. (Foto: Ugo Vicenzi / Arquivo pessoal Marcelo Magalhães / Cavok)
A aeronave da Varig Boeing 707-345C, prefixo PP-VJX, vista em Miami em 1979. (Foto: Ugo Vicenzi / Arquivo pessoal Marcelo Magalhães / Cavok)

Caso único na aviação comercial mundial, o Boeing 707-345C PP-VJX, da Varig, foi sequestrado nada menos do que em três oportunidades diferentes – todas para Cuba, num intervalo de menos de seis meses! Estes eventos de pirataria aérea valeram ao avião o apelido um tanto sarcástico, por parte dos tripulantes da empresa, de “Expressinho Cubano”.

O PP-VJX já no primeiro sequestro, em SCL (Arquivo Marcelo Magalhães)
O PP-VJX já no primeiro sequestro, em SCL (Arquivo Marcelo Magalhães)

O primeiro sequestro ocorreu em 4 de novembro de 1969, quando o ‘VJX fazia o trecho Buenos Aires/Santiago do Chile do voo RG863, originado no Rio de Janeiro (Galeão). Com 89 passageiros e 12 tripulantes e tendo à frente o veterano comandante Geraldo Werner Knippling, os sequestradores – nove homens e uma mulher – armados com pistolas, exigiram que o voo fosse desviado para Havana, quando já em altitude de cruzeiro sobre o pampa argentino, cerca de 30 minutos após sua decolagem de Ezeiza. Porém, como o combustível não fosse suficiente para um deslocamento direto à ilha caribenha, a aeronave prosseguiu para Santiago, onde além de ser reabastecida, uma mulher grávida e seu marido puderam desembarcar.

A rota do primeiro sequestro.
A rota do primeiro sequestro.

Os sequestradores declararam-se membros do grupo terrorista brasileiro “Frente de Libertação Nacional” e disseram que passariam por treinamento militar em Cuba para formação em técnicas de guerrilha.

Escala para reabastecimento nas Bahamas, no primeiro sequestro. (Arquivo Marcelo Magalhães)
Escala para reabastecimento nas Bahamas, no primeiro sequestro. (Arquivo Marcelo Magalhães)

Reabastecido, o ‘VJX decolou às 17h33 da capital chilena em voo direto para Havana, de cerca de dez horas de duração, aterrissando no Aeroporto José Marti às 1h28 da manhã do dia 5 (hora de Brasília). Durante todo o percurso, o comandante Knippling manteve contato via rádio HF com a Diretoria de Operações da Varig no Rio de Janeiro (até a vertical da Cidade do Panamá) e depois com Nova Iorque.

Além do comandante Knippling, compunham a tripulação do ‘VJX: Abel Flores, 1º oficial; Alfredo Sampaio, 2º oficial; Eiji Tookun, F/E e os comissários Eduardo Benfato, Valmor Book, Eliezer C. de Oliveira, Raya, Paulo C. Pereira, Aldo Rodrigues, Antônio Eduardo Souza, Shirley Wisse e Arlete Karylene Anneguim.

Charge da década de 1970.
Charge de 1970 sobre o PP-VJX.

Como os sequestros para Cuba fossem comuns na época, a Varig já tinha colocado em seus voos internacionais tendo como destino os Estados Unidos e países da América Latina, um conjunto de cartas com os procedimentos de aproximação do aeroporto de Havana para o caso de evento semelhante – o que se mostrou providencial naquele fatídico 4 de novembro de 1969.

Em Havana, o ‘VJX ficou retido por quase quinze horas, tendo seus ocupantes sido desembarcados e submetidos a rápido interrogatório pelas autoridades locais. Depois, passageiros e tripulantes foram levados ao Hotel Riviera. A partida de volta para o Rio de Janeiro deu-se às 16h52 do dia 5, com escalas em Nassau, Bahamas, para reabastecimento e em Caracas (Aeroporto Internacional de Maiquetía). A parada na capital venezuelana decorreu de decisão tomada pelo Comandante Knippling, que ordenou que fossem desembarcados quatro passageiros que insistiam que o avião voasse diretamente para Santiago do Chile – inclusive um deles ameaçou sequestrar novamente a aeronave se não fosse atendido!

A rota do segundo sequestro para Cuba.
A rota do segundo sequestro para Cuba.

Finalmente, às 18h26 do dia 6, o ‘VJX pousava no Galeão, sendo imediatamente cercado por soldados da Polícia da Aeronáutica, com os passageiros e tripulantes levados ao QG da 3ª Zona Aérea, onde foram interrogados até às 21h30.

Entretanto, a carreira de sequestros de que seria alvo o ‘VJX mal havia começado, pois o segundo voo forçado para Cuba aconteceria apenas três semanas depois…

Dessa feita, o ‘VJX realizava o RG827 de Londres (Heathrow) para o Rio, com escala em Paris (Orly). Tendo decolado da capital francesa às 18h48 do dia 28 de novembro, quando passava sobre a vertical da cidade de Lago, ao sul de Portugal, um homem de nacionalidade argelina, armado com uma pistola e um punhal, invadiu a cabine de comando, anunciando o sequestro e demandando o desvio do avião para Havana. Encontravam-se a bordo 81 passageiros e 15 tripulantes, sendo estes últimos: Rubens Eichemberg Costa, comandante; Délio Lima, 1º oficial; Antônio Carlos Silva, 2º oficial; Válter Escobar, 3º oficial; Ivo Rocha da Silveira, F/E; Gustavo João dos Santos, F/E; Egon Baumer, navegador; além dos comissários de vôo Maurício Leal, Teodor Seldeger, Thomas Hardy, Aristeu Gomes de Sá, Fernando Albuquerque, Lauro José Bartor de Almeida, Altair Mazzucco e Leila Palmer.

Passageiros desembarcando do VJX na escala em Caracas, na volta para o GIG, no segundo sequestro. (Arquivo Marcelo Magalhães)
Passageiros desembarcando do VJX na escala em Caracas, na volta para o GIG, no segundo sequestro. (Arquivo Marcelo Magalhães)

Previamente ao pouso em Havana, uma escala em San Juan de Porto Rico foi realizada, onde o ‘VJX foi reabastecido e a tripulação munida de cartas de rota e de aproximação para a capital cubana (o “kit Havana” não era carregado nos voos da Varig para a Europa).

Em Havana, aonde chegou ao amanhecer do dia 29, o ‘VJX permaneceu por 19 horas e 23 minutos, tendo os passageiros e tripulação sido hospedados no Hotel Riviera. Antes, ainda no Aeroporto José Marti, passaram pelo tradicional interrogatório efetuado por agentes da polícia cubana, que solicitava de cada um o nome completo e profissão.

Foto do Hotel Riviera, em Havana, onde ficavam os tripulantes e passageiros durante os sequestros.
Foto do Hotel Riviera, em Havana, onde ficavam os tripulantes e passageiros durante os sequestros.

À noite o 707 foi liberado para prosseguir viagem para o Rio de Janeiro, fazendo uma escala em Caracas onde foi reabastecido, inclusive com o catering que estava já esgotado. O ‘VJX pousou finalmente no Galeão às 13h52 do dia 30, encerrando o segundo sequestro em menos de um mês sofrido pela aeronave.

Chamada do Jornal Correio da Manhã, anunciando a volta do PP-VJX para o Rio, após o segundo sequestro. (Arquivo Marcelo Magalhães)
Chamada do Jornal Correio da Manhã, anunciando a volta do PP-VJX para o Rio, após o segundo sequestro. (Arquivo Marcelo Magalhães)

O último sequestro do “Expressinho Cubano” ocorreu no dia 12 de março de 1970, quando o ‘VJX realizava o vôo RG862 de Santiago do Chile para Nova Iorque com escalas em Buenos Aires e Rio de Janeiro.

Capa do Timetable de 1969. No final de 1969 a Varig tinha nove 707 na frota, dois CV-990 e um DC-8-33.
Capa do Timetable de 1969. No final de 1969 a Varig tinha nove 707 na frota, dois CV-990 e um DC-8-33.
O mapa de rotas da RG de 1969 - ano dos dois primeiros sequestros.
O mapa de rotas da RG de 1969 – ano dos dois primeiros sequestros.

Alguns minutos após decolar de Santiago para a capital argentina, quando na vertical da cidade de Mendoza, localizada no sopé da Cordilheira dos Andes, o comandante Floriano Bortolo Scalabrim – então piloto chefe da Varig – foi surpreendido pela informação vinda de um comissário de que um homem havia feito uma aeromoça (Ana Baraldi) refém, apontando-lhe uma arma para seu pescoço e ordenando o desvio do avião para Cuba. Como o combustível não fosse suficiente para o trajeto, Scalabrim solicitou retorno a Santiago, onde o avião foi reabastecido, decolando novamente às 20h30 (hora de Brasília), agora para Havana. A bordo do ‘VJX encontravam-se 28 passageiros e 13 tripulantes. Além do comandante Scalabrim, compunham a tripulação Válter Fonseca, 1º oficial; Valmir de Castro Sá, 2º oficial; Gustavo João dos Santos, F/E; Jairo Morais Pohlmann, F/E e, como comissários, Carlos Alberto, Brian, Tietzmann, Resende, Dos Passos, Wellington Silva, Joice Galagham e Ana Baraldi.

O "PP-VJX", depois de sua vida na aviação comercial, passou a operar na FAB como aeronave KC-137 do 2°/2° GT, como "FAB 2402". (Foto: Rosvalmir Afonso Delagassa)
O “PP-VJX”, depois de sua vida na aviação comercial, passou a operar na FAB como aeronave KC-137 do 2°/2° GT, matrícula “FAB 2402”. (Foto: Rosvalmir Afonso Delagassa)

O ‘VJX pousou em Havana às 4h30 (hora de Brasília) do dia 13, tendo seus ocupantes mais uma vez sido alojados no Hotel Riviera que já se notabilizara por receber passageiros e tripulantes sequestrados. Dessa vez, no entanto, a estada do ‘VJX na ilha de Fidel Castro foi mais demorada do que de costume e a aeronave só foi liberada pelas autoridades cubanas para retornar ao Brasil no dia 15, tendo decolado do Aeroporto José Marti às 19h30 (hora de Brasília), pousando em Caracas às 23h30 (hora de Brasília). Quarenta minutos depois, o 707 partia para o Galeão, onde aterrissou às 5h55 da manhã do dia 16 de março.

Na mesma noite o ‘VJX assumiu o RG800 para Miami, com escala em Belém do Pará, continuando a cumprir, com hombridade, a missão de transportar cargas e passageiros para os mais diversos recantos do globo servidos pela Varig.

Outra imagem do Boeing 707 "PP-VJX", conhecido como "Expressinho Cubano"
Outra imagem do Boeing 707 “PP-VJX”, conhecido como “Expressinho Cubano”

Sem sofrer mais nenhum sequestro, o ‘VJX operou para a empresa gaúcha até novembro de 1986, quando foi vendido para a FAB e transformado em versão KC-137. A seguir, operou como FAB 2402 em missões de transporte e reabastecimento em voo até junho de 2013 quando foi desativado.

Marcelo Magalhães é advogado em Porto Alegre, fotógrafo e pesquisador de aviação comercial nacional e internacional. Fundador da Radar Associação Aeronáutica, que mantinha uma revista impressa de aviação na década de 1980 e 1990, e também colaborou com fotos para as principais revistas de aviação do Brasil. Atualmente está escrevendo um livro sobre a história do Boeing 707 e sua operação pelas empresas aéreas brasileiras e pela FAB.

Nota do Autor: A presente matéria foi publicada originalmente por Marcelo Magalhães no site Aeroentusiasta em janeiro de 2014 e é aqui reproduzida com a autorização do Autor.

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8 COMENTÁRIOS

  1. Fantástico esse artigo Marcelo!!!
    Parabéns
    Seja bem vindo ao mundo Cavok

  2. Sensacional estória, sempre nos surpreendendo.
    Voei como passageiro no FAB 2402 algumas vezes e nunca imaginei tal "karma" do coitado rsrs

  3. Bela matéria. Gostaria apenas de ver os nomes dos sequestradores inclusos nela.

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