A aeronave chinesa COMAC 919.

A imagem mais provável que vêm à mente ao pensarmos na China atual é a de mega construções, hiper população e de indústrias impetuosas. O país asiático deixou para trás a imagem fragmentada de sua relação mercantil e se tornou referência no desenvolvimento de produtos e softwares inovadores e de alto valor percebido.

Em um país com forte base na agricultura, as alternativas industriais têm crescido substancialmente ao longo dos últimos 50 anos. Hoje, uma infinidade de produtos do país com a maior população do planeta é acessível aos quatro cantos do globo em um piscar de olhos.

Contudo, a aviação comercial chinesa jamais conseguiu desenvolver aeronaves para competir com as grandes fabricantes ocidentais. A partir deste problema, a China estabeleceu em 2008 a Commercial Aircraft Corporation of China, ou Comac, visando preencher esta lacuna fabril. Além desta divisão de aeronaves comerciais, o estado chinês ainda detêm empresas como a Aviation Industry Corporation of China (AVIC) e suas 27 subsidiárias.

A história da Comac inicia-se em Pudong, um dos 16 distritos da maior cidade do país, Xangai. Fundada com um viés extremamente focado na implementação de grandes programas de aeronaves de passageiros, a companhia foi estabelecida por diversas empresas do Estado da República Popular da China.

A missão da empresa é explícita e repetitiva: “To let China-made large aircraft fly in the blue sky.” O grande sonho da indústria aeronáutica chinesa é o de desenvolver um modelo de negócio escalável e que possa oferecer um produto melhor do que a concorrência para atender a crescente demanda de passageiros.

Dentro dessa abordagem, a China é o segundo maior mercado de aviação comercial do mundo e, até então, a dependência por aeronaves do ocidente ainda é enorme. As principais linhas aéreas nacionais, como a Air China, China Eastern Airlines, China Southern Airlines e Shenzhen Airlines operam uma ampla variedade de jatos Boeing e Airbus.

Em detrimento disso, a criação da Comac é justificável, pelo menos para o Estado chinês. A estratégia do governo é baseada na inserção de aeronaves da fabricante nas companhias aéreas do país, reduzindo a dependência de aeronaves desenvolvidas em outros países.

Em outros modais de transporte público a China é praticamente autossuficiente. A CRRC Corporation Limited é a maior empresa de locomotivas do mundo, na frente de gigantes como a Alstom e a Siemens Mobility. No segmento de ônibus mid e large, a King Long United Automotive e a Zhengzhou Yutong dominam o mercado, compondo em conjunto mais de 65% do market-share.

A partir dessa estratégia, a Comac vem desenvolvendo duas aeronaves principais em sua linha de frente, o ARJ21-700 e o C919. O primeiro modelo em ordem respectiva possui capacidade para aproximadamente 90 passageiros e um alcance de 1,200 NM (2,200 km).

No período da redação desse texto, o ARJ21 está sendo operado pela Genghis Khan Airlines, Urumqi Air e pela Chengdu Airlines.

Compondo traços similares ao clássico jato estadunidense McDonnell Douglas MD-80, o ARJ21 possui na dissolução de seu acrônimo o termo “Advanced Regional Jet”. Assim, a Comac aposta no jato para voos regionais, acumulando pedidos de companhias aéreas regionais chinesas e empresas de leasing. Além dos demais pedidos das atuais operadoras, fortes players estatais anunciaram recentemente pretensões de compra, incluindo a Air China, China Southern e a China Eastern.

Por outro lado, o Comac C919 ainda está fora de operação e vem sendo desenvolvido para voos de teste. Atualmente, quatro protótipos já foram construídos e sua introdução está prevista para 2021 com a China Eastern Airlines.

O C919 possui capacidade para 168 passageiros em classe única e um alcance de 2,200 NM (4,075 km). Observa-se uma capacidade de transporte de passageiros similar a jatos da mesma categoria, como o Boeing 737 e o Airbus A320, embora o alcance da aeronave chinesa seja menor.

De acordo com o FlightGlobal, o Comac C919 possui 305 pedidos firmes de companhias aéreas e empresas de leasing, sendo mais de 700 opções de compra.

Sem entrar no mérito quantitativo, pode-se auferir que os pedidos de aeronaves da Comac são compostos de forma representativa por empresas de leasing e companhias aéreas chinesas.

Desta maneira, somado ao constante aporte de capital por parte do governo chinês e o crescimento exponencial do mercado doméstico, a Comac vislumbra um caminho próspero dentro de sua estratégia de desenvolvimento.

Contudo, inserido no contexto internacional, a tendência é de que no curto prazo os jatos chineses não tenham potencial competitivo para encarar companhias fortemente estabelecidas, como Boeing, Airbus e Embraer. Além disso, as agências reguladoras dos Estados Unidos (FAA) e da União Europeia (Easa) ainda não reconhecem a certificação dos jatos chineses, limitando seu potencial de expansão.

Portanto, as condições para o crescimento da estatal estão criadas, basta saber qual será a estratégia adotada e a aceitação por parte dos operadores.

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1 COMENTÁRIO

  1. Se provarem que o produto é bom, e com preço ao estilo clássico chinês, com certeza ganhará o ocidente. Em médio prazo deverá causar muita dor de cabeça para os dois gigantes Boeing e Airbus.

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