A Phantom F-4D in flight over Vietnam in 1971Muitos pensam que os EUA lutaram sozinhos na Guerra do Vietnã.

Matéria divulgada originalmente em julho de 2014, escrita pelo LaMarca (In Memoriam), e reproduzida para comemorar os 10 anos do Cavok.

Como um membro do SEATO (Organização do Tratado do Sudeste Asiático) e ANZUS (Aliança Militar defensiva no Pacífico Sul, formada por Austrália, Nova Zelândia e EUA), a Austrália começou o seu envolvimento na Guerra do Vietnã, em 1962, com o envio de um grupo de 30 conselheiros militares. Durante 13 longos anos, a Guerra do Vietnã se tornou o conflito mais polêmico da história da Austrália, que teve uma participação significativa ao lado dos EUA. Aproximadamente 61.000 australianos serviram na guerra; 521 foram mortos (14 da RAAF) e mais de 3.000 ficaram feridos.

A Real Força Aérea Australiana (RAAF) começou o seu envolvimento na guerra em 1964, quando, através de aeronaves DHC-4 Caribou, começou a voar operações de transporte para o Vietnã do Sul.
A Real Força Aérea Australiana (RAAF) começou o seu envolvimento na guerra em 1964, quando, através de aeronaves DHC-4 Caribou, começou a voar operações de transporte para o Vietnã do Sul.

Em 06 de junho de 1966, oito helicópteros Bell UH-1 Iroquois do 9º Esquadrão da RAAF pousaram na Base Aérea Vung Tau, Vietnã do Sul. O Iroquois ou “Huey”, que são quase um sinônimo da Guerra do Vietnã, apoiariam as atividades da primeira Força-tarefa australiana (1ATF).

O 9º Esquadrão possuía experiência em conflitos, haja vista havia realizado operações marítimas durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1962, a unidade foi reformada, tendo sido relocada para Base Aérea de Fairbairn, em Canberra, capital da Austrália.

A RAAF possuía dois esquadrões de helicópteros, o outo, 5º Esquadrão, estava servindo na Malásia, desde 1964. Quando foi anunciado, em março em 1966, que um esquadrão de helicópteros seria enviado ao Vietnã, chegou-se a pensar que um novo grupo seria criando, entretanto a RAAF optou por enviar o 9º Esquadrão ao Vietnã, e o 5º Esquadrão voltaria para Austrália.

Chegada dos Huey da RAAF em Vung Tau, Vietnã, a bordo do HMAS Sydney
Chegada dos Huey da RAAF em Vung Tau, Vietnã, a bordo do HMAS Sydney

Os Huey realizaram diferentes tipos de missões: Pulverização de herbicidas e pesticidas, lançamento de folhetos, reconhecimento, infiltração e extração das tropas, ataque, escolta, assalto aerotransportado e salvamento em combate. O esquadrão, que apoiava as operações realizadas pelos australianos, acabou voando 237.424 missões. Entre julho de 1967 e novembro 1971, 16 oficiais da Royal New Zealand Air Force serviram junto ao grupo.

Helicópteros Huey da RAAF realizando extração de soldados australianos após a Oparação Ulmarra, em agosto de 1967.
Helicópteros Huey da RAAF realizando extração de soldados australianos após a Oparação Ulmarra, em agosto de 1967.

Em 1968, a frota foi aumentada para 16 helicópteros. O 9º Esquadrão voou sua última missão no Vietnã em 19 de novembro de 1971. Em dezembro daquele ano as aeronaves retornariam para Austrália à bordo do HMAS Sydney.

Em abril de 1967, um esquadrão composto por 8 bombardeiros Canberra chegou ao país, onde permaneceria até 1971.

Canberra aircrews on arrival at Phan Rang, 1967

Baseados na Base Aérea de Phan Rang, na provincia de Ninh Thuan, os Canberra da RAAF se integraram ao 35º Esquadrão de Aviação Tática da USAF (35º TFW), onde permaneceram até junho de 1971. Os Canberra executaram cerca de 12.000 missões; embora inicialmente o esquadrão tenha realizado ataques noturnos, a maioria de suas operações foi realizada à luz do dia, tendo conseguido uma elevada taxa de sucesso, equivalente a 16% de todos os danos causados pelo 35º TFW, mesmo voando apenas o equivalente a 5% das missões de todo o grupo. Segundo as estatísticas, 76.389 bombas foram lançadas, 786 soldados inimigos foram mortos instantaneamente em consequência direta dos bombardeios e mais 3.390 vieram a óbito em consequência dos ferimentos, além disso, foram destruídos 15.568 bunkers, 1.267 embarcações (sampans) e 74 pontes.

RAAF Canberra in action, Vietnam

Cinco tripulantes foram mortos durante a guerra, e dois Canberra foram derrubados em 1970 e 1971. O primeiro, abatido por um míssil terra-ar, porém o piloto conseguiu se ejetar e os demais membros da tripulação, através de uma escotilha, saltaram de paraquedas. Todos foram resgatados com segurança. A outra aeronave foi abatida durante uma sortida nos arredores de Danang (no centro do Vietnã), e os membros da tripulação não foram resgatados, tenso sido declarados “desaparecidos em ação”. Em 2009, os destroços da aeronave foram localizados e os restos mortais da tripulação encontrados e transladados para Austrália.

Entre 1965 e 1971, a RAAF e a USAF realizaram um extenso programa de treinamento de pilotos/tripulantes, na Carolina do Sul – EUA, onde os australianos aprenderam, não só a voar a aeronave, mas também técnicas de combate aéreo.

 

Pilotos australianos em treinamento nos EUA.
Pilotos australianos em treinamento nos EUA.

Durante o treinamento nos EUA, a guerra do Vietnã se tornara mais intensa; foi quando o governo australiano autorizou o envio de seu pessoal ao Vietnã do Sul (Tan Son Nhut Air Force Base), que era considerado um teatro de operações menos hostil (se comparado ao Vietnã do Norte, Camboja e Laos), a fim de se obter experiência real em combate, voando, basicamente (mas não unicamente), missões de reconhecimento tático a bordo dos RF-4C da USAF, tanto de dia, quanto à noite.

A alocação do pessoal da RAAF no Vietnã do Sul, nos Phantom, ocorreu em 1968. Pelos requerimentos, cada dupla (piloto/tripulante) voaria uma turnê (100 missões), após a qual, seria enviado de volta aos EUA, em rodízio. Algumas duplas, inclusive, retornaram à zona de conflito para novas turnês.

Apenas 6 pilotos da RAAF voariam em missões com os Phantom durante toda a guerra e a primeira sortida de um piloto australiano no Vietnã foi realizada pelo líder de esquadrão Lyall Klaffer. As aeronaves utilizadas nas missões de reconhecimento tático foram especialmente identificadas, com um canguru pintado em vermelho na parte frontal da aeronave, rodeada das seguintes palavras: “CAROLINA KANGAROO” / “HAVE CAMERA – WILL TRAVEL”.

 

O nome "Carolina Kangaroo" faz menção/homenagem tanto ao Estado da Carolina do Sul, quanto ao símbolo da Austrália. Observar o canguru pintado em vermelho no capacete do piloto.
O nome “Carolina Kangaroo” faz menção/homenagem tanto ao Estado da Carolina do Sul, quanto ao símbolo da Austrália. Observar o canguru pintado em vermelho no capacete do piloto.

Apesar de existir uma orientação explicita para que os australianos atuassem apenas no Vietnã do Sul, os imprevistos da guerra mudaram a regra do jogo e algumas missões com pessoal da RAAF também foram executadas no Vietnã do Norte.

 

Os tanques de combustíveis externos dos RF-4C também eram especialmente identificados.
Os tanques de combustíveis externos dos RF-4C também eram especialmente identificados.

As missões de reconhecimento tático com os RF-4C não seriam as únicas a serem realizadas pelos pilotos australianos, que também voaram com caças F-4D americanos em missões de combate, nesse caso, as aeronaves eram identificadas pelas insígnias tanto da USAF, quanto da RAAF.

A Austrália se mostrara um aliado fiel, entretanto, a partir de 1973 a participação dos australianos se limitou a missões humanitárias.

Duas ambulâncias do exército australiano na pista de pouso da Base Aérea de Vung Tau, no Vietnã do Sul, descarregando pacientes para evacuação aérea a bordo de um C-130 da RAAF, para serem tratados na Austrália.
Duas ambulâncias do exército australiano na pista de pouso da Base Aérea de Vung Tau, no Vietnã do Sul,
descarregando pacientes para evacuação aérea a bordo de um C-130 da RAAF, para serem tratados na Austrália.

No final do conflito, com o cerco dos norte-vietnamitas e do vietcong, o caos se instalou. Para a população do Vietnã do Sul, a situação era catastrófica. Havia um verdadeiro êxodo de pessoas que tentavam sair da cidade de qualquer maneira. Milhares de órfãos, a maioria muito jovem para avaliar a gravidade da situação, eram reféns de um cenário apocalíptico. Alguns tinham sido escolhidos para adoção na Austrália, enquanto outros tinham casas esperando por eles nos EUA. No início de abril 1975, ambos os países começaram a transportá-los em uma série de voos conhecidos como “Operação Babylift”. Em 4 de abril, dois dias depois dos americanos anunciaram a operação, duas aeronaves C-130 da RAAF estavam no aeroporto de Saigon, juntamente com um Galaxy da USAF. Em cada aeronave australiana, carregada de crianças e bebês, as de maior estatura eram acomodadas em macas, e as menores em caixas de papelão espalhadas ao longo do assoalho, todas com mamadeiras com água entre os lábios, a fim de aliviar a dor causada pela mudança de pressão. Repletos de refugiados, a aeronave americana decolou primeiro, seguida, pouco depois, pelos Hércules da RAAF.

Poucos minutos após a decolagem, um desastre aconteceu. Com 243 crianças, seus acompanhantes, pessoal médico e tripulação a bordo, a porta de carga do Galaxy explodiu. Os pilotos tentaram retornar, mas a 2 km do aeroporto, a aeronave atingida bateu no chão, saltou sobre o rio Saigon e explodiu. 175 pessoas sobreviveram ao acidente, entretanto mais de 150 morreram, das quais, 78 eram crianças.

Do lado australiano, tudo correra bem e poucas horas depois, os dois Hércules pousaram no aeroporto de Don Mueang, em Bangkok, na Tailândia, e desembarcaram 194 crianças e bebês, bem como os três médicos e vinte enfermeiros que tinham cuidados dos bebês.

Em 26 de abril de 1975 a “Operação Babylift” terminaria com um saldo de mais de 3 mil órfãos resgatados. Durante todo o período, houve presença ativa das aeronaves da RAAF.


TEXTO: LaMarca

FONTE/IMAGENS:

Royal Australian Air Force Association
Department of Veteran’s Affairs
Australia and the Vietnam War
National Library of Australia (subject search: Vietnam War)
Australian War Memorial

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