Helicópteros Dhruv da Fuerza Aerea Ecuatoriana estão parados após vários acidentes e complicadas negociações.

Quando uma força aérea adquire equipamentos para seu uso, os mesmos sempre são estudados e testados para que comprove sua eficiência e segurança para cumprir cada uma das missões em que são enviados. A história de hoje é a prova que isso tem que ser feito.

O ano era 2008, o dia: 11 de março. O presidente do Equador na época, Rafael Correa ia à imprensa para confirmar um ataque de forças colombianas dentro de território equatoriano. A nomeada pelas forças colombianas Operação Fénix havia atacado um acampamento de guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) na área de Angostura, no Equador, 10km da fronteira com a Colômbia. O ataque tinha como alvo o segundo comandante das FARC, Raúl Reyes, que se encontrava no local junto de mais 22 guerrilheiros. A operação foi um sucesso para as forças colombianas, que liquidaram o alvo e todos os guerrilheiros que se encontravam no acampamento naquela noite. O ataque produziu uma crise diplomática entre a Colômbia, Equador e Venezuela (que serviu para esquentar os ânimos na crise) que durou ao longo do mês de março de 2008.

O HAL Dhruv foi a escolha da FAE para um helicóptero de SAR e emprego geral. (Foto: Santiago Chavarría/Aeromundo)

Esta crise diplomática foi o estopim para um reequipamento das forças armadas do Equador e uma das aquisições mais emergenciais eram de helicópteros para a Força Aérea do Equador (FAE), que se destinariam ao sistema de busca e resgate (SAR) dessa força. Para tal aquisição, se fez um processo de escolha entre helicópteros oferecidos pela francesa Eurocopter, a israelense Elbit, a indiana Hindustan Aeronautics Limited (HAL) e a russa Rosvertol, que culminou na compra de sete helicópteros Dhruv, da HAL por US$ 45 milhões, incluindo helicópteros, assessoria técnica, garantia de dois anos e treinamento de pessoal. O processo, segundo os militares equatorianos na época, foi baseado em critérios técnicos, nos quais as outras aeronaves que estiveram no processo foram desqualificadas por problemas técnicos de suas empresas.

Em 2009 foram entregues cinco dos sete helicópteros (que incluía um helicóptero VIP, para transporte presidencial), porém, em 29 de outubro de 2009, um dos helicópteros Dhruv, matriculado FAE-604, caiu na apresentação aérea para o 89º aniversário da FAE, no Aeroporto Internacional Mariscal Sucre, em Quito. O acidente, que não vitimou seus tripulantes, foi filmado e fotografado pela mídia presente na apresentação.

O primeiro acidente do Dhruv na FAE pareceu uma péssima coincidência, mas as coisas piorariam. (Foto: El Informador)

Segundo a investigação do Ministério da Defesa, o helicóptero foi perdido por falha humana, devido a que o piloto saturou os comandos de cíclico do helicóptero, fazendo a maquina entrar em uma situação de perda de sustentação em suas pás e levando-o ao chão. Isto era um problema que já havia afetado o helicóptero um par de vezes em seu serviço nas Forças Armadas Indianas, porém a HAL prometia instalar um sistema de alerta de saturação dos comandos nas unidades equatorianas. Tudo pareceu somente uma péssima coincidência, mas nem todos estavam de fato convencidos de tal.

Antes das aquisições, o comandante da FAE, Tenente-General Jorge Gabela se opôs a aquisição de helicópteros, argumentando que tais maquinas não cumpriam os requerimentos operacionais da força e que não haviam garantias de sua operação eficiente. A aquisição somente aconteceu após a baixa de Gabela da FAE, em abril de 2008. Após o primeiro acidente, Gabela, já aposentado, decidiu denunciar à imprensa irregularidades na aquisição dos helicópteros e que havia uma perseguição a o ex-oficial, devido à se opor a aquisição.

Tenente-General Jorge Gabela: Sua morte após denunciar irregularidade na compra dos helicópteros Dhruv ainda nõa foi bem explicada pelas autoridades. (Foto: EuropaPress)

Em dezembro de 2010, Gabela foi morto a tiros em frente a sua casa em circunstâncias nunca esclarecidas. O governo do Equador manifestou que a morte de Gabela foi produto de um latrocínio, porém sua viúva, Patricia Ochoa, discorda da versão oficial, denunciando publicamente que a investigação do assassinato de seu marido teve inúmeras lacunas e que pessoas vinculadas ao caso — oficiais da FAE, principalmente – não foram investigadas. Se descobriu dois anos depois que o criminólogo argentino trazido pelo governo para investigar o caso pediu para que seu relatório fosse apagado do processo e que a ministro da defesa na época, María Fernanda Espinosa, pediu para não incluir a denuncia de Gabela sobre os helicópteros no processo. O caso até o momento não foi resolvido.

Após o acidente de 2009, durante a investigação que levou a conclusão de falha humana, foram descobertos que seis dos dez motores que vieram com os helicópteros haviam sido fabricados em 2007, 2006 e 2005, infringindo a cláusula do contrato que alertava expressamente que o helicóptero e todos seus subsistemas deveriam ser fabricados de 2008 para frente. Também foi constatado que o helicóptero não era homologado pela Administração Federal de Aviação (FAA) norte-americana, devido a questões de segurança.
Uma auditoria técnica feita pela firma norte-americana GAB Robins indicou que os helicópteros estavam “perigosamente limitados”, devido a constantes falhas mecânicas, concluindo que “era surpreendente que os helicópteros fossem homologados para qualquer atividade civil ou militar”. De qualquer forma, a FAE rechaçou tal relatório e manteve os Dhruv em serviço. O preço acabaria sendo mais caro que US$ 45 milhões.

FAE-603 sendo retirado do lago da Represa de Chongón: O acidente foi produto de falhas no piloto automático. (Foto: Autor Desconhecido)

Em 20 de fevereiro de 2014, o helicóptero presidencial (matriculado FAE-601) caiu por volta das 14h30min (horário local) em San Roque, na província de Chimborazo. O acidente vitimou três dos quatro tripulantes do helicóptero. Novamente, o Ministério da Defesa indicou que o acidente foi devido a erro humano. Porém, quase um ano depois, no período de 14 dias, dois helicópteros Dhruv cairiam no Equador, selando o destino dessas naves na FAE.

A primeira queda aconteceu no dia 13 de janeiro de 2015 com a aeronave matriculada FAE-603, no lago da represa de Chongón, na província de Guayas, durante uma missão de treinamento, ferindo levemente seus dois tripulantes. A investigação determinou que a causa provável do acidente foi a perda de controle da aeronave, devido a presença de oscilações nas superfícies de controle geradas por mal funcionamento do piloto automático.

Após quatro acidentes e três mortos, a FAE decidiu unilateralmente retirar os helicópteros HAL Dhruv de serviço. (Foto: Santiago Chavarría/Aeromundo)

A segunda queda aconteceu em 27 de janeiro de 2015, em Tena, na província de Napo. O helicóptero (matriculado FAE-605) caiu ainda em baixa altitude (impossibilitando um pouso de emergência), em meio a mata fechada, pegando fogo logo após. Da mesma forma, seus quatro tripulantes sobreviveram. A investigação determinou que este acidente foi provavelmente causado por uma falha no eixo do rotor de cauda, provocando a queda por falta de controle.

Após estes dois acidentes, o governo do Equador decidiu unilateralmente suspender os vôos dos três helicópteros Dhruv restantes e terminar o contrato de apoio técnico com a HAL. O secretário do estado equatoriano revelou que a HAL falhou na entrega de todos os sistemas e serviços adquiridos em conjunto com o helicóptero, como a integração dos displays multifunção do helicóptero e a entrega de equipamentos para a configuração do sistema de anticolisão de tráfego (TCAS) da aeronave. Os helicópteros tinham 6.319,44 horas de vôo antes de serem groundeados indefinidamente.

Para fechar a lacuna operacional deixada pela retirada de serviço dos helicópteros Dhruv, a FAE adquiriu em 2019 quatro helicópteros italianos Leonardo AW.119Ke Koala e está em processo de escolha para mais helicópteros para complementar sua força de asas rotativas. O governo do Equador ainda tenta negociar a devolução dos três helicópteros restantes para a sua fabricante, porém, já pôs as aeronaves a venda. Nesse momento, os três helicópteros sobreviventes (matriculados FAE 602, 606 e 607) estão estocados em um hangar na Base Aérea de Guayaquil, esperando seu destino.

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5 COMENTÁRIOS

  1. Me chamou atenção:
    "foi baseado em critérios técnicos, nos quais as outras aeronaves que estiveram no processo foram desqualificadas por problemas técnicos de suas empresas"

    Desclassificaram a Eurocopter e a Rosvertol, que está há anos no mercado, e escolheram a HAL com seus equipamentos fazedor de viúvas, sem propina a compra nunca tinha acontecido, e muito menos as mortes…

  2. Impossível não lembrar dos homicídios dos prefeitos Celso Daniel e Toninho do PT para ocultar esquemas de corrupção.

  3. Eu não iria julgar a aeronave, e entrar na questão da falta de cultura com equipamentos de origem indiana e pós-vendas pífio, mas lendo o texto com cuidado, foi um dos claros e frequentes esquemas das corruptocracias populescas latino-americanas.
    O heli em questão é uma porcaria não usável.

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