capaNão houve um tratado de paz ao término da guerra em 1953; dos dois lados da zona desmilitarizada a atividade armada é intensa, e o reinicio do conflito é sempre possível.

O plano do Norte é para ação rápida, visando a fazer o conflito terminar antes que as reservas se esgotem. Suas forças de ataque mecanizadas e motorizadas foram deslocadas para perto da zona desmilitarizada, mas muitas unidades estão embaixo da terra, o que dificulta muito a vigilância. Os exércitos do Norte não estão no vestiário; são como um corredor, pronto para dar a largada.

Era assim que a tensa situação militar da península da Coréia era vista pelo lado do Sul, mais especificamente pelo general William Livsey, comandante dos 39 000 soldados norte-americanos estacionados lá, durante o período da Guerra Fria, e investido também do controle operacional das formações militares sul-coreanas, uma vez que era o titular do Comando das Forças Combinadas (CFC).

O grosso das forças de ataque e caça da Coréia do Sul era formado por mais de duzentos F-5 (E/F). Nas missões ar-ar eles portavam mísseis AIM-9 Sidewinder, mas também podiam levar bombas convencionais, foguetes não guiados e bombas de napalm, para ataque ao solo.
O grosso das forças de ataque e caça da Coréia do Sul era formado por mais de duzentos F-5 (E/F). Nas missões ar-ar eles portavam mísseis AIM-9 Sidewinder, mas também podiam levar bombas convencionais, foguetes não guiados e bombas de napalm, para ataque ao solo.

Em nenhum outro lugar do mundo um grande conflito armado envolvendo os Estados Unidos poderia desenvolver-se tão rapidamente, talvez numa questão de horas. O ponto morto a que as duas Coréias chegaram no fim do conflito nunca foi resolvido; a República Democrática Popular da Coréia (Coréia do Norte) e a República da Coréia (Coréia do Sul) assinaram um armistício em 1953, mas nunca firmaram um tratado de paz.

As agências de inteligência e as unidades de reconhecimento dos Estados Unidos e da Coréia do Sul esforçavam-se bastante para saber das intenções do governo de Kim Il Sung (1912-1994), o “Grande Líder” da Coréia do Norte, mas parece que estavam diante de uma das mais difíceis tarefas de espionagem. Mesmo em alerta permanente, as Forças Armadas da Coréia do Norte eram (e ainda são) bem camufladas; os aeroportos têm abrigos subterrâneos, escavados em morros de granito. Os espiões infiltrados pelo Sul no território do Norte dificilmente conseguiam saber alguma coisa sobre as intenções de Kim Il Sung. As únicas informações de valor vinham da interceptação de sinais e imagens feitas por postos de escuta em terra, em belonaves e — especialmente — em aviões.

A base de Kunsan, sede da 8.ª Ala de Caça Tática da Força Aérea dos EUA, equipada com aviões F-16ª/B. Eles também podiam realizar ataques ao solo.
A base de Kunsan, sede da 8.ª Ala de Caça Tática da Força Aérea dos EUA, equipada com aviões F-16A/B. Eles também podiam realizar ataques ao solo.

Era comum ouvir o estampido do rompimento da barreira do som nos céus da Coréia, quando aviões-espiões Lockheed SR-71 Blackbird vindos da base de Kadena, na ilha japonesa de Okinawa, cruzavam a península em busca dos segredos do Norte. As vezes eram disparados mísseis superfície-ar (SAM) SA-2 contra os Blackbird. A Coréia do Norte esperava infligir novas derrotas à inteligência norte-americana, além da captura do navio-espião USS Pueblo, em 1968, e a derrubada, um ano depois, de um Lockheed EC-121M Super Constellation da Marinha dos EUA, em missão Elint.

Os aviões U-2R destacados permanentemente à base de Osan, perto de Seul, arriscavam-se menos frente aos SAM. À grande altitude, eles executavam missões de longa duração ao longo da fronteira. Sete McDonnell Douglas RF-4C Phantom do único esquadrão de reconhecimento tático das Forças Aéreas no Pacífico (PACAF) também ficavam em Osan, para reconhecimento a baixa altitude com seu radar de alta resolução (SLAR) Goodyear e o equipamento de interceptação de sinais Litton TEREC. Por fim, o Exército norte-americano tinha lá um batalhão de inteligência, que operava bimotores a turboélice Beech RU-21H, equipados com o sistema de Comint “Guardrail V” e Grumman RV-1D Mohawk, portadores do sistema de Elint “Quicklook II”. Havia também aparelhos Mohawk munidos de câmaras e sistemas de infravermelho e SLAR.

Setenta Phantom serviam à Força Aérea da República da Coréia. O da foto é um F-4D, que não possuía canhão interno. Por isso, ele leva um casulo de canhão Vulcan.
Setenta Phantom serviam à Força Aérea da República da Coréia. O da foto é um F-4D, que não possuía canhão interno. Por isso, ele leva um casulo de canhão Vulcan.
As aeronaves U-2 possuem diversos sensores e equipamentos atualizados para poder realizar as missões com segurança.
O Lockheed U-2R foi o principal avião de reconhecimento usado pelos EUA na Coreia. Partindo da base de Osan, os U-2 voavam a grande altitude, para ouvir as comunicações do Norte e vasculhar seu território com o radar de alta resolução (SLAR). A Coréia do Norte também era espionada por aviões SR-71A, vindos da base de Kadena, na ilha de Okinawa.

Os arrozais ao norte de Seul estavam coalhados de armadilhas para tanques, e as pontes das rodovias tinham portões móveis de aço. Logo ao sul da zona desmilitarizada (que tem 4 km de largura) havia campos minados e cercas eletrificadas. Mas a República Democrática Popular da Coréia tinha o dobro de tanques e quase o triplo de peças de artilharia em comparação com a República da Coréia. Suas Forças Armadas somavam (em 1985) 835 000 homens, enquanto as da Coréia do Sul chegavam a 600 000.

Espírito de Equipe

Todos os anos, os Estados Unidos realizavam exercícios de reforço dos efetivos da Coréia do Sul em gigantescas manobras conjuntas denominadas “Team Spirit“, isto é, “Espírito de Equipe”. De seu lado, a República Democrática Popular da Coréia mantinha tratados de defesa militar com a União Soviética e com a China desde 1961, mas não permitia a presença de forças estrangeiras em seu território.

O poderio aéreo demonstrou ser decisivo durante a Guerra da Coréia de 1950/53, ao lado das armas nucleares, um dos pontos em que o CFC levava ter uma nítida vantagem. Com 740 aviões de combate, a Força Aérea da República Democrática Popular da Coréia (Coreia do Norte) superava quantitativamente, com uma vantagem de 50%, o material de que dispunha a Força Aérea da República da Coréia (Coreia do Sul) e a Força Aérea dos Estados Unidos. Contudo, a maior parte dos caças do Norte era (é) constituída por aparelhos antigos, MiG soviéticos ou cópias chinesas. Do lado do Sul a vantagem tecnológica era garantida por aviões F-4, F-5, F-15 e F-16 que, como as forças de terra, se achavam integrados em uma estrutura conjunta de comando.

coreia do norteA defesa aérea da Coréia do Sul era comandada por um brigadeiro-do-ar norte-americano, que ficava num complexo blindado na encosta de um morro em Osan. À disposição desse comando ficavam três McDonnell Douglas F-15C Eagle (destacados da 18.ª Ala de Caça Tática das PACAF em Kadena), prontos para voar em dez minutos a partir de um alarma. Armados com mísseis ar-ar AIM-9L Sidewinder e AIM-7M Sparrow, eles ficavam em dois dos 24 abrigos reforçados de Osan.

Outros desses abrigos (para três aviões cada um) alojavam interceptadores F-4E Phantom da Ala de Caça Tática, que tinha um esquadrão em Osan e outro em Taegu, onde operava ao lado de aparelhos Phantom da 1.ª Ala de Caça da Coréia do Sul. A Força Aérea da República da Coréia tinha mais de setenta F-4D e F-4E fornecidos pelos Estados Unidos. Nas missões de defesa aérea, esses aviões portavam mísseis ar-ar dos tipos AIM-9J e AIM-7E; em missões de interdição podiam levar bombas, foguetes não guiados e mísseis Maverick, orientados por televisão.

A outra base principal dos Estados Unidos em território coreano era a de Kunsan, com dois esquadrões da 8.ª Ala de Caça Tática, equipados com aeronaves General Dynamics F-16 Fighting Falcon. Seus pilotos treinavam supremacia aérea, mas em tempo de guerra a tarefa principal da ala seria o ataque a aeroportos bem dentro do território norte-coreano, além de a centros de comando e pontos de engarrafamento das forças terrestres. Os aviões de Kunsan dispunham de mísseis Maverick e de bombas “inteligentes” GBU-10 e 12, mas o armamento principal eram bombas convencionais, de 227 e 907 kg. Estas dependiam dos aviônicos dos F-16 para atingirem seus alvos. Se, necessário, podiam eventualmente fazer recurso de bombas nucleares, provavelmente do tipo tático leve B61.

Os Phantoms receberam uma pintura cinza, própria para a função de superioridade aérea, hoje empregada na maioria dos caças.
Os Phantoms receberam uma pintura cinza, própria para a função de superioridade aérea, hoje empregada na maioria dos caças.

Quatro alas de caças leves — nas bases de Suwon, Taejon, Chongjin e Kwangju — somavam 48 F-5E e vinte F-5F montados sob licença na Coréia e mais 126 F-5E e vinte F-5F de fabricação norte-americana. Essa força era complementada por cerca de trinta Cessna A-37B Dragonfly de ataque leve. As bases aéreas do Sul estavam sendo equipadas com abrigos reforçados, mas onze trechos de estrada de rodagem podiam ser usados como pistas de emergência.

As armas do Norte

A política independente de Kim custou à Coréia do Norte longas interrupções de fornecimento de armas por parte da União Soviética: houve uma em fins da década de 50 e outra durou onze anos, de 1974 a 1985. Antes de 1974, o país recebera um fluxo constante de aviões MiG, culminando com aparelhos MiG-21PMF, além de cerca de trinta Sukhoi Su-7BM. Depois, os norte-coreanos tiveram que depender dos chineses, que tinham pouca coisa de moderno a oferecer. Foram fornecidos aparelhos Shenyang F-5 e F-6 (cópias do MiG-17 e do MiG-19) e Harbin H-5 (Ilyushin Il-28). Depois que os chineses puseram de novo em produção o modelo MiG-21, em fins da década de 70, a Coréia do Norte recebeu alguns exemplares de variante melhorada de exportação F-7. A espionagem ocidental calculava na época que a Coréia do Norte tinha cerca de 640 exemplares dos vários tipos de MiG, distribuídos por vinte esquadrões, bem como 85 Il-28/H-5 constituindo três esquadrões, e uma unidade equipada com vinte Su-7.

O primeiro indício de um reatamento com a União Soviética foi a visita de um esquadrão soviético de MiG-23 à base aérea de Hwang-ju, próxima a Pyongyang, em maio de 1984. A partir de 1985 a Força Aérea da República Democrática Popular da Coréia recebeu cerca de quarenta MiG-23 e um estoque de mísseis ar-ar AA-7. Essa combinação de aviões capazes de voar a Mach 2 e potentes AAM tendia a levar os pratos da balança do poderio aéreo a um ponto mais próximo do equilíbrio, mas os sul-coreanos e norte-americanos também se preocuparam com a notícia de que as forças terrestres da Coreia do Norte estavam sendo equipadas com modernos mísseis superfície-ar de fabricação soviética. Foram formados cerca de doze batalhões com mísseis SA-2, e essas unidades depois passaram a receber o equivalente chinês HQ-2J, para reposição dos estoques. Algumas fontes afirmavam que os norte-coreanos também tinham o sistema de baixa altitude SA-3, mas só o SA-7, modelo leve de infantaria, constava entre os fornecimentos soviéticos de material de tecnologia ‘moderna’.

b5da75dbd8d25de961d47b554d9750fbEm face das deficiências de fornecimento externo, a Coréia do Norte aumentou sua produção doméstica de canhões antiaéreos. Pelo menos 8 000 unidades estavam em serviço, entre versões rebocadas e autopropulsadas, sobre rodas ou lagartas. É interessante notar que o poder de fogo antiaéreo assim obtido era maior que o do Vietnam do Norte na fase mais intensa da guerra com os norte-americanos e que dois terços dos aviões perdidos pelos Estados Unidos no conflito foram derrubados por artilharia antiaérea e não por mísseis.

Ataque ao solo

O terreno nas proximidades da maior parte da zona desmilitarizada se presta a um avanço de tanques. Por isso, a 2.ª Divisão de Infantaria dos Estados Unidos, estacionada na Coréia do Sul, tinha helicópteros Bell AH-1S HueyCobra equipados com mísseis TOW, além de helicópteros de apoio Bell OH-58 Kiowa. Essas forças praticavam em manobras conjuntas com um esquadrão de 24 aviões Fairchild Republic A-10A Thunderbolt II, de apoio aéreo aproximado, pertencente à 51.ª Ala de Caça Tática, sediada em Suwon, a base aérea mais próxima da zona desmilitarizada. Uma possibilidade em caso de invasão da Coréia do Sul pelas forças do Norte seria os helicópteros atacarem bases móveis de SAM e de artilharia antiaérea, para que os A-10 pudessem voar a baixa altitude e disparar seus canhões de 30 mm contra os blindados em deslocamento.

O Exército da República da Coréia encomendou 21 aparelhos AH-1S, para complementar sua força de helicópteros armados com mísseis TOW. Esta foi formada depois que a Coréia do Sul pagou à Hughes Helicopters para desenvolver uma versão armada do helicóptero leve comercial a turbina Model 500. Cerca de duzentos exemplares da versão 500MD resultante foram então fabricados sob licença na República da Coréia.

mig21pfmom9A satisfação do governo de Seul desvaneceu-se em 1984, quando foi divulgado que a Hughes Helicopters tinha vendido oitenta Model 500 para um distribuidor da República Federal da Alemanha, e que por via indireta esses helicópteros tinham sido comprados pela Coréia do Norte. Os sul-coreanos temiam que esses aparelhos, pintados com as cores da República da Coréia, fossem usados para semear confusão no campo de batalha e para atacar alvos de retaguarda.

De fato, esse medo não parecia infundado, já que a Coréia do Norte dispunha, talvez, do maior contingente do mundo de tropas para “guerra não convencional”. Essa força, de cem mil homens, estava preparada para infiltração por terra, mar e ar, para praticar atos de sabotagem, demolições, atentados etc. Além de cem barcos leves e velozes de desembarque de tropas, a Coréia do Norte tinha 250 biplanos Antonov An-2, que poderiam escapar do radar voando baixo e lançar em paraquedas grupos de até doze sabotadores próximo a instalações vitais da Coréia do Sul.

Alerta aéreo antecipado

Para tentar prevenir essas infiltrações, a Força Aérea da República da Coreia pretendia comprar um avião de alerta antecipado aero-transportado (AEW). Aviões Boeing E-3B/C Sentry da Força Aérea Norte-Americana, baseados em Kadena, vasculhavam a península em missões de defesa aérea, mas não poderiam fazer também AEW. Num conflito, seu papel seria percorrer as costas para dar uma imagem de radar de eventuais ataques de aeronaves do Norte, além de dirigir aviões de caça e mísseis superfície-ar em resposta.

mapaA Coréia do Sul tinha velhos mísseis Nike Hercules e HAWK melhorados, além de canhões antiaéreos Vulcan M163. O 8.º Exército norte-americano também tinha mísseis HAWK móveis e praticava operações coordenadas com os aviões E-3, que informariam a distância e o rumo de aviões inimigos às baterias em terra. Também havia mísseis superfície-ar Stinger, operados pela infantaria e pelo pessoal de polícia da Força Aérea nas bases.


FONTE/IMAGENS: Aviões de Guerra #41

Edição: CAVOK

Demais imagens: Pinterest

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31 COMENTÁRIOS

  1. ** Só pra descontrair **

    A primeira imagem dos F-5 não pertencem a Coréia do Sul , mas sim a Força Aérea da Pepsi (notar roundel lateral das aeronaves)

  2. Creio que a médio prazo a China e os EUA acabarão negociando a reunificação das duas Coréia, semelhante ao que ocorreu com a Alemanha. Tal negociação passaria pela volta de Taiwan para o controle Chines e o desmantelamento do arsenal nuclear da Coréia do Norte.

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