O porta-aviões A-12 São Paulo, que agora deve ser leiloado.

A Marinha brasileira começou o processo para leiloar seu único porta-aviões. A tentativa de venda do NAe São Paulo (A-12) deixa a frota brasileira com apenas um navio de aviação, o porta-helicópteros multipropósito (PHM) Atlântico.

A estatal brasileira Empresa Gerencial de Projetos Navais (EMGEPRON) pretende emitir uma licitação hoje 27 de setembro para vender o casco do ex-porta-aviões da Marinha do Brasil NAe São Paulo (A-12), por um valor mínimo de 5,3 milhões de Reais (US$ 1,3 milhões).

Durante o serviço prestado à Marinha do Brasil, a NAe São Paulo passou 206 dias no mar e navegou 85.344 km. O navio, atracado no estaleiro estatal Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ), foi desativado em 22 de novembro de 2018.

O deslocamento de 33.000 toneladas do NAe São Paulo tem um passado histórico, como Robert Beckhusen explicou em uma história de 2017. “O São Paulo era originalmente o Foch, um porta-aviões da classe Clemenceau que foi lançado em 1960. Durante seus 40 anos de serviço à marinha francesa, as alas aéreas de Foch evitaram MiGs iemenitas, intervieram na guerra civil libanesa e bombardearam a Sérvia durante o conflito no Kosovo.”

A França vendeu Foch para o Brasil em 2000, e o renomeado São Paulo realizou exercícios e lançou os aviões de ataque AF-1 Skyhawk do Brasil a partir de seu convés de lançamento de catapulta – semelhante aos porta-aviões dos EUA e do Charles de Gaulle, o único remanescente de frota da França.

Jatos AF-1 a bordo do São Paulo. (Foto: ROB SCHLEIFFERT/FLICKR)

O Brasil pagou à França US$ 12 milhões pelo porta-aviões, mas gastou US$ 100 milhões a mais, mantendo os navegadores em risco pelo menos duas vezes, uma vez em 2004 – matando vários marinheiros – e novamente em 2012. Os acidentes forçaram reparos caros e mantiveram o porta-aviões atracado no porto por mais de uma década, em longos períodos de tempo.

O São Paulo deveria se juntar à frota em 2013, mas os acidentes o deixaram de lado. “Até o final de 2016, o São Paulo ainda estava em reparos e havia relatos de que poderia levar mais uma década para que o navio estivesse em pleno funcionamento novamente”, observou Joe Trevithick no site The War Zone.

“Quando a marinha brasileira finalmente decidiu aposentar ele em 2017, era o porta-aviões comissionado mais antigo do mundo”, continuou Trevithick. “Nas duas décadas seguintes em que o porta-aviões tinha hasteado a bandeira do Brasil, ele passou apenas 206 dias no mar”.

“O fato de o Brasil operar porta-aviões, sem mencionar décadas, é bastante estranho”, ressaltou Beckhusen. “Em termos militares estritos, um porta-aviões brasileiro faz pouco sentido… pelo menos agora.”

As principais ameaças do Brasil não vêm do mar, mas da terra, pois o Brasil compartilha suas fronteiras com 10 países, alguns dos quais com histórias de insurgências rebeldes e problemas contínuos com grupos de crime organizado de ordem cruzada. Um desses países, a Venezuela, está instável.

Mas o Brasil também investiu em porta-aviões por razões simbólicas e políticas. Na verdade, essas são as principais razões. Os oficiais militares e políticos brasileiros querem que seu país seja importante – e países importantes têm porta-aviões.

Jatos AF-1 da Marinha Brasileira.

Até 2017, o valor político da embarcação não poderia justificar o custo e o perigo de mantê-la funcional. O leilão de São Paulo deixa os jatos AF-1 Skyhawks da marinha sem um porta-aviões.

“A decisão de aposentar o navio deixou os futuros AF-1 modernizados no limbo”, explicou Trevithick.

Em 2009, a marinha brasileira contratou a importante empresa de aviação do país, Embraer, para conduzir um programa de modernização profunda em nove dos 20 AF-1s e dos três AF-1As por um custo total de aproximadamente US$ 140 milhões.

As variantes AF-1B e C resultantes, respectivamente, teriam melhorias significativas, incluindo novos cockpits no conceito glass, receptores digitais de aviso de radar e radares avançados de doppler de pulso EL/M-2032 da Elta de Israel. Os jatos também seriam capazes de transportar novas munições ar-ar e ar-solo e pods de mira modernas.

O PHM Atlântico.

A Embraer entregou o primeiro e o segundo AF-1Bs para a Marinha Brasileira em 2015 e 2016, respectivamente. O VF-1 obteve seu AF-1C de dois lugares no ano passado. Se o Brasil decidir adquirir a frota completa de aeronaves AF-1B/C pode depender de outra ala aérea estar ou não no futuro do país.

Como substituto parcial de São Paulo, o Brasil em 2018 pagou US$ 115 milhões pelo porta-helicópteros da Marinha Real HMS Ocean. Mas o Ocean de 22.000 toneladas, que os brasileiros renomearam Atlântico, não pode suportar aeronaves de asa fixa.

Não está claro o que a Marinha Brasileira planeja fazer com seus Skyhawks e se considera o Atlantico suficientemente prestigioso para substituir o São Paulo.


Fonte: National Interest / Jane’s

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6 COMENTÁRIOS

  1. A história do São Paulo se confunde com a história das forças armadas brasileiras nesse século, em especial a nossa mais megalomaníaca força, a marinha.
    Uma força que nunca para de reclamar de falta de verbas mas tem em seus quadros quase o dobro dos militares de 2005. Uma marinha que ousa reclamar de falta de verbas enquanto mantém mais marinheiros do que Itália e Reino Unido juntos. Uma marinha que utiliza o dinheiro tirado da mesa de vossas famílias PRA ISSO: um pseudo porta-aviões e um quadro de funcionários inchado.
    Quanto a não existir lógica num Porta-Aviões no Brasil, dificilmente isso poderia estar mais errado. Nossas fronteiras em terra são com países cujas forças armadas seriam barradas pelas forças policiais brasileiras portando meia dúzia de iglas. No mar, no entanto, a diferença entre ter em sua frota apoio aéreo e capacidade antinavio se movendo a mil quilômetros horários ao invés de 55 quilômetros é absurda. Temos condição de ter um hoje? Não, nossa marinha prefere ter funcionários inutilmente em terra ao invés de ter escoltas decentes.
    Se muito, teremos corvetas bombadas que certamente não servem como uma fiável escolta para porta-aviões.
    Isso tudo enquanto a marinha ainda jogará vossos dinheiros fora no único sonho mais megalomaníaco do que o de um porta-aviões: o submarino nuclear. Testaremos aí se Deus é realmente brasileiro, torcendo para que ele impeça o maior acidente ambiental da história dessa terra sem pecados.

    • Sinceramente eu discordo e ao mesmo tempo concordo com você Turatteu, começamos pelo discordar, eu acho sim que nossa marinha deve ter submarinos nucleares pois precisamos ter melhores equipamentos para guerra e não devemos simplesmente olhar para os nossos vizinhos pois estão igual ou pior que o Brasil em suas condições e devemos sim ter um ou dois porta aviões pois precisamos ter poder além claro que devemos fazer os projetos para desenvolver e crescer e não ficar remanda pra trás ou somente para se manter no lugar, devemos andar pra frente com um bom planejamento e com meios eficientes.
      Agora olhando nossa atual situação eu concordo plenamente pois não temos dinheiro, não temos navios e o que temos funcionando deve dar pra botar banca na Argentina e Uruguai pois acho que com o resto fica complicado mas o que temos de sobra é gente na Marinha que aliás é regra em nossas forças, muita gente pra poucos meios, temos que mudar o planejamento e enxugar o máximo que pudermos e o mais rápido possível pra evitar mais desperdícios e começar um planejamento baseado em eficácia e eficiência porque quem tem poucos balas no fuzil não pode se dar ao luxo de errar um tiro e nós estamos nesta situação, temos que vender nossos submarinos velhos e colocar novos no lugar e fazer algum dinheiro a mais nos velhos pois vender pra sucata dá pouco dinheiro, começamos bem com novas corvetas mas deveria ser entregue na metade do tempo ou então tocar em paralelo as fragatas tão logo seja possível e ainda tem os outros meios. Temos muito o que fazer e gente tem de sobra então vamos botar pra trabalhar os melhores e dispensar o restante mas sempre baseado num planejamento pé no chão e não imaginando um cenário milionário pela frente pois isso no Brasil acho que nunca vai acontecer.

  2. Não, o Atlântico não é "suficientemente prestigioso", basta conversar com quem manda no processo e o cara já te dá um "corte" se você citar qualquer demérito em (o Brasil) ter um porta-aviões…

  3. PAs são para grandes players globais, que querem projetar poder, e mesmo assim alguns deles (como a Rússia e o Reino Unido) encontram dificuldades em mantê-los, operando os mesmos à "meia-boca" (Kuznetsov) ou sacrificando o numerário de escoltas, como a RN.

    O Brasil, que não tem pretensões ofensivas, deveria optar por navios multipropósitos, como o futuro Trieste ou o BPE espanhol, e operar um punhado de F-35B (não mais do que duas dúzias) que seria mais racional. Mas será que a FAB gostaria de ver a ala aérea da MB com um caça mais moderno que os Gripen? A guerra de egos entre as três forças é um grande entrave também.

  4. Tirando as análises políticas e estratégicas, eu só consigo imaginar a China comprando o São Paulo e tornando ele utilizável em sei lá 2 anos?!

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