Após uma enxurrada de críticas e desabafos pelo meio aeronáutico sobre a destruição do DC-3 “PP-VBF” que estava parado na antiga unidade de manutenção da Varig no Aeroporto do Galeão no Rio de Janeiro, a Massa Falida da companhia aérea divulgou uma Nota Oficial sobre o motivo de tal ato realizado no dia 31 de janeiro. Deixo para vocês comentar esta “resposta” ainda sem resposta.

Embora a Nota Oficial, divulgada pela FENTAC, filiada da CUT (Central Única dos Trabalhadores), comente que foi uma “decisão judicial” e que a aeronave “estava completamente sem capacidade de ser restaurada pelo motivo de corrosão”, ainda assim fica difícil achar que o melhor modo foi destruir completamente um avião histórico sem divulgar amplamente no meio aeronáutico que a aeronave estava sendo doada, ou que se não fossem encontradas empresas e pessoas interessadas ela seria desmontada.

A aeronave DC-3 “PP-VBF”.

Na nota é dito que o DC-3 teria sido oferecido ao Musal (Museu Aerospacial do Rio de Janeiro) e que o Musal não teria demonstrado interesse. Mas será que somente o MUSAL poderia ajudar a receber tal aeronave?

Ao que parece é que quiseram se livrar da aeronave e pensaram que ninguém veria o que estavam fazendo, de forma rápida e impiedosa. A Nota Oficial ainda diz que o momento é de arrumar formar de pagar as pessoas que desde a falência da Varig não receberam salários e custas trabalhistas. O que uma destruição da aeronave poderia gerar de verba para estas pessoas? Não creio que a sucata possa gerar tanto dinheiro neste caso.

Se a atual proprietária do local, a TAP, estivesse impondo multas para retirada da aeronave, mostra mais insensibilidade das pessoas envolvidas neste ato de destruição de parte da história aeronáutica.

A Nota ainda comenta que existe uma aeronave DC-3 restaurada em Porto Alegre e que (sic) não seria necessária outra… Nem sei o que comentar sobre isso.

Como estava a aeronave DC-3 em Porto Alegre.

A aeronave DC-3 “PP-ANU” de Porto Alegre estava em pior estado na frente do antigo Museu da Varig e foi COMPLETAMENTE restaurada, sendo hoje atração no Varig Experience.

Hoje o DC-3 “PP-ANU” em Porto Alegre atrai centenas de pessoas para conhecer parte da história da aviação brasileira.

Sem mais me delongar, segue a Nota Oficial:

“Circula na imprensa imagens da destruição de um antigo avião DC-3 da Varig e inúmeras críticas à atitude dos gestores da Massa Falida e à decisão do Poder Judiciário autorizando a destruição.

O avião DC-3 da VARIG, que apresentava corrosão em 100% de seu revestimento externo, foi destruído por autorização judicial após pedido da massa falida da VARIG, que se viu em uma encruzilhada imposta pela administradora do aeroporto Galeão, onde o avião estava estacionado.

Com a cobrança do espaço que tal avião estava utilizando, a massa falida buscou solucionar o problema com o menor custo, inclusive o ofertando para o Museu Aeroespacial (MUSAL). Após a recusa, o alto custo para manter tal avião parado levou a massa falida a requerer autorização do Poder Judiciário para destruir a aeronave.

É bom lembrar que há uma aeronave da VARIG, idêntica, no Aeroporto de Porto Alegre. A aeronave do Sul está restaurada e aberta para visitações, conforme se pode verificar pelo site www.varigexperience.com.br.

No entanto, o que deve ser destacado nesse momento de saudosismo é que o maior patrimônio da VARIG não era seus aviões. Eram seus funcionários, sua tripulação, seus mecânicos e seus aeroviários. Essas pessoas é que criaram e desenvolveram esse apreço pela imagem da empresa Varig.

Apesar de mais de 2 mil óbitos, mais de 10 mil trabalhadores da Varig ainda estão vivos e, necessário lembrar, não receberam suas verbas rescisórias quando do encerramento das atividades da Empresa.

Esse “patrimônio” da VARIG está sendo destruído diariamente a cada falecimento.

Dessa forma, em um cenário de falência da empresa, por mais importante e representativa que possa ser, a preocupação da massa falida deve ser pagar os trabalhadores em primeiro lugar.

A VARIG deve mais de 500 milhões de reais em verbas trabalhistas não pagas ao seu principal “patrimônio”. A VARIG deve mais de 4 bilhões de reais para o Fundo de Pensão que a empresa participava (AERUS), o qual deveria garantir uma aposentadoria para seus trabalhadores.

Com isso, o custo de manter uma aeronave antiga e corroída, pagando valores altíssimos, por mero saudosismo é violentar os próprios trabalhadores da VARIG que ainda aguardam para receber integralmente suas verbas trabalhistas.

Portanto, a destruição do DC-3 da Varig, corroído e sem qualquer capacidade de utilização, não é um atentado à nossa história. Como já dito, existe um similar em Porto Alegre aberto para visitações. Porém, quem deseja mesmo reviver os tempos da “Varig” procure um funcionário da época. Ele contará sobre a dedicação dos trabalhadores para erguer uma empresa referência mundial e respeitada no mundo inteiro.

Por essa razão, o entendimento da Massa Falida e a decisão do Poder Judiciário estão corretos, pois buscaram extinguir os custos gerados pela manutenção do avião. O que se deve buscar nesse cenário de falência é a restauração, dentro do possível, da dignidade dos trabalhadores, mediante o pagamento das verbas rescisórias ainda devidas e de valores para o Fundo de Pensão. Após tal restauração pessoal, se poderá pensar na necessidade de restaurar outras aeronaves da VARIG.”


Nota do Editor: Continuo sem acreditar no que fizeram e não vejo justificativas para tal ato de destruição. Somente a justificativa de uma decisão arbitrária, rápida e sem pensar na repercussão. O que estão querendo fazer agora com esta nota é apenas diminuir a culpa por tal ato impensado.

Anúncios

10 COMENTÁRIOS

  1. Triste? Sim, toda vez que vejo algo belo e com uma história envolvida sendo destruído ou sucateado me dói o coração.
    .
    Porém, o proprietário ou responsável não é obrigado por lei ou coisa que o valha a disponibilizar aquele objeto em perfeito estado eternamente à apreciação pública somente porque alguns entusiastas querem que seja assim.
    .
    O avião estava como visto na foto, já abandonado e sucateado (Assim como muitos outros ainda hoje) mas até então, ninguém estava muito incomodado com isso.
    Agora todo esse alvoroço, todo mundo preocupado com a história…
    .
    Existem custos envolvidos, é preciso um local apropriado para guardar, fora outras tantas variáveis que desconhecemos, tudo obviamente não deve ser barato, o que certamente levou o responsável a essa decisão.
    .
    Será que a maioria que hoje reclama ferozmente na internet seria capaz de disponibilizar mensalmente uns 30 ou 50 reais para ajudar a preserva-lo?
    Que tal uma mobilização agora para preservar os que ainda restam heim??? Uma taxa para manutenção de aeronaves antigas??? Que tal? Acho difícil..
    .
    Novamente digo que é triste sim, mas o mundo real nem sempre é como sonhamos…

    • Bruno, um exemplo de como é possível sim achar interessados ocorreu em Porto Alegre com o DC-3 "PP-ANU". Não foi uma empresa ou pessoa. Foram vários que participaram do projeto de restauração. Inclusive funcionários da Varig que o sindicato diz que estão buscando reparação.

      Várias pessoas se uniram para recolocar o motor do P-47 do Musal de volta a ativa, graças a um pedido online de ajuda.

      No caso do VBF, o que parece é que a decisão foi tomada dentro de quatro paredes por pessoas que somente pensam em dinheiro e não se preocupam com a preservação da história. O sindicato e a Massa Falida estão tentando agora achar uma forma de se desculpar por um erro monstruoso.

      Ou seja, ninguém viu nenhum pedido de ajuda para o VBF. Tomaram a decisão sem pedir para ninguém. Se ninguém tivesse se mexido para isso é outra história, mas pelo menos poderiam ter tentado encontrar uma forma, o que não parece que fizeram. Ou se fizeram, fizeram pouco.

      Segundo a FETAC, "como já tem um preservado, pra que manter outro…".

      Abraço.

  2. Quer dizer que se existe 1 DC-3 preservado qualquer outro que houver pode virar sucata? Então poderiam fechar todos museus e deixar só um. Deveriam ter oferecido a particulares com interesse na preservação da história, e não só ao Musal. O dinheiro seria revertido em pagamento das dividas da massa falida. Oque podemos fazer hoje é só lamentar esse total descaso das partes envolvidas. ?

  3. Justificando o injustificável. Melhor seria ter ficado de boca fechada.

    Duvido que as empresas com oficina no Galeão ou o parque aeronáutico do Galeão não fizessem a restauração e a aeronave doada mesmo para virar monumento.

    Melhor ainda seria entender que as pessoas gostam de aviação. Com um pouquinho de criatividade, poderiam ter feito uma atração no aeroporto que é imenso, subutilizado e no meio de uma região sem nenhum tipo de atração.

  4. Não entendo a revolta dos amantes da aviação com esse episódio, sendo a FENTAC, filiada da CUT o que vocês estavam achando que iria acontecer, que iriam doar, que iriam reformar?
    A diretoria da FENTAC e a presidência da CUT são ocupadas por sindicalistas, pessoas que não trabalham e não dão valor ao trabalho, querem poder e dinheiro somente. Agora me pergunto, o que os filiados a FENTAC irão fazer, e também respondo NADA. Triste esse pais não dar valor a seu passado e a seus tesouros. Digo mais, não é irresponsabilidade em comentar que a direção da CUT é intimamente ligada ao reitor da UFRJ, o mesmo que deixou, e depois lavou as mãos com relação a queima do museu nacional, e as pessoas ligadas ao reitor não sentiram um mínimo de remorso com o episódio, vindo a colocar a culpa no PR. Não seria estranho colocarem a culpa no PR pela destruição do DC-3.

  5. Burrice ao cubo, caso realmente ninguém se interessasse em adquirir a aeronave completa, poderiam desmontar e só o painel já daria mais dinheiro que a sucata dos destroços que se igualam ao preço da sucata de latinhas de cerveja. Quero dizer mesmo só olhando o lado econômico, foi uma estupidez.

  6. Ridiculo colocar a culpa na massa falida. O crime contra o povo brasileiro foi cometido pela TAP, administradora da área e quem herdou essa relíquia que virou sucata.
    Isso é o mesmo que aceitar passivamente o incêndio do Museu nacional do Rio, usando como justificativa a falta de verbas. Justificar o injustificável.
    Houve negligência e descaso SIM e a responsável é a TAP.

  7. por partes ;

    1- Se tivessem tornado publica a questão chamaria atenção pra aeronave ,situação dos ex funcionarios,estes falariam,geraria simpatia,campanha salve o DC 3 etc…
    2-Diz q a MF deve 500 milhoes no trabalhista e 4 bi pro fundo de pensão …sabe quando vão receber ? nunca ! não tem patrimonio pra isso,economia inútil….
    3- Na sucessão de episódios obscuros ,mal explicados ,absurdos de nossa hist[ória não sobra espaço pro DC-3,pra comissária,pro piloto,pra tia do café , todos descartáveis….
    4-Pra finalizar a título de informação,a varig cresceu sobre o cadáver da PANAIR, liquidada por motivações politico/interesseiras/malignas- o que quiserem….
    Pesquisem…. https://epocanegocios.globo.com/Informacao/Dilema
    Mas isso já é outra história….